Alfred Döblin e seu (quase desconhecido) romance sobre o Brasil

 

Alfred Döblin é reconhecido como um dos autores mais importantes da literatura de língua alemã. Apesar do sucesso de alguns de seus títulos, como por exemplo, “Berlin Alexanderplatz”, a trilogia “Amazonas” não obteve muito público nem à época em que foi publicada (entre 1935 e 1937, os dois primeiros volumes e 1947, o terceiro), nem nos anos ulteriores. E embora o livro verse sobre o Brasil e muitos estudiosos tenham recomendado a tradução deste livro para o idioma português, ainda não dispomos de tal leitura.

No entanto, a obra é muito rica tanto do ponto de vista estético como filosófico e antropológico.

Eu a estudei e escrevi sobre ela em meu livro “Imaginação Literária e política: os alemães e o imperialismo” (EDUFU, 2010), mas continuo a reler e a repensar Döblin, cada vez, eu o leio de uma maneira.

Pergunta: como escrever sobre uma região jamais visitada, tampouco, objeto de estudo sistemático? Segundo o que li, exceto por uma pequena correspondência mantida com Stefan Zweig, seu conhecimento sobre o Brasil se deu apenas a partir de leituras realizadas quando no exílio, em Paris. Com Zweig compartilhou apenas o otimismo e o desejo de poder ver seu livro publicado aqui.

“Amazonas” é dividido em três volumes: “Viagem ao país sem morte”, “O tigre azul” e a “Nova Floresta”. Considerado por ele mesmo como um romance histórico, tal livro, dada à imigração interior a que se submetera o autor, via-se impregnado por inúmeras projeções sobre seu país de origem – o infortúnio do afastamento de seu público leitor, do idioma, dos amigos e do emprego. E claro, o outro, neste caso, é desenhado com certa idealização, beleza e lócus de esperança, desejo de si e para si.

Mas este lócus não foi escolhido de forma arbitrária; conforme o próprio Döblin, o romance tem de ter alguma semblância com a realidade. Personagens, fatos, períodos, podem ter ocorrido, só o fim é que não: o fim pertence a quem o escreve. E a história escolhida pelo autor foi o cotidiano e os costumes dos indígenas e seu encontro e confronto com os europeus.

Dentre as inúmeras leituras que podem ser realizadas sobre este livro é a sua crítica, já na década de trinta, à civilização européia. Construindo diversos personagens, o “eu” europeu – quase sempre no singular e o “eu” nativo, quase sempre no plural, o autor traça paralelos entre o Imperialismo praticado em África e na América Latina e o totalitarismo, a guerra contra os indígenas e as duas guerras mundiais, a “velha” e a “nova” floresta”.

Crítico “avant la lettre” do eurocentrismo, Döblin não o faz, entretanto, negando os valores humanistas e cristãos, legado que aguarda, segundo ele, reemergir como sentimento moral na própria Europa.

 

Sobre ele, manifestou-se Jorge Luis Borges, cujo comentário, ainda que longo, vale a pena mencionar:

 

Döblin es el escritor más versátil de nuestro tiempo. Cada  libro suyo (como cada uno de los dieciocho capítulos del  Ulises de Joyce) es un mundo aparte, con su retórica y su  vocabulario especiales. En Los tres saltos de Wanglun (1915) el  tema central es la China, con sus ceremonias, sus  venganzas, su religión y sus sociedades secretas; en  Wallenstein(1920), la nsangrentada y supersticiosa  Alemania del siglo XVII; en Montañas, mares y gigantes  (1924), las empresas de un hombre del año dos mil setecientos; en la epopeyaManas (1926), la victoria, muerte y resurrección de un rey de la India; en Berlin Alexanderplatz (1929), la vida miserable del desocupado Franz Biberkopf.

En Die Fahrt ins Land ohne Tod Alfred Döblin ajusta la narración a los cambiantes personajes de su novela: tribus de la perpleja selva amazónica, soldados, misioneros y esclavos. Es muy sabido que Flaubert se preciaba de no intervenir en sus obras, pero el espectador de Salammbó es  siempre Flaubert. (Por ejemplo: el célebre festín de los  mercenarios es una labor arqueológica, que nada tiene que  ver con lo que verosímilmente sintieron y juzgaron los  mercenarios.) Döblin, en cambio, parece transformarse en  sus criaturas. No escribe que los españoles intrusos eran  barbados y blancos; escribe que sus caras y sus manos -lo demás no se distinguía- eran del color de las escamas de los  peces, y que uno de ellos tenía pelos en los cachetes y en el  mentón. En el primer capítulo intercala deliberadamente un  hecho imposible, para no ser infiel al estilo mágico de las  almas.

[Textos cautivos, 7 de enero de 1938]

Apenas para despertar o desejo nos leitores, gostaria de citar um pequeno trecho que é, ao meu ver, o avesso do famoso trecho do romance de Conrad, “O coração nas Trevas”, que descreve o horror de Dr. Kurtz ao mirar o nativo pigmeu:

 

Este homem pré-histórico amaldiçoava-nos ou implorava-nos ou dava-nos as boas-vindas? Quem poderia saber? Entre nós e o meio ambiente não havia qualquer entendimento; passávamos entre eles como fantasmas, cheios de espanto, mas secretamente apavorados, como homens sãos diante da exaltada rebeldia dos loucos … e os homens … Não, não eram inumanos. Mas isto era o pior, essa suspeita que me invadia aos poucos de que não eram inumanos. Porque ao urrarem e pularem, e darem cambalhotas, e fazerem trejeitos horríveis, o que nos impressionava era justamente a idéia de que fossem humanos como nós, e foi difícil pensar no nosso remoto parentesco com esse tumulto selvagem e violento

(citado por Arendt em “O sistema totalitário”, O sistema totalitário, 1978, p. 260).

Quanto a Döblin, são os indígenas que fitam os europeus,

E quando os três homens, escondidos entre os juncos do banhado com os pés na água, imóveis e próximos um do outro, vêem aparecer, de cima para baixo, uns vultos que saíam da floresta para a clareira, (em direção ao lago), são tomados pelo assombro. Eles tinham a aparência de humanos, mas estavam cobertos no corpo, nos braços e nas pernas com tecido colorido, suas faces e mãos eram brancas como escamas de peixe, e o maior deles tinha pelos nas suíças e no queixo. Todos portavam um cinto com uma espada, e atrás das costas, via-se em todos eles, um cano. O que estes três horríveis seres saídos da floresta falavam, os homens escondidos no banhado entre os juncos não podiam entender. Os três se jogaram no chão, deixaram seus canos por ali, resmungaram, rosnaram, murmuraram, agindo como pessoas exauridas. Depois, o sinistro homem de barba preta se levantou, os outros o seguiram, e desceram pela escarpa até a lagoa. Ajoelharam-se, debruçaram-se sobre ela, a água os tinha encantado. Os pescadores continuavam com medo, enquanto aqueles seres começavam a beber esganadamente, como se estivessem morrendo de sede. Ousaram beber aquela água envenenada, tinham talvez os peixes na mira, pretendiam tornar o efeito do cipó ineficaz

(Die Fahrt ins Land ohne Tod, 1991, p. 21, tradução de M. Brepohl).

 



 

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