Do direito a ter direitos: o papel do historiador na promoção dos Direitos Humanos, por Márcio José Pereira

“Você só dá aula ou você também trabalha?” Essa pergunta incômoda é uma recorrente na vida dos profissionais que se dedicam a lecionar no Brasil, não só de História, mas de todas as áreas. O que causa incômodo não é a pergunta propriamente dita, mas a falta de reconhecimento e o total desconhecimento do que fazem as pessoas que se dedicam ao ofício de Historiador.

Essa luta por reconhecimento não se desdobra apenas no cotidiano e no senso comum, mas em instâncias políticas superiores e é fruto de descaso em ambas as frentes. No senso comum, onde a maioria pressupõe que dar aula não é o mesmo que trabalhar e que a única alternativa do graduado em História é a sala de aula; já no universo da política, uma estigmatização foi fixada aos historiadores por conta do excesso da polarização política nacional, logo, todo historiador é comunista/socialista ou algo que o valha, portanto, por que profissionalizar um ofício que provavelmente fará oposição política aos que governam?

Confesso que ao receber o diploma o único horizonte de expectativas que fazia parte do meu pensamento era a sala de aula, pensava muito na possibilidade de iniciar uma investigação científica, provavelmente ingressando em um mestrado, mas no primeiro momento as obrigações da casa eram mais importantes e não podia me dar ao luxo de parar de trabalhar para fazer pesquisa Digo me dar ao luxo, pois esse era o entendimento inclusive de alguns familiares; segui trabalhando na empresa que era vinculado e mesclando aulas como professor substituto nas escolas de Maringá e região.

Entre o que alguns consideram trabalho regular, dava aulas e ia entendendo que a profissão de historiador é muito mais complexa que a sala de aula, as lutas não se resumem a melhores condições para os que lecionam, mas para os que recebem as aulas e para toda a sociedade que margeiam as instituições escolares. O mestrado na Universidade Estadual de Maringá foi feito no fim de 2007, dividindo os créditos com o expediente em uma loja de shopping.

Sob orientação de João Fábio Bertonha, investiguei na ocasião como a presença da população de origem germânica em Curitiba politizou disputas cotidianas durante a Segunda Guerra Mundial. Como fonte principal, consultei os principais jornais que veiculavam na época e para ter acesso aos mesmos, viajava até Curitiba e passava o máximo de tempo possível vendo os jornais microfilmados, disponíveis na Biblioteca Pública do Paraná. Sem recursos, fotografava as notícias que julgava relevantes, fotografava a tela da máquina de microfilme, anotava o máximo possível e depois tratava do material em Maringá.

O doutorado iniciei em 2013, na Universidade Federal do Paraná, sob a orientação de Roseli Boschilia, desdobrando preocupações que ainda eram da investigação anterior para um recorte espacial maior e buscando entender quais os sentimentos que envolviam as relações conflituosas entre indivíduos de origem germânica e brasileiros no Paraná durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa pesquisa, deixei a imprensa escrita e parti para a análise da documentação produzida pela extinta Delegacia de Ordem Política e Social, braço da polícia política varguista que perseguia comunistas, integralistas e imigrantes de países do Eixo, ou seja, mantinha o status quo da sociedade de medo, típica de regimes autoritários. Para essa pesquisa foi fundamental a permanência de muitas horas no Arquivo Público do Paraná, lendo os documentos, fotografando e criando um acervo de mais de 10 gigabytes em fotografias, separando-as por pastas individuais, no total investigamos 103 indivíduos, todos detidos pela polícia por serem considerados nazistas.

No final no doutorado, passei a integrar um grupo de pesquisa de excelência que foi nomeado DIHPOM (Direitos Humanos e Políticas de Memória), frequentando as reuniões de estudos (o doutorado não é um fim em si mesmo, costumo dizer que estamos em estudos cotidianamente desde o momento que decidimos pela profissão de historiador), planejando ações de pesquisa, ajudando a organizar eventos e palestras, produzindo artigos e livros em parceria com os colegas de projeto que estavam espalhados por universidades do Brasil e no restante do mundo.

Grosso modo, já é possível perceber nessas poucas linhas que um historiador é muito mais que um professor, ele é um investigador, é um produtor e também responsável pela publicização dos vestígios do passado que foram por ele investigado. Nesse sentido, em 2018, idealizamos a organização de um livro que faria parte do projeto de pesquisa “Violência na era dos direitos humanos: a questão da invisibilidade social de grupos vulneráveis”, coordenado pela professora Marion Dias Brepohl, da Universidade Federal do Paraná e que conta com o fomento do CNPq.

