A loucura é sempre duas

 

Em 1935, os médicos Dr. Shelley e Dr. Watson, que trabalhavam em um hospício de Nyasaland, estudaram dois tipos de delírios esquizofrênicos, o primeiro, do “tipo” europeu, o segundo do “tipo” africano. O primeiro poderia ser assim caracterizado:

 

Ser um homem muito rico e ter construído o hospício às suas expensas.

Céu e terra são separados e ele quer juntá-los.

Port Herald é de sua propriedade e sua esposa é branca.

É proprietário de uma mina de prata, filho de um rei, um rei inglês.

Considera-se Deus,  a pessoa mais poderosa do céu.                                             

Vê-se com muitas riquezas

Vive no palácio do governo, lugar que lhe foi dado pelo governo anterior

É comandante de um grande exército.

 

O segundo, do negro:

 

É um leão, quer matar pessoas e comê-las

Pensa que é um cachorro latindo que quer morder pessoas.

Sua mulher está sempre cometendo adultério

 

Citação retirada do livro  livro “Curing their ills;

colonial Power and african illness, de Megan Vaughan

 

Ou seja, o louco que se imagina ou que de fato é branco, traça para si um destino mais ou menos este: construiu na África um “habitat” que, para seu deleite, não há lei nem princípios normativos; Deus ficou lá longe, vai daí, quem sabe, como Cecil Rhodes, num cochilar do Criador, ele pode anexar parte de Sua propriedade; afinal, navegou preciso, viveu de forma imprecisa. E por saber o quanto a vida balança  entre o constante mar e a terra firme, repete para si, navegar é preciso, viver não é preciso, mas não como sentiu o tolo poeta e repetiu o romântico Caetano que tinha Vella no nome, e sim como profetizou o calculista espírito de Petrarcha no século XIV: são navegantes que fazem a vida.

Para prosseguir lá carece da moça a gerar novos meninos e do porto para a mina.

Seu pai tendo sido rei, lógico, ele é um rei, e seu companheiro é o exército de poucas falas e nenhuma amizade.

Garantem Shelley e Watson que se o delírio é de ser um negro, o desejo é de ser rei, mas o rei das selvas para acabar com os estrangeiros que a invadem. Ameaça-os, fareja-os, insiste em não se deixar domesticar.

Como leão, espreita. Como cão, calcula o valor do resto da caça em troca da obediência. Não está entre o lobo e o cão, entre pensador selvagem e pensador civilizado, Levi nunca conversou com ele para inteirar-se, está pensando o que lhe vem à mente. E nestes pensamentos soltos e embaralhados vê sua mulher com tantos outros homens quanto foram aqueles a quem serviu e que foram amáveis com ele… Por que diabos teriam sido amáveis?

Delírios de ser negro nas colônias não são muito bem descritos, é evidente, nesta condição o poder de fala é pequeno, quando não errático. Mesmo um leão vira caça diante do caçador indômito de arma na mão. E cuida para não morrer, pois morto não surta.

Isso me faz lembrar o matemático John Forbes Nash, representado no  filme “Mentes brilhantes”, de Hon Howard (2001, interpretado por Russel Crowell), cujos desatinos eram  muitos, mas as máscaras que recobriam seus delírios, não. Imaginava que os Estados Unidos estavam em constante ameaça de invasão pelos inimigos soviéticos. E cabia a ele decifrar os muitos e misteriosos códigos secretos do inimigo – entregando-os, cotidianamente, à CIA, num esforço semelhante ao de Sísifo.

Nash se assemelhava também com os físicos de Dürrenmatt, cujo internamento no hospício os impediriam de ver que as bombas por eles involuntariamente construídas já teriam sido detonadas por seu médico, ele, o verdadeiro louco.

Loucos olham profundo no espelho do mundo.

Outrossim  por que confiar nos relatórios deixados em Nyasaland? Quem é Shelley, algum herdeiro da autora de Frankenstein? Watson, codinome para sugerir o mesmo talento do assistente de Holmes, ou do mais famosos dos psicólogos experimentais de todos os tempos? Claro que não. Certamente não teriam sido enviados, praticavam a Medicina como curiosos? A Metópole é quem pagava seu soldo?

Se é verdade que a loucura é o avesso do desejo e de um si mesmo sem o eles, soviéticos eram leões, brancos, estupradores, negros, sedutores incorrigíveis, todos poderosos.

Mas isto tudo pode não ser verdade.

Pode que Dr. Shelley e Dr. Watson sejam  os loucos. Quem garante que são médicos? E qual universidade deu validade às suas teses?

Ficaram assim depois de terem sido enviados a Nyasaland.

