Cultura material e gênero: a História das Mulheres no Museu Paranaense, por Priscila Piazentini Vieira e Renata Senna Garraffoni

“Cultura Material e Gênero: História das Mulheres no Museu Paranaense” foi uma intensa experiência de extensão, parceria entre o Departamento de História (DEHIS) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o Museu Paranaense (MP) nos anos de 2017 e 2018. Em seu primeiro ano de atuação, em 2017, promoveu a seleção de estudantes das graduações em Historia da UFPR para realizar a pesquisa e levantamento de material dentro do acervo do MP; realizou eventos direcionados tanto ao público mais especializado das universidades da região como à comunidade em geral. Foram dois tipos de eventos: as Oficinas, de caráter mais acadêmico sobre temas caros ao projeto, tais como gênero, cultura material, memória, história e cultura negra; as Rodas de Conversa, com o objetivo de escutar mulheres da região que contribuíram, com o relato de suas experiências, para organizar e construir uma memória de luta e resistência e, também, proposições para novas abordagens do Museu. Esse primeiro ano foi, portanto, fundamental para conhecermos o acervo e os anseios da comunidade.
Em seu segundo ano, o Projeto se ressignificou e se reestruturou a partir de atividades diversas para responder às demandas da comunidade. Uma das principais atividades de 2018 foi a curadoria da exposição temporária intitulada “As histórias das mulheres a partir do acervo do Museu Paranaense” (http://www.museuparanaense.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=206&tit=Exposicao-retrata-historias-de-mulheres-a-partir-do-acervo-do-Museu-Paranaense). A exposição foi inaugurada em finais de março, em comemoração ao mês das mulheres e teve como tema geral o trabalho, um dos eixos de pesquisa e, a partir do diálogo com os outros dois eixos, moda e costumes e mulheres artistas, criamos uma narrativa em que, evitando a cronologia, pudemos explorar a diversidade do acervo, expondo obras de pintoras, seus materiais de trabalho, tapeçaria, máquinas de costura e telefonia, cestas caboclas e indígenas, livros sobre a presença da cultura negra nos Museus, nus artísticos de mulheres realizados por um artista masculino, revistas de moda feminina, chapéus, áudio com a participação das mulheres nas Rodas de Conversa e nas Oficinas, com especial destaque para as mulheres negras e, ainda, contou com uma exposição sobre indumentária íntima organizada por Carolina Muller, parceira do projeto e doutoranda do Design/UFPR.
Como fechamento da exposição criamos um enorme painel com fotos de todas as trabalhadoras do MP: arqueólogas, historiadoras, restauradoras, secretárias e as funcionárias da limpeza e segurança. O painel foi inaugurado no dia da exposição, como surpresa, as pessoas enviaram as fotos sem saber ao certo como se encaixariam na exposição. Essa ação surgiu em meio à organização da exposição, logo depois que decidimos que a temática seria voltada ao trabalho. Considerando que o trabalho museal muitas vezes é feito por mulheres, desde estudo, preservação e organização, a ideia de montar o painel com fotos das trabalhadoras do MP surgiu como meio de homenagear essas mulheres e, também, deixar claro ao público que uma instituição como essa tem toda uma equipe que não mede esforços para atender bem, mas que muitas vezes é desconhecida dos visitantes.
Mas o maior desafio foi, sem dúvida, destacar a presença do trabalho da mulher indígena, da mulher negra e da classe operária, pois apesar dos silêncios, com as pequenas pistas podemos compreender o quanto essas mulheres nunca estiveram ausentes da história da cidade. São artesãs, costureiras, tecelãs, escritoras, poetas, engenheiras civis, professoras que utilizaram de seu trabalho como meio de sobrevivência e emancipação de sua imagem dissociada de uma figura masculina. Inseridas nos modos comuns de produção dos objetos comerciais largamente utilizados, nos ambientes das produções artesanais indígenas, quilombolas e rurais e também nos jornais, nas escolas, nas universidades, essas mulheres ocuparam espaços diversos com luta e persistência, com histórias que precisam ser contadas.
