Nossa Val com Regina Casé

 

Já sei: com este título, muitos deixarão de lado este pequeno artigo e adivinho o por que. Deve haver um sem número de pessoas que escreveram a respeito, jornalistas, sociólogos, críticos de arte. O filme “A que horas ela volta?” de Ana Muylaerte, estrelado por Regina Casé, teve uma excelente acolhida e não era para menos. Atuação brilhante da protagonista, direção impecável, tema mais do que propício à reflexão e à comoção.

Por saber que estou “concorrendo” com muitos, evitarei a crítica cinematográfica ou sociológica. Quero descrever a memória que o filme evocou em mim. Nascida em São Paulo, onde o filme é rodado, aquela cidade cheia de prédios modernos e avenidas imensas, abriga todavia estruturas quase estamentais, entre os retirantes ou, em todo o caso, os mais pobres de pele escura e os mais ricos da sociedade urbano-industrial. No filme, este microcosmo é a casa onde Val trabalha, por anos a fio, sem progresso, novidades, surpresas, sem tristezas tampouco.

Algumas pessoas como Val povoaram minha infância. Já aos 9 ou 10 anos, começávamos a comparar entre nós as qualidades de nossas empregadas-babás, ou babás que eram empregadas, às vezes ríamos de seu sotaque, às vezes, éramos desrespeitosas. Porque podia; éramos as donas da casa, pirralhos malcriadas, mas superiores na hierarquia. Conversávamos muito, ouvíamos as histórias vindas de sua região, mas por mais interessante e amedrontadora que fossem (O Diabo da garrafa, Boi da Cara Preta, Quibungo, Cabra-Cabriola), queríamos sempre mais: não estavam em livros, mas em mentes que não dividiam a fantasia da realidade. E esta era a paga por nossa malcriação: ora nos delatavam aos pais, complacentes ou irritados com a informação, ora nos sonegavam sua cultura.

“Val” era o contato estilhaçado que tínhamos com o Brasil profundo. Em volta de nós, as histórias lidas eram, por exemplo, da Condessa de Ségur (“As meninas exemplares”, “As férias”, “Os desastres de Sofia”). Tudo me fazia imaginar que laços de cetim atrás da cintura, cabelos lisos até os ombros e franjas retíssimas contornando faces rosadas éramos nós.

Embora aprendêssemos nas aulas de Geografia Humana que no Brasil havia sertanejos, gaúchos, pescadores do litoral e caipiras do interior, tudo isto era tão distante de São Paulo que nem Monteiro Lobato nos dava alento.

Mas a Val era diferente. Ela era herdeira da ama de leite, continuava a nos afagar andares acima, enquanto que as mães – amas secas – nos disciplinavam para sermos urbanizadas e pálidas; a escola exigia a vida adulta para ontem e os pais se perdiam a trabalhar dinheiro para o final do ano.

Fabinho e Jéssica, ela, mais pobre, com nome estrangeiro, dos States, país mais rico do mundo. Aliás, isso, no Nordeste era muito frequente, uma vez me explicaram, era porque as pessoas humildes só tinham contato com o mundo exterior por meio dos filmes de cinema que apareciam de raro em raro em suas minúsculas cidades. Ali, viam, de lampejo, atrizes e acompanhavam suas vidas e personagens: Jéssica pode ter sido concebida entre um devaneio do pai com Grace Kelly e da mãe com Sean Connery, quem sabe?

Ele, Fabio, o rico, infantilizado e mimado por alguém que de fato o cuidava como a um filho frágil, o que o fragilizava ainda mais. Estranhavam os pais que o conceberam, entre um uísque e uma cuba libre. Seu nome era sonoro, mas nem tão original. Claro, o sobrenome é que lhe dava dinstinção. Sua cumplicidade com Val o protegia da vida adulta sempre adiada.

Chamou-me a atenção ainda o contraste entre a alegria de Val e a tristeza de dona Bárbara, a estilista de profissão, “estilo é tudo”, se auto-definiu em uma cena do filme. Apesar de ser também protegida por Val, aborrecia-se com o filho, com o marido, com a casa, com a filha da empregada, Jéssica, que não conhecia seu lugar.

Aliás, conhecer seu lugar me faz recordar as concessões aos negros: desde que conhecessem seu lugar, poderiam trabalhar ali, na casa grande e ocupar a cama na micro-senzala. Jéssica, por sua vez, alargava, com insolência, seus espaços, também pudera, talento para arquiteta.

Mas os imigrantes do Nordeste teimavam em sorrir, em aceitar as regras do jogo, trocavam o trabalho por uma vida bem melhor do que a seca, o sertão, a roça, a orfandade, um mundo sem TV, o rádio sem funcionar direito, o patrão que fazia acordar de madrugada para carpir ou colher.

Ali era bem melhor; tinham um pouco de um tudo; até um pedaço de família.

 

 

 

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