“De conspiração a conspiração, a democracia perde a razão”: as teorias conspiratórias tóxicas a democracia pór Marcos Meinerz

“Mas essa é minha opinião”. Nos dias de hoje, tal frase se tornou corriqueira em discussões sobre fatos do passado ou sobre outros tópicos com comprovações científicas. Por exemplo, mesmo que comprovado a ineficácia do uso da hidroxicloroquina no combate ao Corona Vírus, muitos continuam a acreditar que ela pode realmente ajudar. Ainda mais quando o presidente da República ajuda a propagar tal ideia por meio de muitas Fake News. Vivemos em um ambiente complicado para as várias áreas ciências, em que o conhecimento histórico também é muito afetado, pois cada vez mais a história está sendo vista como uma questão de opinião e não como uma ciência portadora de condições teórico-metodológicas de explicar/averiguar o passado humano.
Como os fatos científicos viraram “questão de opinião”, a verdade passa a ser relativa, pois o que importa é no que a pessoa acredita e não nos fatos comprovados pela ciência. Esse fenômeno está atrelado e é impulsionado com a propagação das famigeradas fake news, que se tornaram a ferramenta pela qual muitas pessoas compreendem a sua realidade. A questão é que elas ajudam a propagar um outro fenômeno: as teorias conspiratórias. Por meio do Whatsapp inúmeras teorias conspiratórias são disseminadas todos os dias para milhões de pessoas que as recebem como explicações autênticas sobre os eventos políticos e sociais atuais e do passado.
Uma das últimas que apareceu no cenário nacional, por exemplo, é a de que o Covid-19, a mais nova pandemia que assola a humanidade desde o começo de 2020, foi criado em laboratório pelos chineses a fim de se beneficiar economicamente com a crise. Isso aconteceria, principalmente, por causa da queda do preço do petróleo e das ações de grandes empresas ao redor do mundo, além de uma valorização do dólar, que aumentaria o lucro dos chineses com a venda de títulos públicos americanos. Tal teoria, inclusive, tem tanta repercussão em alguns setores da sociedade que até o Presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e parte dos seus seguidores, acreditam e compartilham que a pandemia tem ligação com o plano de recuperação econômica do governo chinês.
Nessa conjuntura, podemos observar, destacadamente, certo irracionalismo que grassa em nossa sociedade, verificado, facilmente, na existência dos sentimentos de ódio, racismo, xenofobia e o preconceito contra os chineses, orientais e seus descendentes, no Brasil e no mundo. Tais teorias sobre os chineses já foram descartadas, mas, como vimos nos depoimentos, esse é exatamente o perigo do pensamento conspiratório e os motivos pelos quais devemos combate-las, uma vez que geralmente têm implicações na realidade, afetando a vida das pessoas.
Talvez uma das teorias conspiratórias mais conhecidas no mundo esteja contida no livro “Protocolos dos Sábios do Sião”, de caráter antissemita. A obra foi produzida pela polícia secreta do Czar Nicolau II (Okhrana) em 1903, para desqualificar os seus oponentes políticos. Os Protocolos pretendiam ser atas de um suposto congresso secreto realizado por um grupo de conspiradores judeus que planejavam uma infiltração em todos os níveis da sociedade (na economia, na imprensa, nas forças armadas, nos partidos políticos, etc) com o objetivo de implantar uma monarquia judaica que dominaria o mundo. O texto era para ser “a versão atualizada” de um projeto conspiratório idealizado por Salomão e pelos Sábios do Sião em 929 a.C”.
A obra ganhou destaque internacional depois da Revolução Bolchevique de outubro de 1917, quando foi apresentada por parte da imprensa reacionária mundial como resultado de uma conspiração judaica do mal, como estava previsto nos Protocolos. Em 1919, ela foi traduzida para o alemão e saudada como um documento importante, portanto, digno de fé, com comentários dando ênfase especial à “Conspiração Sionista” que ameaçava as monarquias e as igrejas cristãs. Contudo, Philip Graves, corresponde do jornal Times em Istambul à época, escreveu três artigos demonstrando que os Protocolos eram uma falsificação, dado que muitas passagens eram cópias de trechos de um livro esquecido, publicado meio século antes, em 1864: “Diálogo no inferno entre Maquiavel e Montesquieu”, do francês Maurice Joly. Nesse livro, Joly faz duras críticas ao governo de Napoleão III (inclusive foi processado e condenado a quinze meses de prisão por ter escrito “frases sediciosas e ofensivas” contra o imperador). Isso não impediu que a obra continuasse a se disseminar pela Europa em países como Inglaterra, Espanha, França, Portugal, e, consequentemente, para o restante do mundo. A ideia recorrente era de que a democracia, o comunismo e o comércio internacional estavam sob controle dos judeus, que haviam “infectado” todos os governos, todo o comércio, todas as artes e toda a mídia mundial.
Na história, o uso mais importante dessa teoria conspiratória se deu por meio de Hitler e dos nazistas. Os Protocolos forneceram para a eles a imagem de um inimigo nacional em comum, um inimigo demoníaco. O antissemitismo nazista apoiava-se nessa demonologia apocalíptica que culpava os judeus por todos os males do mundo, incluindo o liberalismo, o comunismo, a corrupção da moral e a derrocada do mundo tradicional. Hitler acreditava na veracidade dos Protocolos, sendo a base principal do seu antissemitismo, e usava-o para manipular a mídia, subverter as instituições do Estado e implantar sua própria conspiração para tentar governar o mundo. Assim, ele não só adotou a falsa conspiração judaica como a sua visão do mundo, como adotou também as táticas atribuídas aos judeus pelos falsificadores czaristas como sua própria, utilizando-as com um notável sucesso.
Aqui, destacamos uma importante características das teorias conspiratórias: os seus usos para fins políticos. As conspirações por mais excêntricas que possam parecer, podem ter, e frequentemente têm, implicações na realidade. Pensamentos conspiratórios são sintomas de atritos sociais, e, como tal, são perigosos para ignorar. Estas teorias são ferramentas que podem ser usadas por certos líderes políticos para mobilizar uma massa de seguidores ou para justificar a perseguição a determinados grupos, criando um ambiente onde o racismo, o fanatismo, o antissemitismo, e outras formas de preconceito e opressão podem florescer.
As teorias conspiratórias, na medida em que prejudicam a capacidade de diálogo dentro da sociedade, transformam adversários em inimigos e, consequentemente, ameaçam a ordem democrática. Se o adversário conspira, as ferramentas da democracia não funcionam, formando um crescente discurso que gera ressentimentos que podem produzir violência, ignorância, ódio e intolerância. O que de fato estamos observando no Brasil atualmente. Por causa de todos esses motivos que as teorias conspiratórias são “tóxicas à democracia” e, dada a sua permeabilidade no corpo social, não é seguro deixar passar qualquer uma delas sem uma análise racional.

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