A mão armada

Minha querida Violeta,

 

Escrevo este mail porque até hoje tudo isto é muito difícil para mim. Sempre me perguntarão sobre minha história de lá onde morava e porque esforcei-me tanto para seguir a carreira de médico, especialidade, ortopedista.

Para você, confesso, por motivo algum. Estudei e passei. Não sabia no que passando.

Nunca fui um médico de sucesso, nunca serei. Nenhum caso difícil veio a mim até hoje.

Mas o que tenho de falar: era uma pessoa com 13 anos, já uma pessoa; meu pai, um homem de pele bem escura, minha mãe, de pele clara.

Papai dizia que queria que eu tivesse um diploma. Dizia isto sonhando com o diploma de médico.

Mamãe olhava o boletim e fazia as contas – minhas notas e as notas para passar.

Você sabe, Violeta, acabei passando.

Mas hoje, lá se vão tantos anos, deu-me uma vontade grande, solitária e penosa de contar o que nos sucedeu e que muito poucas pessoas sabem.

Um dia, quando já na cama para dormir, espantei-me com uma estocada, e logo depois, o latido de Rex. Pensei que ele tivesse sido atropelado. Mas não, algo muito grave se sucedia. Pela veneziana, vi que ele se esvaía em sangue.

Abri a porta de meu quarto, e vi minha mãe rendida com um revólver apontado para suas têmporas. Meu pai já sangrava, estranhamente deitado de bruços ao lado da cama, como se alguém o tivesse posto ali, o olho arregalado mas inerte.

Dois homens: um com muito medo, outro, com muita raiva. Agarraram minha mãe pelos cabelos e pelos braços e a jogaram para dentro de meu quarto, sussurando: “não saia daí”.

O com medo tinha um cacetete e ficava mexendo o rosto para ver se alguém chegava. O com raiva não tirava o revólver da mão e parecia prender algo no colarinho.

Eram hóspedes estranhos, inóspitos. Infraternos. Tiraram a carteira do bolso do meu pai, foi a última cena que vi antes que fechassem a porta e que me ocorresse que no dia seguinte eu me certificaria se Rex havia morrido ou não.

Desde que minha mãe ficou viúva eu trato dela de uma maneira comum, não sei muito sobre o que conversar.

Mas hoje, quis falar deste assunto e então escrevi este mail. Nunca mexi nos pertences de meu pai e não sei com quem ficou.

Você tem alguma ideia?

Mas isso já foi, a vontade de falar cessou a vontade de ver

Um abraço aos seus

René

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