O impacto da exposição foi surpreendente e a presença da exposição no circuito do MP foi prorrogada em duas ocasiões, sendo noticiada pelos jornais Bem Paraná, em uma reportagem de 23/09/2018 e A Gazeta do Povo, em uma reportagem de 02/10/2018, destacando, inclusive, a seguinte informação: “Mostra que conta a história da participação feminina no Paraná é uma das mais visitadas no museu mais antigo do Estado”. Notícia que nos encheu de alegria e foi muito gratificante. Segundo estimativa do próprio MP, entre março e novembro de 2018, a exposição contou com 44.035 visitantes. Cabe ressaltar, por fim, que Beatriz Polidoro Zechlinski (https://dobras.emnuvens.com.br/dobras/article/view/789), da PUC/PR, fez uma resenha da exposição que foi publicada na Revista Dobras em 2019.
Quando propusemos o projeto ao então diretor do MP Renato Carneiro Jr., não tínhamos ideia da repercussão e aceitação positiva que ele viria a ter. Foi uma aposta construída a partir de nossas experiências em campos distintos: uma das coordenadoras, Priscila Piazentini Vieira, com experiência na área de teoria da História, História das mulheres e estudos de gênero, a outra, Renata Senna Garraffoni, com trabalhos na área de cultura material, arqueologia e interesses em temas de patrimônio. O projeto nasceu do diálogo entre as coordenadoras com o diretor do MP. Talvez seja por isso que o engajamento por parte das pessoas se deu de forma tão intensa: ao perceberem que tanto as professoras como o MP estavam dispostos a ouvir, as demandas surgiram. Por meio de reuniões e debates, estudantes e funcionários perceberam a potencialidade da proposta e, após a realização da primeira roda de conversa, não restava mais dúvidas que havia um público ávido para discutir temas sobre a condição de vida das mulheres no passado e no presente. Nesse momento, percebemos também que, se a proposta inicial era um estudo das mulheres, esse não poderia ser feito de maneira eficaz sem a discussão de classe e raça, elementos que foram, então, acrescentados nas reflexões, a partir das demandas da própria comunidade que compareceu às primeiras rodas. Destacaram-se, dessa maneira, as reivindicações das mulheres negras pela maior presença de suas histórias no museu e no projeto, com o intuito de mobilizar a sociedade para a produção de memórias que contemplem as diversidades de gênero, social, étnica e cultural da região. Se as demandas de classe e étnicas surgiram espontaneamente das rodas de conversa, transformar isso em uma discussão que pudesse se materializar em uma exposição temporária tornou-se um desafio.
Todo esse movimento levou as pessoas a enxergarem outras narrativas possíveis, trazendo à tona uma diversidade de povos que por ali viveram desde o século XVIII. Mesmo que sejam pontuais e contando com recursos restritos, seja do Estado do Paraná como da Universidade, essas ações permitiram ampliar os debates e indicam que, na prática, considerar patrimônio não como algo fixo, mas em conexão com os anseios das pessoas, não como fim, mas como ponto de partida para se discutir deslocamentos, conflitos, dores e resistências, é fundamental para a democracia no presente. Balancear perspectivas acadêmicas com o museu que é uma instituição com outras características é um desafio constante, mas negociar é um caminho para se discutir desigualdades de raça, gênero e classe e as tensões sociais deles advindos.

Para conhecer mais sobre o projeto e seus membros:

Blog: https://culturamaterialegenero.wordpress.com

Página do Facebook:

https://www.facebook.com/culturamaterialegenero/

Site do Museu Paranaense:

http://www.museuparanaense.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=206&tit=Exposicao-retrata-historias-de-mulheres-a-partir-do-acervo-do-Museu-Paranaense

Deixe seu comentário!