Organizar um livro requer, para além do conhecimento sobre a temática a se escrever, ter contatos e estabelecer parcerias que vão qualificar ainda mais sua produção. Por isso, contei com a ajuda do professor Ângelo Priori, que atuou junto da Comissão da Verdade do Paraná e do professor Delton Felipe, coordenador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiros. Ambos, com sua experiência de pesquisa e com ampla rede de contatos entre pesquisadores da temática, deram amplitude ao projeto e possibilitaram a inserção de profissionais de áreas próximas da História, propiciando um caráter interdisciplinar ao livro que organizaríamos junto ao DIHPOM.

“Conversas sobre Direitos Humanos e práticas educativas no espaço escolar”, foi publicado em 2019 e reúne esforços de pesquisa para pensarmos em conjunto como os Direitos Humanos são refletidos nas práticas escolares. Mais do que um livro sobre um determinado assunto, a obra conta com indicações para a formação continuada de professores e professoras de História e outras disciplinas, haja vista que reuniu pesquisadores e pesquisadoras de áreas distintas como historiadores, pedagogos, jornalistas, matemáticos e cientistas sociais. O livro se constitui em uma ferramenta pedagógica potente para a implementação do debate dos Direitos Humanos na sala de aula e como material de formação, tendo sido impressas cópias físicas que estão sendo distribuídas nas formações nos núcleos e distribuído gratuitamente em formato digital pelo link: https://1drv.ms/b/s!Au1wmjt544R4goQHuEWpXGZJaFcyBA?e=O7A00i

material  é  ordenado  em  oito  conversas/textos, escritos por onze autores. No primeiro  deles,  os  autores  procuram  responder à questão chave do livro: o que são direitos humanos? E para isto, fazem uma radiografia do nascimento e do desenvolvimento do tema nos últimos dois séculos, evidenciando as várias fases do debate, sobretudo como ganhou força a partir da Revolução Francesa e se ampliou com a fundação da Organização das Nações Unidas (ONU). Retratam também o desdobramento  da  discussão  dos  direitos  humanos no Brasil.

Outros seis textos foram redigidos pensando em contribuir para o exercício de práticas educativas no espaço escolar. Três deles abordam  conceitos  fundamentais  para  o  entendimento  do  problema:  violência,  cidadania  e diversidade. 

como  desdobramento  destes conceitos foram  elaborados  os  outros  três textos,  que  tratam  especialmente  das  relações étnico-raciais, da questão de gênero e da sexualidade, e da inclusão no espaço escolar.

Os autores destes seis textos, com o objetivo de tornarem os escritos úteis para as práticas educativas no espaço escolar, além da fundamentação teórica e dos exemplos concretos, formularam  algumas  dicas  pedagógicas  para ajudar  os  professores  da  educação  básica  e  os seus alunos a ampliarem as discussões temáticas. São dicas de como saber mais sobre o assunto, dicas de filmes e dicas de leituras.

O texto que encerra o livro tem como finalidade  de ressaltar  a  importância  de  se  educar  para os  direitos  humanos.  E,  para  isso, é  necessário que  cada  interlocutor/a,  à  sua  maneira,  construa pontes para que se efetive no espaço escolar uma dinâmica de valorização da dignidade humana.  E  valorizar  a  dignidade  humana  é lutar contra todo tipo de preconceito, desde o racismo,  as  práticas  que  não  promovem  a  inclusão, as violências físicas, simbólicas e institucionais,  a  intolerância  cultural,  religiosa  ou de gênero e as invisibilidades sociais de grupos vulneráveis.

            Ressaltamos que o livro só se fez possível devido ao esforço coletivo de cada autor e autora e pela possibilidade financeira de publicação viabilizada pelo projeto de excelência que o DIHPOM conquistou junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e a Fundação Araucária. Com amparo financeiro é possível produzir com qualidade e melhorar a formação de alunos, professores e de toda rede de profissionais que se envolvem com o processo de ensino no Brasil.

É inegável a importância e a necessidade da amplificação do investimento em pesquisa no Brasil e, nas Ciências Humanas não é diferente, precisamos ainda mais de fomento para fazer pesquisa de ponta, buscar as melhores bibliografias, ter acesso aos arquivos, viajar em busca de fontes e estabelecer contatos a níveis nacionais e mundiais. Sabemos que estamos longe desse cenário ideal, mas não desistimos facilmente do nosso ofício. Se os direitos são fundamentais para o desenvolvimento e para a participação plena da vida, entendemos que enquanto historiadores e historiadoras temos direito à profissionalização, não por um favor político ou por altruísmo, mas pelo que efetivamente fazemos como profissionais que somos e pelo reconhecimento que já de outros tempos merecemos.

 

Márcio José Pereira

Doutor em História pela Universidade Federal do Paraná

Professor do Departamento de História e do Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade Estadual de Maringá

 

 

 

 

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