Já há tempos queriamm regressar, mas não podiam pois estavam a serviço de Sua Majestade; por isso desejavamm ser eles os reis, para não obedecerem senão a si e a sua honesta consciência. E sonhavam comprar toda a prata extraída dali de perto do porto que é de Herald, que tem o governador em  suas mãos, embora sua esposa  seja uma adúltera e o criado, ah o criado, furta-lhe os charutos e bebe como um cão danado. Nunca iniciou a navegar nem calcula o quanto é preciso viver.

Os médicos temem os leões, preferem os cães, dóceis lobos, estão ali mas não se arriscam às selvas, são apenas médicos em missão. Chegaram como Livingstone, mas seu barco era a remos, nunca viajaram nem construíram um palácio, tampouco escreveram livros.

Quando se descobriram diamantes na região, a loucura virou sã, até Leopoldo foi considerado um gentil homem, e Carl Peters, apenas indelicado. Vieram financistas, ladrões, assassinos, mentirosos, vaidosos, mais missionários, banqueiros, vendedores de peles, compradores de marfim, foi daí que Watson aproveitou para montar um consultório particular. Fez uma poupança de razoável monta, comprou passagem para a Argentina, onde de inglês se fez passar por holandês, mudança relevante a favorecer-lhe o ingresso no clube alemão.

Lá começou a clinicar, mas sua indisfarçável sudorese a cada vez que a palestra requerida versava sobre a “raça de senhores” dificultou-lhe o exercício do ofício; daí não tinha mais como negar, definitivamente era outra pessoa, pegou o ouro que tinha, fez uma fazenda, a fazenda cresceu, comprou território no Paraguai, lá contratou índios para trabalhar como seus nativos. Virou financista da noite para o dia, mas já não mais lá e sim no Rio de Janeiro.

Nunca se casou. Colecionava cavalos de raça no haras da família Bragança.

Iniciada a Segunda Guerra Mundial, adquiriu o hábito de tomar absinto e enamorou-se de uma japonesa. Em 1971, foi encontrado morto em uma de suas residências em circunstâncias jamais esclarecidas. Tinha 3 passaportes.

Shelley deixou Nyasaland logo depois de Watson, mas não abandonou a África de pronto, e sim, a carreira de médico. Cansou-se da filantropia que para muito não servia.  Casou-se com a filha de um rico fazendeiro, pioneiro da borracha. O pai da moça deu-lhe um chute nos traseiros depois do décimo quarto filho que fez nas criadas, eram muitas Agares a humilhar sua Sarinha.

Como sabia de uns podres do guardador de livros da fazenda, extorquiu-lhe até a alma e foi para a Alemanha. De lá, seguiu em comitiva para o Amazonas,”prometeram-lhe”, se Hitler fosse vitorioso na guerra, aquela região seria uma colônia germânica e fariam dos índios, escravos. Enfim, nativos criados seus.

Logo que chegou, percebeu que aquela empresa não ia dar em nada, o chefe era um cientista louco que ficava a classificar crânios de macacos e de homens e a colecionar as ferramentas de trabalho dos trogloditas indígenas. Além disso, descobriram suas atividades de contrabandista e que estava tendo um caso com a sobrinha do caudilho local.

Mudou-se para La Paz, arrependeu-se de ter abandonado seu nobre ofício de juventude e montou um consultório. Investiu também no cultivo de uma certa erva que o deixaria milionário não fossem os atravessadores e a Interpol. Que importa? Com pouco dinheiro também se monta um hospital psiquiátrico, o qual exige pouco equipamento, curam-se almas e isolam-se os incuráveis. Além de ocultarem os sifilíticos das boas famílias.

Lá ficou por muitos anos, parecia contente ainda que solitário. Até ouvir que ao norte podia ter bauxita, se descobrisse as minas, com o dinheiro, poderia buscar sua meia irmã que morava na cidade do Cabo com o sobrinho, formar um lar aconchegante. Todavia, em uma expedição pelo rio Marañón contraiu malária, delirou de febre e de medo e, ali agonizando, viu jibóias, jacarés, jararacas, jaguatiricas, João Batista, João do Apocalipse e Jesus. Lembrando-Lhe que um dia fora filantropo, pediu perdão a Deus por seu vício no jogo e por alguns equívocos cometidos no início de sua carreira no hospício. E expirou. Foi enterrado ali mesmo na selva. Os índios, por respeito à sua crença, cravaram sobre a terra que o encobria, dois madeiros em forma de cruz.

 

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Comentários:

  1. Naiara Krachenski disse:

    Muito bom esse texto!
    De fato, a discussão de Curing their ills nos inspirou muito!
    Abraço,
    Naiara

  2. Marion Brepohl disse:

    Aliás, todas os nossos debates.
    Grata pela companhia inteligente

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