Cidades caladas

Eram menos que ruas. A luz, uma ou duas lâmpadas
por casa, era trazida por fios longos desde os postes de madeira. A sede da prefeitura era grande. Igreja havia existido mas as beatas, como eram poucas, deixaram arruinar. O pároco, desde há muito, somente a cada mês. Porém, procissão, sim. Não faltava, era segura, procissão do padroeiro e do dia de finados, os dois dias, pertinho um do outro. Era assim, ali a igreja foi embora cedo, a ferrovia chegou tarde.

O prefeito vinha de raro em raro ao centro e ninguém punha duvidação de que ele viajava muito para a capital.

As portas e janelas ficavam abertas, mas o filho retardado do sapateiro,  trancafiavam no quarto de manhã até à noite.
Madrugada adentro soltavam-no no quintal para andar, e aí os meninos espiavam por cima do muro, isso quando os da casa não os tocavam fora.

Tinha o aleijado que pedia esmola, o mendigo de
porta em porta – “tem pão velho?”, e a enfermeira, pobre, esquecida,  que mudou de profissão, virou da vida.

No bar iam só os que moravam afastado, pois, sabe-se agora depois que o padre morreu, ocorriam muitas brigas. Um encarava o outro, bastavam uma ou duas palavras que o olhar esbodegava e iniciava o entrevero.
Com faca e pistola só os muito bêbados. Por isso, o dono do bar que também tinha uma venda, evitava ficar com o estabelecimento à disposição depois que o rádio parava de funcionar. Subia à casa que era no andar de cima, o qual se alcançava por uma escada estreita à direita.
Dormia com a empregada, uma negra que, depois de três abortos, “fechou- lhe a madre”, como dizia a parteira.

À costureira, quase nunca pagavam ou pagavam muito pouco por seus serviços. Parece que o pai dela foi grileiro, e dali, matador. Sumiu depois que matou uma “madama”; é que o marido desconfiava dela,
pois uma vez fugiu de casa, porque na casa tinha uma sobrinha com quem ele se deitava.

A solteirona, que demorava a envelhecer, era
também a professora. Varria toda hora a frente e a calçada. Acreditavam que era uma desculpa para sair à rua e ver o que se passava.
Engano: não se passava nada naquele mundo onde, dir-se-ia um século depois, nada era cão.

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Comentários:

  1. Naiara Krachenski disse:

    Gostei da percepção do cotidiano contida nesse texto e do entrelaçamento dessas vidas.

    Aguardando novas publicações…

    Um abraço!

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