Comemorações natalinas

 

Seu atraso foi notado

Desculpem, é que eu havia avisado que não poderia chegar assim tão no horário

O aperitivo esquentou

Podiam começar sem mim

Não é o costume da família

Bem, mas já que chegou, tome assento ao lado de Hans, ele também é sozinho.

Como vai, não o conheço.

Claro que conhece, estive em sua formatura e em outro aniversário da família.

Desculpe, sou péssima fisionomista.

Oh, Valter, você aqui, claro que não está atrasado. Um aperitivo, vinho, água?

Não bebo, grato.

Não bebe só se for desde ontem, sussurra Elizabeth, de todas, a que se casou com o mais rico da família. Vê-se pelas olheiras que bebe. Deve estar de ressaca e pela milésima vez prometeu parar, sentencia Elizabeth desproporcionalmente bem vestida para um almoço de Natal antes do Natal.

Hilda, você engordou, hein? Não, é que faz tempo que não me vê, esqueceu como sou. E você, querida Elizabeth, continua ajudando o marido nos negócios? Relações públicas, é isto?

Eleonora não sai da frente dos canapés, tampouco os serve a outrem.

Quem será meu amigo secreto? retruca Hilda fugindo para perto da tia centenária nauseabunda semi-acordada, cujo nome ninguém usa, só tratam por Nena.

E agora, meus queridos, fala em tom mais alto e com voz infantilizada o dono da casa, Frederico. Amigo secreto só depois da comida, entre o salgado e a sobremesa, não vale apalpar os pacotes. Ah, não , hoje não teremos sobremesa, o que? ah, será apenas o licor e o café. Às quatro serviremos torta com chá, como sempre nos domingos. A surpresa é depois do chá.

Coitada da Nise, vem sempre sozinha e fica recolhida, a gente que é dona da casa fica até vexada; não teve sorte no casamento, nem no primeiro nem no segundo. Faço de tudo para não se sentir deslocada, mas não adianta. Também, ela vai falar de que, nem teve filhos!

Gente, o terno do Reynaldo não parece puído?  Ele nunca guardou dinheiro, nunca pensou na velhice, sempre se achou superior a nós da família. E Hilda parece que não faz nada para ajudar, só faz reclamar e exigir. Por que casou com um comunista? Reynaldo e Hilda, não sei o que fez esse casamento durar. Talvez os filhos tenham segurado.

Queridos parentes e agregados: é chegada … baixinho: quer parar de servir vinho, vai acabar , …. é chegada a hora de tomarmos assento à mesa. Primeiro uma salva de palmas a nossa querida Elza, amada e devotada esposa, apesar de me dar muito trabalho com sua teimosia, mal de família, uma salva de palmas pelo delicioso almoço.

Nise, tentando  desesperadamente participar: Foi ela que fez tudo? Claro que sim, que pergunta. Desculpe, só achei que foi muito trabalho.

Bem, eu conto com o auxílio de minha secretária, Matilde. Ela tem vindo duas vezes por semana. Hoje a gente nem pode ter empregada, é culpa da bolsa família, prá que trabalhar? Mas os pratos principais, sim, fui eu que fiz.

Psiu, ô Valter, nunca ouvi falar que salada de cenoura com creme branco feito de farinha de trigo e leite e salada de beterraba com cebola fossem chiques. O rosbife não é de mignon e batata só cozida em água e sal, cadê o chique?

Psiu, Hans, o importante é a confraternização.

Dono da casa: Vovô Frederico, ele tinha meu nome, que coisa gostosa de lembrar, acho que é de um ancestral da nobreza que tivemos; vovô ia gostar de saber desta reunião aconchegante, apesar do tempo, e de certos rumos tomados por alguns, com os quais não concordamos, mas fazer o que, o importante é que nós nos encontramos sempre que possível. Sempre sou grato ao bom Deus pelo presente que Elza é em minha vida, nossos filhos que não puderam estar, Elza é meu melhor bem. A propósito, não sei se já contei a vocês, nós nos conhecemos numa comemoração de Natal, uma cantata lá na igreja. Emociona-me só de lembrar … algo que me faz rir até hoje, não sei se contei para vocês. Logo depois que a levei para conhecer os meus pais, mamãe perguntou de que família era ela. Soube pela minha irmã que mamãe, enciumada, telefonou às amigas para, digamos assim, contar a novidade e perguntar o que achavam de Elza. Mamãe era de morte, muito inteligente, como meu pai.

