Existe alguma história de amor que ainda não foi contada?

 

Pior que meu chefe (chefe não, diretor executivo de uma enorme empresa), era meu colega.

Dividíamos a sala, e esta ficava num lugar nobre da empresa.

Ele fazia de tudo para chamar a atenção: bajulava, emitia opiniões para parecer inteligente embora os erros de português o traíssem, e, tentando também trair sua inconfundível origem provinciana, gesticulava como cosmopolita.

Não tardava nunca, apresentando na chegada, quase sempre, os cenhos franzidos, dissimulando preocupação e seriedade, além da virtude do comedimento.

Parecia ter combinado com a secretária. Imediatamente, ela o fitava com o mesmo cenho e dizia, em cochichos todavia audíveis, voz falsamente terna, a perguntar, discretamente, se ele havia melhorado. “A pressão”, respondeu ele uma vez, “está mais alta do que devia”, balançando a cabeça como quem diz, “deixa prá lá, vamos prosseguir com nossas tarefas”.

Quando ouvi “pressão alta”, do lado esquerdo da minha boca escapuliu um secreto sorriso, teimoso em sua felicidade. E se ele morresse? Imediatamente, minha pífia consciência forçou o meu lábio a recompor-se em sério, mas meu olhar continuava fito num documento que não lia.

Quando o chefe lhe dava razão, chefe não, diretor executivo, nem que fosse sobre a previsão do tempo, eu queria morrer. Morria um pouco cada vez que seu sucesso avizinhava-se. E se, de contas em contas sobre o clima, lembranças da saúde da mãe, mimos para o filho, presentes de aniversário nunca esquecidos, respeito devoto, a autoridade se agradasse e ele acabasse por me passar a perna? É claro que eu sabia que era a melhor. Porém, era ele chegar, em meus ouvidos soava a Nona Sinfonia de Beethoven; quando ele se ia, eram todos os adágios de Albinoni.

“Olha só” era o cacoete para todas as suas intervenções. E não sei o que me irritava mais, o que vinha antes – o dedinho indicador pedindo licença ou suas confusas falas misturadas à uma pequena risadinha e à mão trêmula.

Tanto era meu ódio que quando dormia, sonhava que ele falava mal de mim a uma platéia cheia. Sonhos de vingança me acompanhavam; era como se eu tivesse em minha mente uma jaula e ele lá dentro, e se parasse de arquitetar sua destruição a porta se abriria e ele ia embora para sempre. Livre? Livre de meu ar censor? Livre de minha perseguição silenciosa? Livre da empresa que se interpunha entre nós?

Por estas e outras razões, eu me vestia sempre muito bem, estava bem composta desde a manhãzinha até o final do expediente. Trazia esmalte, baton, escova de cabelo, delineador, sombra, blush, uma pinça de sobrancelhas e uma meia de nylon, caso a que eu usava desfiasse. E lia os jornais, de ponta a ponta, todas as manhãs, evitando, lógico, as páginas sensacionalistas.

Mesmo nos dias de folga eu não dava trégua: ocupava-me com cursos especializados à distância, lia livros de auto-ajuda, centro de estética, sexo virtual, telefonemas a colegas que também não gostavam daquele colega presunçoso.

Finalmente, a justiça se fez. Num belo dia, fui indicada para viajar para a sede da empresa, situada em Manchester.

Quando disto ele soube, baixou os olhos, porém não a cabeça, os olhos mirando seus pés, posto que era obeso, ombros decaídos, os cenhos não franzidos, as mãos cruzadas no colo. Assim ficou alguns, para ele, eternos minutos. Virou a cara para o lado, para cima, para o outro lado bem devagar e acho que se perguntou: “será que é por causa que eu disse pra mulher do chefe que não gostava de política?” “Esta dona trepa com quem?”

“Olha só” virou um “olha sozinho”.

Confesso que não achei Manchester muito interessante, também, não prestei muita atençaõ no desenhado da cidade. Mas voltaria com um trunfo relevante diante do chefe, o relatório pormenorizado, e seria então, a vez dele morrer um pouco.

A empresa do ódio era minha, o chefe era meu, o sucesso era eu.

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