Corrupção, violência e mentira desacreditam a democracia

“A mentira na política” é um artigo de Hannah Arendt, original pelo tema em si (dentre os cientistas sociais que conheço, poucos trabalham o tema da mentira, senão a partir do conceito marxista de ideologia) que procura estabelecer a diferença entre a mentira comum, fruto de nossa hipocrisia atrelada ao medo, e a mentira organizada, no caso, pelos políticos. Nesta segunda acepção, a mentira é vista como um artifício de utilidade, porque o mentiroso procura imaginar e falar o que o público espera  ouvir.[1]

A lembrança do texto de Arendt me veio à mente quando li o artigo  de Celso Nascimento, publicado na Gazeta do Povo de 8/02/2015, sobre o chamado “pacote de Maldades” de Beto Richa. O título da matéria traz consigo uma ironia: “O melhor está por vir”.

O jornalista inicia relembrando uma declaração do então candidato a governador, o próprio governador, asseverando que não adotaria medidas com os caracteres da ideologia da austeridade (nome que se dá a programas econômicos de orientação neoliberal). Disse o candidato: “O melhor está por vir. Agora com a casa em ordem e a máquina azeitada, vamos avançar mais”. Isto se deu em 9 de setembro de 2014.

Após eleito, nomeia como seu secretário  o economista Mauro Costa da Bahia (algo que na Grécia Antiga seria identificado como um tirano, ou seja, um governante estrangeiro) para justamente desqualificar seu próprio governo. O novo secretário aponta erros e adota medidas impopulares. É ele quem dá entrevistas, não o governador, artifício que tenta responsabilizar um outro pela autoria de medidas contra a população que votou em Richa. Como se dissesse: foi o técnico que agiu, não o político.

Quem é afetado direta e contundentemente é o trabalhador funcionário público: professores, policiais, aposentados, usuários do transporte público (claro está que nem os ricos, nem o Poder Legislativo, nem o Poder Judiciário sofrerão cortes drásticos). Mas diretamente é também afetada a sociedade como um todo, pelos serviços públicos precarizados, tendo ainda que arcar com o aumento de impostos. Em outras palavras, estamos pagando mais para receber menos.

Por seu lado, em nível federal, o governo que tem à frente um membro do PT anuncia medidas de ajuste fiscal, que também afetarão os trabalhadores. A população que foi às ruas principalmente no segundo turno, com as bandeiras do PT, do PDT, PC do B, do MST, de sindicatos e associações, certamente não está vendo sequer a continuidade de políticas de inclusão social (necessariamente compensatórias e não estruturais).

Mas parece que o PT tem uma auto-representação muito peculiar: ele é o povo (o grande risco que os mentirosos incorrem é o de acabar acreditando em sua própria mentira). Fico me perguntando: como se pode utilizar, como Dilma Roussef o fez, num mesmo discurso, o argumento de defesa do corte no seguro-desemprego num contexto de economia que caminha para a recessão e afirmar que em direitos de trabalhador não se toca?

Enquanto isto, na Europa, a esquerda parece assumir uma direção menos subalterna, mantendo a política de negociação que é a linguagem mesma da política. A vitória de Tsipras e o crescimento da popularidade do partido “Podemos”, na Espanha, bem como a maior visibilidade do “Front Gauche” francês, foram fatos que por si só, contribuíram para que o presidente Banco Central da União Europeia injetasse 1,14 trilhão de euros na zona do euro, não por ser de esquerda, mas por estar consiciente do papel das economias fracas no interior da economia européia: transferir capital financeiro às economias fortes, no caso, principalmente, a Alemanha. Daí o interesse em sua recuperação.

E os capitalistas alemães sabem disto. Por esta razão, consideram o momento de negociar com a esquerda.

No Brasil, segundo Carlos Drummond, em matéria publicada na “Carta Capital” de 4/02/2015, bastava a aplicação de 1% sobre as grandes fortunas para que a economia pretendida com o ajuste fiscal fosse evitada.

Mas isto não acontece porque é a esquerda quem anistia os ricos em momento de crise. Porque os ricos detêm a grande mídia. Porque a população, não usufruindo de um bom sistema de educação, acaba por formar opinião a partir de “slogans” messiânicos e catastrofistas. Porque a classe média, diante dos impostos, sem dúvida, escorchantes, apela para um líder forte que os livre das esquerdas que afinal, não as representa nem leva em conta a legitimidade política de suas reivindicações.

Na ausência de ideias – que bem se poderia emprestar dos gregos, desde a pólis até hoje, resta mentir.  E mentiras feito propaganda.

O resultado é difuso, mas assalta-me um ânimo muito pessimista.

Antonio Augusto Queiroz, diretor do Diap afirmou, no periódico “Pragmatismo Político”, em 7/10/2014 que, apesar das manifestações por renovação política e avanço nos direitos sociais realizadas nas “Jornadas de Junho de 2013”, o Congresso em 2015 será um dos mais conservadores de todos os tempos, tão ou mais conservador do que aquele eleito em 1964. Cresce o número de militares, religiosos (com destaque para a direita evangélica) e ruralistas eleitos e decresce a frente sindical na ordem de 50%. Além disto, 40% dos deputados e senadores considerados defensores das causas sociais ou não se reelegeram ou não se candidataram.

Longe de mim acreditar, ingenuamente, que um dia a política será praticada sem mentiras. “A mentira é a maior das artes cênicas”, afirmou Machado de Assis. Mas sem qualquer ação que toque a realidade, que faça os políticos colocarem os pés no chão, a imaginação vira alucinação, ou paranoica ou eufórica.

Resta-nos torcer por mais democracia. E a democracia hoje, no meu entender, não se encontra nos partidos, mas, talvez, nas fragilizadas manifestações de rua.



[1] ARENDT, Hannah. Crises da república. São Paulo: Perspectiva, 1973. p. 16

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Comentários:

  1. Claudia disse:

    Muito bom o texto Marion, diante da realidade que se configurou depois das eleições de 2014, com os deputados federais e estaduais que se elegeram é mesmo pra ficar muito pessimista…

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