Dom Paulo Evaristo Arns, um homem bom

 

O falecimento de Dom Paulo Evaristo Arns no dia 14 de dezembro de 2016, aos 95 anos de idade, deixa o Brasil de luto e um pouco órfão. Afinal, de acordo com o jornal “O Globo”, (14/12/2016), o franciscano nascido em Forquilha, Santa Catarina, foi muito além da religião, ao desafiar os generais da ditadura e defender os direitos humanos nos anos de chumbo. Criou mais de 40 paróquias e priorizou o trabalho nas comunidades eclesiais de base, na periferia de São Paulo. Durante a ditadura militar, ele se valeu do peso do cargo de cardeal, para denunciar e lutar contra a tortura, a morte e o desaparecimento de vários presos políticos. Apoiou também outras causas, como a do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST e idealizou, junto com sua irmã Zilda Arns, a Pastoral da Criança.

Para a classe dos jornalistas, fica a memória de sua atuação no culto ecumênico em homenagem a Vladimir Herzog, que apareceu morto, em 1975, numa dependência militar. Aquele ato, que contou com a participação de 8 mil pessoas, simbolizava um protesto em favor da liberdade de imprensa.

Para os estudantes universitários, a lembrança da “Celebração da Esperança”, presidida por Arns, em memória do estudante Alexandre Vannucchi Leme, morto pela ditadura em 1973, jovem militante do movimento estudantil.

No ano seguinte, acompanhado de familiares de presos políticos, apresentou ao general Golbery do Couto e Silva um dossiê relatando os casos de 22 desaparecidos.

Para os historiadores, uma contribuição de decisiva importância em suas pesquisas, pois Dom Paulo foi um dos idealizadores do projeto “Brasil Nunca Mais”, juntamente com o pastor presbiteriano Jaime Wright e com o rabino Henri Sobel. Este trabalho de equipe sistematizou informações de mais de 1.000.000 de páginas contidas em 707 processos do Superior Tribunal Militar, hoje sob a guarda do Arquivo Edgar Leuenroth, da UNICAMP. O relatório final foi publicado no livro “Brasil Nunca Mais” (Editora Vozes) e desempenhou um papel fundamental na identificação e denúncia dos torturadores do regime militar, acelerando a queda da ditadura.

Gratos ficam ainda, e de forma mais contundente, as vítimas e descendentes das vítimas do arbítrio dos governos militares, pois vêem sua história reconhecida e, quando trazida à luz, em parte, respeitada.

Decisiva também foi sua atuação no caso do desaparecimento de crianças argentinas e uruguaias. Naquela conjuntura, filhos de presos políticos eram afastados de seus pais para serem adotados por outras famílias, como ilustram o filme “História Oficial” (1985) e o filme documentário “Condor”, (2006). Arns empenhou-se por localizar os casos de desaparecimentos e encontrar os pais verdadeiros dos bebês.

Enfim, para os cristãos e não cristãos em geral, ele foi um exemplo de fé e de serviço. Um homem bom.

Ao imaginarmos o ethos missionário de Dom Paulo, creio que podemos iniciar mirando três exemplos inspirados na Bíblia, provável livro de cabeceira do clérigo. O primeiro, do bom samaritano. No evangelho de Lucas, capítulo 10, narra-se que o bom samaritano, de passagem por uma estrada, viu alguém, sem nome nem fama, vitimado por assaltantes. Compadeceu-se dele e tratou de seus ferimentos. Mas não denunciou nem os assaltantes às autoridades, nem o levita e o sacerdote, cujo dever era ajudar. Fez tudo em silêncio e depois se foi, deixando intacta a vida dos assaltantes.

Já Moisés, por sua vez, como é narrado no livro do Êxodo, foi chamado a livrar o povo de Israel, para o que não hesitou em enfrentar o Faraó. Ao inverso do samaritano, veio a público condenar o mal, refletido na escravidão. Tornou-se um homem de poder.

E finalmente, Jesus que, dentre tantas atitudes, opôs-se à religiosidade convencional e indiferente à dor dos fariseus, com quem ele confrontou-se diversas vezes. Foi um desobediente.

Arns reflete este cristianismo; o homem bom que, segundo Hannah Arendt, ao praticar a caridade, o faz em silêncio, de preferência, sem que ninguém saiba, atendendo à máxima “não veja a sua mão direita o que faz a esquerda”.

Esta tradição não é apenas religiosa, embora dela derive: o amor ao próximo resta no foro íntimo de cada pessoa, e como é próprio do amor, ele carece da privacidade para se manifestar. Não quer aparecer no mundo por condenar a vanglória, e também para não constranger o que é auxiliado. O homem bom surge do nada, em um momento de perigo, e manifesta um sentimento que mescla senso de dever e compaixão. De tão profundo, prescinde de palavras.

Dom Paulo poderia ser um político ou um professor universitário, dada a sua habilidade de negociar e de sua erudição. Mas abraçou a carreira religiosa para dedicar-se ao povo – ele se dizia “amigo do povo”. Saiu do mundo para a beata vida, aquela que traz como conseqüência uma alegria inefável; contemplando o sagrado, as inquietudes mundanas soam fugazes e desnecessárias. A obediência voluntária não é vista como imposição, mas como resposta ao convite “segue-me”. A meditação apazigua e orienta. A reflexão é um eterno maravilhar-se com o mistério divino.

Porém, no instante de perigo, o religioso voltou seus olhos para o mundo, e não apenas a bondade, mas a coragem fez com que exercesse um poder profético: denunciou a violência, ficando frente à frente com o ditador Médici; em desobediência à hierarquia, realizou missas para as vítimas da ditadura; arrolou documentos para provar o arbítrio do governo. Participou de eventos organizados por sindicalistas, interferiu nos comitês em prol da anistia, condenou veementemente a pobreza, proveu recursos para atender as crianças.

São dois momentos paradoxais: do homem bom e do bom cidadão, se adotamos um termo moderno. O primeiro, quase invisível, o segundo, um líder.

Se aceitarmos a intensidade dos afetos que envolvem a decisão de “levar a boa nova”, temos de admitir que a teologia, e não interesses políticos ou econômicos prevalecem em tais ações. E ainda que não possamos delimitar, com rigidez, a fronteira entre o cultural, o político e o religioso, sabemos que, para o homem de fé, a motivação primeira se dá a partir da teologia. Logo, um pensamento calcado na tradição, mas projetivo e voluntarista.

Homem de fé, homem de ação; talvez a segunda lhe custasse muito, não porque não soubesse o que fazer ou porque tivesse medo, mas por afastá-lo de sua vocação de origem: rezar, ouvir confissões, batizar, ministrar a ceia, a extrema unção, consolar os desvalidos, celebrar casamentos, reunir-se com seus discípulos, enfim, a singela carreira de padre.

Evaristo Arns reuniu em si o bom samaritano, Moisés, Jesus; curou os adoecidos com os golpes desferidos pelos repressores, enfrentou os chefes de governo dizendo, como Moisés, “deixa meu povo ir”, contrariou a religião convencional, mesmo a sua que, em muitos casos, foi conivente com a opressão em nome do combate aos subversivos ateus.

Enaltecer a bondade e a coragem do “seu padre” Paulo faz a tristeza da gente ficar mais rara. Ao enterrá-lo, pomo-nos a irrigar um pedaço de nosso deserto.

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Comentários:

  1. Leo disse:

    Fantástico Marion

  2. Claudia Monteiro disse:

    Inspiradora a trajetória de D. Paulo. Lindo texto Marion.

  3. Carla disse:

    Que belo texto, profa. Marion!

    Sua escrita é suave e muito humana!

    Abraços

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