Da ditadura os pequenos sobressaltos ou a aposentadoria precária de Refén

Depois que os ditadores entregaram quase todos os seus cargos aos civis, Refén, o que colaborava com os operadores da repressão, logo pensou: isto não vai dar certo. Vou conversar com meu psicólogo, a quem , aliás, ele visitava desde que anunciaram a redemocratização pelo alto.

Depois ficou com o coração mais ou menos apaziguado. A batalha heroica dos revolucionários de 64 pelo respeito ao estado de exceção, pelo combate ao perigo vermelho, e mais ao caos e desgoverno de Goulart (ele falava Goulart acentuando o t, como os gaúchos, embora não fosse gaúcho), havia cumprido seu papel. A normalidade democrática com partidos dentro da ordem era possível. Tudo aquilo passou e foi então que Refén se recolheu à pacata vida só. O caos tinha sido saído do governo.

Apesar da morte do saudoso Tancredo, a transição se deu sem mortes nem maiores traumas. Estavam todos seguros quanto a seu futuro pessoal.

Refén tinha uma fé inabalável no desenvolvimento. Defender o desenvolvimento com segurança era seu lema. Antes, hoje, amanhã. Desenvolvimento com bem estar e livre mercado porque a livre iniciativa era o princípio da democracia, claro, com justiça social para os desvalidos.

Era com estas ideias borboleteantes que ele fazia a barba naquele dia em que ouviu no rádio uma notícia esquisita: “será instalada uma comissão nacional da verdade para apurar atos de governo que feriram os direitos humanos desde 1946 a 1988”. Comissão da verdade? Estalinistas, querem mandar na verdade, só Deus sabe a verdade. E justo quem? Ex-terroristas, assassinos, assaltantes de bancos, agitadores, onde vamos parar? Em Cuba? Só falta os Estados Unidos acabarem com o embargo a Cuba, daí não acredito em mais nada nesta vida.

Delator? Esta palavra o fez cortar-se. Um dia uma moça muito linda, de camiseta amarela e acenando na rua com dois dedos em riste, forma de V, gritou assim: delator! dedo duro! canalha! Teria sido para ele? Contra ele? Sobre ele?

Conversou com o psicólogo, e o psicólogo disse para parar de se culpar. Numa guerra todos perdem, e aquilo era uma guerra. Foi um momento difícil, mas já passou. Isso o psicólogo tinha razão.

Outro barbudo menos jovem que a linda moça o chamou de colabô. E isso calou fundo, era difícil passear; na rua, parecia ouvir vozes, noticiário, sempre aparecia gente agressiva falando daqueles tempos difíceis, ninguém reconhecendo o lado bom, inda mais culpando a ele como se culpado alguma vez fosse.

Ninguém me demitiu. Eu saí quando achei que o governo estava cometendo excessos. Sim, excessos. Até falei para um empresário amigo meu, que apoiou a revolução. Tive esta coragem, enfrentei ele, meu amigo, ele ficou apoiando, eu deixei de apoiar. Não o desenvolvimento. Desenvolvimento é tudo. É como sempre falo para meu sobrinho que, para meu orgulho, está concorrendo a vereador; desenvolvimento com segurança, mas lembrando  sempre dos necessitados.

Hoje não. Hoje os necessitados têm problemas com drogas. Naquela época não tinha drogas, o governo descia o sarrafo. E não havia esta coisa de confundir liberdade com libertinagem. O governo também descia o sarrafo. Homensexuais não tinha. Se tinha, era escondido. Mas não assumia cargo, ah isso o governo não deixava.

Naquele dia, notícia do rádio, algo pareceu perturbar sua ordem. Em sua casa tudo estava em ordem. As toalhas eram da mesma cor, de banho, de mão e as do lavabo. Acordava cedo para ver se dona Rosirene tinha posto o lixo lá fora, bem amarrado. Olhava se o lixo estava bem separado, papel com papel, documentos, plástico com plástico, informes, garrafas com garrafas, verde oliva, degradável com degradável, degradação. E se os produtos de limpeza, isso dona Rosirene nem sempre fazia, estavam guardados do recipiente maior até o menor recipiente. Hierarquia.

Depois foi ler o jornal. Censura. Tendo seus olhos guiados pelo que escutara no rádio enquanto fazia a barba, procurava a notícia da comissão (comitê?) da verdade. Não sem antes supervisionar pela janela se o vizinho por acaso tinha esquecido o portão da garagem aberto. Grade. Se sim, na primeira oportunidade, esperava seu olhar encontrar com o olhar dele e, com toda a educação, admoestava em tom de quem faz uma pergunta. Assim não parecia estar bisbilhotando. Interrogatório. É que aquele portão aberto iria facilitar que um gatuno invadisse por trás o seu próprio quintal, e este medo, não sabia por que, ele associava com trechos de uma canção de Chico Buarque:

Se atiras mendigos
No imundo xadrez
Com teus inimigos
E amigos, talvez
A lei tem motivos
Pra te confinar
Nas grades do teu próprio lar

Se no teu distrito
Tem farta sessão
De afogamento, chicote
Garrote e punção
A lei tem caprichos
O que hoje é banal
Um dia vai dar no jornal

Foi pegar o café com leite, derrubou o açúcar fora da xícara. Ficou mordendo os lábios e coçando a orelha que avermelhou. Botou os óculos.

Alívio. Aquela comissão só delatou, não ia prender ninguém. A anistia continuava uma auto-anistia.

Como disse o Chico, só deu no jornal.

A polícia podia continuar fazendo seu serviço como sempre fez.

Palavras-chave:

Deixe seu comentário!