Da ditadura – A sigla EPB

Se não me engano, se estou bem lembrada, o meu professor de Estudos Brasileiros foi colega e amigo de Refém.

Os jovens talvez não saibam do que se trata: era uma disciplina que se tornou obrigatória para todos os cursos de nível superior desde 1969, pois os responsáveis pela disseminação da Doutrina de Segurança Nacional consideravam que a segurança do país passava pela formação moral das pessoas. Bizarro para quem associa, aliás, corretamente, segurança com ameaça estrangeira ou com crimes. Mas à época era assim. À época se falava do inimigo interno. Mais perigoso do que o estrangeiro porque insidioso e capaz de todas as traições para subverter a ordem.

Então EPB foi implantado, de forma lacônica, pelo Decreto-Lei número 869 de 12 de setembro de 1969. Era uma disciplina que equivalia à Educação Moral e Cívica, cujo conteúdo já estava bastante desacreditado até pelos adolescentes, que dirá entre universitários.

Bem, decretaram, mas quem ia ministrar tal curso?

Para os alunos de minha turma na universidade, foi um delegado de polícia, “advogado formado”, como ele orgulhosamente se apresentava. Anotei alguns de seus comentários:

Sobre os excepcionais: – Não tem porque criar leis para auxiliar os excepcionais, pois se eles já são excepcionais, para que privilégios? E pessoas como eu, como é que fica?

– Comunismo que dá certo é o de minha casa: lá, não tem desculpa de ter empregada, faço minha mulher lavar a privada para aprender, ela tem de saber fazer de tudo.

Sobre a pena de morte: – se sua filha é estuprada, se minha filha fosse estuprada, ia-se fazer o que?

Sobre o ESTADO: – O Estado é a Nação politicamente organizada. Por isso Salazar disse: nada contra o estado, tudo para o estado, todos com o estado

– O Caetano Velloso é mais perigoso que o Chico Buarque. Este Chico Buarque já todo o mundo sabe que é comunista, se bem que eu ache que a família tem algo com a Máfia, “teretetê”, vão para a Itália. Mas o Caetano quer acabar com a moral, com a família. E acabou com a família, daí que entra o marxismo.

– Aquele grupo das “Liberdades democráticas” me faz rir. Sabe lá o que é democracia? Aquele grupo é tudo burguesinho. Sabe como eu sei? Levaram 20 pizzas num apartamento de 70 metros quadrados. Não pelas pizzas, mas será que não sabiam que a polícia ia notar que tinha reunião? Comunista já nunca que ia fazer isto.

– Não concordo com o curso de Educação Moral e Cívica no colégio; basta ensinar História. Afinal ensinar História já é educar cívica e moralmente.

Tudo isto nos soa patético. Mas depois a gente fica pensando e se pergunta: quem ia levar isso a sério? Tinha muita gente a favor do estado de exceção, anti-comunistas radicais, anti-intelectuais, entusiastas do crescimento econômico acelerado, mas estas aulas não acrescentavam senão mais tédio no cotidiano dos conformados. Os operadores da ditadura não precisavam de argumentos, nem de aulas precisavam. E os que resistiam à Ditadura, iam ficar mais contra ainda.
Um dia encostei Refém num canto e perguntei, era uma pergunta sincera: quem aguenta estas aulas? Pra que servem? Ele respondeu:

É. Excessos…excessos de palavras
Mas estamos atravessando dias difíceis. Para ele também é difícil. E digo mais: é dificílimo.

Comentários:

  1. Jailton disse:

    Parece que ele era mais fã que leitor da literatura fascista…

  2. Marion Brepohl disse:

    Era. Era um não leitor, embora citasse muitos autores. Mas o que me impressionava era a maneira paranóica de falar dos comunistas, ou seja, todos que não o olhavam com tranquilidade

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