A suburbana

 

Onde nasce o sol? em minha janela

Diana começou a frequentar a cidade quando o prefeito construiu umas canaletas e lá pôs uns ônibus que ligavam a periferia ao centro.

Era só sair de casa e pegar o ônibus, e Di (leia-se Dai, como uma princesa  foi) enrolava a saia na cintura até transformá-la em saia acima dos joelhos, toda torta. Para disfarçar a saliência, dando a impressão de ter um ventre maior do que era, colocava a camisa para fora e abria um ou dois botões próximos ao seio. Que seu pai não viesse para aquelas bandas, que não a visse com os cabelos soltados do elástico e com os lábios ensopados no carmim.  Seria uma vergonha para ela, mas vergonha que passa rápido, só quando se os olhos encontrassem os cenhos franzidos.

Era uma hora que durava o trajeto do ônibus. Ali sentada ficava com o olhar vagamente vesgo, olhando sem ver as vias lentas e suas curvas, e sonhava que Tarcísio Meira lhe sorriu, que ela era uma personagem de Regina Duarte, que tinha sido eleita Miss Brasil e depois casado com Agnaldo Rayol ou não! Melhor, Ronnie Von. Apaixonada também pela voz de Roberto Carlos, imaginava como seria uma felicidade só se um homem como aquele a quisesse.

Parava no ponto que dava para um salão onde tinha a domingueira dançante.

Ali conheceu Miguel, filho de mãe solteira, que disse para ela, vem trabalhar no centro e estudar supletivo, tira o diploma rápido e, ajudando nas contas da casa, eu e você, casar. Logo alugariam uma kitinete, comprar móveis aos poucos.

Mas ela era mais bonita do que isto. Pobreza e beleza, combinação perigosa, resulta sem tempo para poesia, logo logo, homem rico e sem vergonha aparece.

Apesar de um dente quebrado e das calças puídas, Miguel lhe abriu um pequeno horizonte; ao invés de garçonete no bar do turco naquele bairro onde só não lhe passavam a mão porque conheciam seu pai, podia fazer curso de datilografia e trabalhar em escritório.

Logo o bairro lhe soava acimentado por demais e o que via no centro era fio elétrico, prédios, cortinas imensas, anúncios e avenidas. Estudou, tirou o certificado, foi parar num escritório de advocacia, tudo com tapete, telefone, luz de mercúrio.

Logo o chefe começou a olhar para ela, ela notava que ele olhava seus cabelos, pernas e sorrisos; ela notava o quanto a queria e como, em volta dela, coisas que antes pareciam sem importância, iam sendo percebidas como uma mão delicada e pequena repousada sobre a mesa do jantar.

Olhava assim para ele, todo de terno como ela merecia, e assegurava-se que seu futuro era ali dentro como sonham as meninas transpiradas e lívidas.

A ela, no ônibus, ocorreu-lhe que no caminho havia muitas casas para olhar e podia escolher uma delas. Por isto se demorava, acaso já mecanicamente olhava, para fixar-se no arco que dava para um enorme portão; no dia seguinte, pela manhã, do chefe tinha as primeiras notícias pelo correio chegado em suas mãos e via seu nome num envelope usado, minutos isolados em que se descompassava.

Gostava da marca de seu relógio, dos mapas acima de sua cabeça quando ele estava sentado, e logo ao lado, quadro do inequívoco diploma a denunciar que era mesmo um advogado. Por que preservava aqueles mapas? Por onde já houvera estado? Gostava do bigode, do sorriso que, como o seu poder, era discreto. Ficava namorando a maneira como enxugava as mãos, passando a toalha entre os dedos, depois a largava com pressa, do afastar a cadeira com um chute na madeira pé da mesa, e do seu solene modo de levantar-se.

E assim ia tomando posse de tudo. Do café dele, ela o levava, das canetas ajuntadas num pote estranho de aço inox, de seu bom dia e de seu até logo. Tudo era dela. Era a autora daquele amor quase silente e ela podia tudo a partir de então, já dava ordens aos cães de guarda.

Tanto assim que quando ele percorreu com as mãos seus seios, nada lhe surpreendia, tinha certeza. Foi com ele, cabelos soltos, gemidos baixos. E rodopiou, sorriu, abaixou-se, esqueceu dos dias assim amontoados, esqueceu-se de si.

Logo adiante seria desprezada. O cabelo sem o trato conveniente, Deus a esquecera, o ônibus demorava a chegar, moça sem preparo, detestam-se choros e reclamações. A bolsa era de courvin, o perfume, uma falsificação grosseira, dentes tortos sem esperança de botar aparelho, pernas com pelos raspados e não depilados. Eram parcos os recursos para prendê-lo.

Voltou à casa, e lá bem perto deparou-se com pessoas no salão da escolinha, a discutirem uma mobilização popular; em outra esquina, um cinema que virou igreja cheia de crentes cantando. Levariam algumas novelas até que ela decidisse em qual dos dois edifícios seu corpo atravessaria a porta.

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