Carlos Antunes, professor

“Oi, menina, parece que teremos mais uma boa candidata para o pós”. Vi seu semblante alegre, sua rápida e costumeira passadela em meu gabinete, acho que estava com pressa, mas não deixou de trazer sua pequena saudação e novidade (?). Sabia que não precisava explicar muito: era mais uma aluna que ele acabara de atender e que queria ser sua orientanda de mestrado ou doutorado em 2014; orientar o deixava muito satisfeito e com discreto orgulho. Isso ele nem precisava me explicar, fui sua terceira orientanda, dentre cinqüenta outros. Realizava-se na pesquisa do outro que era também a sua.

E nem reagindo senão com um sorriso ao seu comentário, antes que ele desaparecesse com a mesma rapidez com que veio, apressei-me em perguntar: “e o que você está achando das manifestações de rua?” “Eu? Não sei você, mas eu estou achando ótimo”.

E se foi.

Dois dias depois, em meio a uma viagem, recebi um telefonema de Ana Paula Vosne Martins, minha amiga e colega, também sua ex-orientanda: chorando, explicou-me que não compartilhamos mais o mundo com Carlos Antunes. Sozinha, fui olhar na Internet: duas notícias com duas fotos muito sugestivas: uma bem espontânea, ele, de camiseta, outra, circunspecto, terno e gravata, talvez do tempo em que foi reitor, concedendo entrevista sobre a universidade.

Conheci Carlos Antunes muito jovem, fui sua orientanda de monitoria antes do mestrado. Naqueles tempos, era eu que ia ao seu gabinete. Passamos a conversar cada vez mais sobre a universidade e sua administração, cujas relações nos pareciam mais autoritárias do que o governo autoritário exigia. Havia censura por todos os lados, impressionava-nos o número de pessoas que se arrastavam pelas cerimônias oficiais com o fito de sondar sobre quais nomes deveriam ser “queimados”, expressão que era um eufemismo para a delação. E as tentativas de proibir leituras, algumas risíveis, de onde tirávamos chacotas cheias de sarcasmo. O jeito brasileiro de enfrentar e suportar a ditadura sempre passou pelo riso e isso permanece, felizmente, por motivos outros, no nosso meio acadêmico.

Acho que foi nesta época que criamos a APAH – Associação Paranaense de História e a Revista “História: questões e debates”, um espaço mais democrático de convívio entre historiadores. A revista era artesanal, as imagens da capa, trabalhadas a partir de fotos em preto e branco, a distribuição, a gente mesma levava no correio, cada um, um tanto, e havia enorme amizade intelectual naquela iniciativa. Carlos foi o primeiro presidente da APAH, entidade que mantém a revista, hoje, consolidada como uma das melhores do país na área de História.

Com Ditmar Brepohl, José Domingos Fontana, Emmanuel Appel, Roseli Rocha dos Santos e outros professores (eram mais, mas me lembro particularmente destes) Carlos organizou o “Movimento Universidade Necessária”, pela redemocratização da vida acadêmica e pela melhoria da qualidade de ensino que passava também pela liberdade de cátedra. Convidou a nós, seus alunos mais próximos: Antonio Simão Neto, Cintia Braga Carneiro, Daysi Lucia Ramos, Lygia Gomes Carneiro, Marco Mello, Renato Carneiro Jr, Regina Walbach, Roseli Boschilia e eu, só para citar os de minha turma no curso de História. Logo depois, elegeu-se Presidente da “Associação de Professores da Universidade Federal do Paraná”.

Depois disto, muitas e muitas funções administrativas, sempre passando, todavia, pelo “Departamento” ou “DEHIS”, pausa para saber dos colegas como iam as coisas; pós-graduação, CAHIS (nosso Centro Acadêmico de História), eleição para a chefia, reivindicações dos alunos e, claro, para atender os orientandos e orientandas. Tantas coisas rotineiras que agora me parecem tão vagas. Talvez a sua vaga na minha memória ainda não tenha se processado.

Depois de cumprido o mandato de reitor e de um cargo no MEC (Secretário de Ensino Superior), ele voltou a ser somente professor. Voltou do mesmo jeito que foi. Amigo, aplicado à pesquisa, interessado nas tarefas rotineiras, orgulhoso dos orientandos, bem humorado com as idiossincrasias de nosso departamento, ambiente de muitas divergências, mas com pessoas dispostas a dar o seu melhor para os cursos e pesquisas que desenvolvem. E que se unem sempre quando a questão é História ou “o departamento”, codinome entre o carinhoso e o imperativo da profissão.

Num relance, ali, longe dos colegas e dos amigos, apenas com a voz de Ana Paula ressoando, tentando ligar para Karina, Renata, Renato e Roseli sei lá prá que, ainda perplexa, todo este tempo me passou pela cabeça: eu não queria perder qualquer lembrança, desde o começo da amizade, por certo, tensa porque voltada às questões públicas, mas não menos densa, pelas mesmas razões, concluí como fui privilegiada por conviver com esta pessoa gentil, democrática e plural, o Professor Carlos Antunes. E sem desmerecer toda a sua atuação em tantas funções, que comprovam seu espírito público, é nesta condição de professor que pretendo lembrar-me de Carlos.

Porque não há ex-orientando a não ser no plano formal… a gente sempre se desorienta quando olha para o professor.

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Comentários:

  1. Guilherme Saccomori disse:

    Que bonito professora! Certamente foi impactante para todos nós, mesmo aqueles que pouco conviveram e pouco o conheceram.

  2. Ana Paula Vosne MArtins disse:

    Marion relembra de maneira emocionada e ao mesmo tempo precisa a pessoa singular que foi Carlos Antunes. Tenho conversado com algumas pessoas a respeito de como ele foi capaz de agregar pessoas tanto na sua boa vida de homem público e de homem sensível, quanto no momento de sua inesperada morte. Atônitos e consternados estavam todos, homens e mulheres de todas as faixas de idades, dos 80 aos 18 anos. tentando lidar com essa perda absurda.
    Nós, seus amigos, ex-orientandos e jovens orientandos, vamos sentir muito a sua falta. Uma homenagem à altura de Carlos Antunes é seguirmos em frente defendendo uma universidade pública no sentido pleno dessa palavra, abertos ao diálogo e à escuta dos outros. Saudades.

  3. Edgar disse:

    Marion, uma perda que todos nós sentimos. A última vez que me encontrei com o Carlos foi na praia de Boa Viagem, em Recife. Eu estava num Congresso e ele estava curtindo ferias com a família depois do fim do mandato na reitoria. Saudades…

  4. Neli Maria Teleginski disse:

    Linda homenagem!

  5. IARA LIS NUNES disse:

    Parabéns professora pela linda homenagem. Também tenho muito orgulho de ter sido orientanda do professor Carlos

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