Hilda, tentando continuar a fazer rir: Ah, essa eu também não posso deixar de lembrar. O primeiro comentário de titia sobre Elza foi que seu vestido era curto demais e que faltava uma combinação.

Valter e Terry irrompem em risos. Mas maninha, também fizeram muitas investigações sobre o Reynaldo, não queriam seu casamento com ele.

Reynaldo, de absorto a raivoso: E se eu soubesse como era a família, não teria me casado, Hilda disfarçou muito bem.

Minha família sempre te tratou com o bom e com o melhor, apesar de você já ter vivido com outra antes de mim! E quando mamãe ficou doente, você nem a visitou no hospital, mesmo assim ela te deixou o relógio que foi do nosso tio predileto.

Tampouco gostaram de mim, Reynaldo, Terry quase não se casou por causa dos pais, retruca Elizabeth como estivesse à espreita o tempo todo para retrucar.

E você, Nise? Nunca soube de nada, o importante é almoçarmos na paz de Deus.

Mas vocês só me interrompem. Quero dizer, sirvam-se à vontade. A cerveja quem trouxe foi o Reynaldo, agradecidos.

A narradora sem nome, que nenhum laço de sangue tinha com a família, que se atrasou todas as vezes para ver se dela desistiam, com o presente de amigo secreto dentro da bolsa suava frio só de imaginar ser motivo de comentários. Da última vez condenaram seus amigos gays. Falaram mal do jeito dela educar os filhos. A falta de dedicação aos familiares. A aparição no jornal criticando o canto coral do teatro. E o sotaque ligeiramente nordestino.

Ah, agora sim, fala com um sorriso mais infantilizado ainda o dono da casa, com um indisfarçável constrangimento pelo sofá de tecido gasto, agora à vista de todos que em pé, procuravam um lugar para amontoar os presentes e somente ali parecia ficar bem, era pertinho da árvore de natal.  Além dos cálices: ajuntados em cima da mesa, via-se que pertenciam a diferentes coleções e até um pirex foi usado, vazio, mais fácil identificar que não integra o conjunto da louça Meissen.

Agora, às presenças os presentes. Não sabem como eu e minha querida Elza estamos felizes. Antes de abrir os pacotes, porém, vou ler um trechinho do diário de mamãe:

 

Hoje é véspera de Natal. A Frederico que chegou ao mundo quase no mesmo dia do menino Jesus, amamento com carinho e Maria Luise olha este gesto de forma estranha: “mamãe, quando crescer, eu também vou ter de ser chupada?”

Papai intervém: puxa as orelhas de Maria Luise e a leva apara o quarto escuro. Sei que ela não perguntará mais nada sobre o aleitamento de Frederico. Meu marido é pai devotado. Pena que vai sair para a reunião dos membros do clube. Quando é assim volta tarde.

Mas amanhã teremos o nosso Natal, meus pais virão. Eu os admiro por todo seu esforço, chegaram aqui sem nada e logo se fizeram. Devo a eles tudo o que sou. E ao Frederico também. Quando ele chegar hoje ou amanhã cedinho, verá a árvore de natal que armei com todo o meu carinho. Família é tudo, nenum ouro do mundo vale meu lar.

 

Que todos nós nos lembremos de nossos amados pais. E agora, os presentes. Sorteamos e ao invés de dizer o nome, a pessoa diz uma qualidade do amigo; nós tentamos adivinhar.

Os presentes sorteados foram os seguintes:

– Uma caixinha de música made in China;

– um pacote com 3 sabonetes perfumados;

– uma agenda capa dura e bilíngue;

– uma caixa de bombons;

– um creme hidratante;

– um Papai Noel em raiom-poliéster e cabeça de plástico;

– um CD de André Rieu;

– uma toalha de mesa azul;

– champagne Moscatel dentro de uma caixa verde oliva;

– conjunto para servir café – 6 xícaras sem bule;

– três toalhas de lavabo bordadas à mão;

– um jogo de cartas de baralho de plástico.

 

A narradora anônima, mal desempacota o presente e sai antes de todo o mundo. Desculpa-se, tem outra confraternização para ir, esta do trabalho, não pode faltar.

 

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