da ditadura – Os pequenos serviços

Os pequenos serviços, as tarefas comezinhas

Durante o tempo em que passava algumas horas da minha vida
preocupada, senão amedontrada com a ditadura militar, aparecia-me sempre a persona
Refém, nome que eu inventei para designar alguém que não era uma pessoa poderosa, tampouco muito importante para os homens
do sistema repressivo. Mas gostava de cooperar, às vezes, até
inconscientemente. Achava poder ajudar-nos a nós e a eles. Esta pessoa existia
no cotidiano de nós, passava por nós, mas dela não sabíamos muita coisa. Apenas
de sua carreira profissional, mas isso já não importava.

Refém fazia questão de nos cumprimentar. Sabia que sabíamos mas que não teríamos coragem de perguntar nada. Ademais, aquilo não podia ser tão sério, parecia algo improvisado, feito para assustar. Na verdade, se Refém sabia a quem mandar seus informes, os informados não diziam
nada sobre o que fariam na sequência. E isso provocava em Refém dois sentimentos estranhos: o primeiro, aflição pela
curiosidade! O segundo, medo de ter exagerado nos informes. Talvez menos por nós e mais por deixar de ser um  informante de confiança.

Quando estendia a mão Refém sempre olhava para o lado e dizia que nós, estudantes, estávamos prejudicando o
retorno à normalidade. Não olhar de frente era a sua marca. Acho que fazia isto para parecer estar com enorme preocupação com respeito a nossos desatinos, era uma falsa raiva.

Claro que eu sentia medo. Pusesse mais uma anotação ao
lado de meu nome, isso  já  poderia ser considerado excesso. Saísse de socialista para comunista, a prisão ficava mais perto.  E o que eles chamavam de normalidade?

Refém não contava o que era perigoso, só olhava de lado para nos fazer supor que tudo era bem pior.
Esfregava o nariz seco, acho que tinha renite alérgica. Irritava-me o cacoete
de piscar várias vezes os olhos. E de sempre  enxugar as mãos na manga da blusa. Quando pensava que ninguém via, era nos fundilhos da calça, mas isso era raro.

E irritava-me sobremaneira quando me repreendia pelo mau comportamento, pelas
pessoas erradas com quem me relacionava, por achar que era de esquerda mas não tinha lido nada, por falar algo que tal ou qual eventual aliado pudesse não
gostar, por não fazer aliança, … e olhava cada vez mais irascível, dedo em
resiste, para depois concluir: ah…. esta camisa… esta camisa que você está
com ela …  Yves La Coste é… é  legítima? Quando custou?

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Comentários:

  1. Nuno disse:

    Belo, belo, belo texto. Deveria publicar mais como esse.

  2. Ariovanda disse:

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  4. Marion Brepohl disse:

    agradeço o elogio
    estou acabando de redigir um outro pequeno texto sobre ditadura para postar neste site
    tenho que filtar todas as emoções que este tema evoca, não para excluí-las, mas para torná-las compreensíveis
    quando o meu texto não passava pelo virtual, um grande amigoque leu um dos meus trabalhos, perguntou-me:tudo o que você escreve sobre ditadura tem a ver com com você
    Naquela época estava respondi: não devo falar disso exceto se tiver talento para a ficção. Se não tenho – e sei que não tenho – a minha forma de estetizar o real é outra
    saí zangada da conversa. Acho que o amigo se desinteressou do assunto. Com razão

  5. Marcos Gonçalves disse:

    Parabéns pela criação do espaço! Espero frequentá-lo com regularidade.
    A propósito do seu texto, achei-o bastante apropriado nesses tempos de expectativa quanto a abertura de caixas-pretas da DM… Será que os reféns permanecem como tais servindo “inconscientemente” aos seus novos senhores?

    Abraços!
    Marcos

  6. Jailton disse:

    Louvável, embora eu certamente seja suspeito para dizer. Como entender a ditadura sem as centenas, milhares(?) de “Reféns” que a fizeram tão presente na vida daqueles que se importavam?

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