Fidel, um corpo difícil de morrer

 

Ditador, líder de Cuba, ícone revolucionário, herói ou simplesmente ex-presidente de Cuba? Por que a morte de Fidel Castro, idoso, representante de uma ideologia gasta, e distante das decisões políticas de seu país, atraiu a atenção tanto de detratores como de simpatizantes de sua causa?

Talvez possamos imaginar que a liderança, ainda que tirânica, chame a atenção por si só, quer em sua negatividade como em sua positividade, afinal, muitos que a hostilizam aceitariam de bom grado alguém que garantisse a ordem em seu meio. Inversamente, os que admiram o tirano temem, em seu íntimo, serem condenados ou pelo menos reprovados por ele.

Esquerda versus direita? Por certo que sim. Em tempos de crise, o passado acaba por evocar mitos fundadores de paz, harmonia, prosperidade, tempos idealizados como referência para o futuro.

Minhas considerações sobre a morte do longevo Fidel Castro assumem outro rumo e se voltam para o papel do chefe e de sua simbiose com as massas, principalmente nas sociedades contemporâneas, quando as formas associativas convencionais como, por exemplo, a igreja, a vizinhança e a família são substituídas pelo convívio em organizações que suprimem as relações interpessoais.

Segundo Yves Cohen[1], o século XX é o século dos chefes, amados ou detestados, mas quase sempre presentes e com um papel decisivo na sociedade de que fizeram parte. Em fábricas, governos e partidos, suas fotos na sala principal atestam a intenção de notoriedade e onipresença.

A emergência dos chefes pode ser explicada pelo declínio das sociedades estamentais europeias, quando a aristocracia, cujo poder se transmitia por herança e era preservado pelo devotamento religioso é suplantada pelo homem comum, identificado como “o povo” ou “do povo”.

Esta mentalidade de longa duração perde sua relevância e cede ao princípio do desempenho. Não são mais os títulos e o sangue que designam a “palavra de poder”, mas a capacidade moral e intelectual do “poder da palavra”; em síntese, o poder em todos os lugares e em lugar nenhum. O poder pelo desempenho.

Obedecer se torna, não sem tensões e resistências, uma atitude mais ou menos instável, pois não se obedece de um lugar, mas por uma atitude afetiva. Não por acaso, o termo autoridade deriva do termo augere, cujo significado é fazer crescer. O chefe pode ser visto como aquele que mais faz crescer. É também aquele que pode unir.

A união ou a sensação de união é um paradoxo humano. Nós tememos o contato com o desconhecido, desviamo-nos dos estranhos e, quando deles nos aproximamos, é pela simpatia, que não deixa de ser uma aproximação de si mesmo.

O temor do desconhecido praticamente desaparece, segundo Elias Canetti[2], quando nos encontramos concentrados em massa. Num agrupamento coeso, nem que seja efêmero, sentimo-nos seguros. Quando as pessoas se concentram, quando há pouco espaço para a separação dos corpos, elas se sentem inevitavelmente iguais.

Agrupamentos podem se dar por um credo religioso (as procissões, por exemplo), pela guerra, quando duas massas se confrontam ou nas festas, quando se celebra algo ou alguém tornado algo. Também em motins, passeatas e protestos, como os que experimentamos hoje no Brasil.

Ademais da auto-proteção, no ajuntamento, os homens querem a expansão da própria massa em que se inserem. E se esta massa tiver uma direção e, mais ainda, se seus membros se sentirem perseguidos, tanto mais será desejada tal direção, o que Canetti denomina de “meta”. Perseguição e direção os fazem se sentir mais iguais uns aos outros. Ilusão de duração.

Como Freud observou[3], o objeto da direção pode ser identificado com o “pai ideal”, que não carece ser necessariamente uma pessoa, mas uma ideia, um ser transcendente ou uma organização; importa menos sua feição do que sua função: assegura. Há, portanto, segundo Canetti, uma simbiose entre a massa e o poder.

Chefe e massa, o que coloca seus afetos em movimento? Para o autor, são cinco os conteúdos afetivos que podem mover as massas: o acossamento (ou desejo de matar), a fuga, a partir de uma ameaça real ou imaginada, a festa, celebração da vida e do prazer. Os dois outros me interessam mais de perto, pois estão vinculados à história dos chefes do século XX, dentre os quais Fidel Castro foi um exemplo emblemático. A existência de uma proibição e a possibilidade de inversão.

A proibição pode, de repente, ser repelida; uma ordem há muito ou há pouco respeitada, passa a ser vista como imposição, e aí, a desobediência faz com que os membros da massa se representem como iguais. O bordão que escutei, dia destes, numa manifestação pública assim o indica: É pela base/ é radical/ trabalhador tem de fazer greve geral.

Greve é um exemplo interessante: greve é o golpe de desobediência na ordem contemporânea, cuja promessa foi a distribuição dos bens por meio do trabalho. Quando cruzam os braços, não um ou dois, mas todos, o poder transparece ter mudado de mãos e aí a realização da inversão se cristaliza. Os cordeiros comem os lobos. A promessa de que os prisioneiros serão libertados inspira até aqueles que nem conheciam seus próprios aguilhões. Na inversão, o assalto do chefe é crucial. Ele encarna a boa lei e a justiça. Nem de longe é visto como tirânico; se ditador, é porque conhece a causa melhor do que todos. Talvez somente ele a conheça. E sabe fazer.

Sua figura é vista como regida por uma pauta moral, não política. Sua ação é não apenas respeitada, mas esperada. Sua história é contada e recontada como única. Não por acaso, talvez seja por isto que Mussolini, Hitler, Stalin, Guevara, Fidel, entre outros, não tivessem mulheres e filhos, ou pelo menos não os apresentavam de ao seu lado. Celibatários como os monges, estavam prontos ao sacrifício, prontos, inclusive, a morrer, de resto, nem morreriam, tornar-se-iam monumentos edificados nas praças, nas escolas, enfim, em lugares de memória das e para as massas.

O “monumento” Fidel pode ser lido independentemente de sua coloração ideológica; pode ser visto como representante do “século dos chefes” que ora parece ter findado; sua força residia menos em si e mais naqueles que o criaram. Daí nossa curiosidade. Daí também a vontade de condená-los como coisa de um passado que não queremos ver reeditado, ou, para outros, de um passado que lhes dê esperança.

 

[1] Yves Cohen, Le siècle des chefs. Une histoire transnationale du commandement et de l’autorité (1890-1940). Paris : Éditions Amsterdam, 2013.

[2] CANETTI, Elias. Massa e poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[3] FREUD, S. Psicologia de massas e análise do eu. E.S.B, vol XVIII, 1969.

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