Gênero e Bruxas no audiovisual; reflexões acerca da representação feminina no cinema de horror, por Gabriela Larocca

 

Todos nós já assistimos a filmes, lemos livros e escutamos histórias sobre bruxas más que se alimentam de criancinhas, realizam feitiços e se comprometem com alguma entidade demoníaca. Malignas e travando pactos diabólicos, as bruxas causam fascínio, tornando-se personagens privilegiadas de filmes e séries de TV. A bruxa como uma mulher má associada ao Diabo e que busca incessantemente por vingança, juventude e poder é um estereótipo feminino muito divulgado especialmente pelo cinema de horror. Contudo, ele não é uma invenção do século XX, possuindo origens antigas e sendo resultado de uma potente tradição antifeminina e antisexual, baseada em premissas teológicas, filosóficas e científicas, que liga as mulheres ao Mal e que fomentou as caças às bruxas, cujo apogeu ocorreu entre 1560 e 1630.

A associação entre mulheres e bruxaria foi ainda mais destacada na Idade Moderna por meio de tratados demonológicos como o Malleus Maleficarum, publicado por dois frades dominicanos germânicos em 1487 e que é até hoje a obra mais famosa sobre os delitos de bruxaria, mas certamente não a única. O Malleus estabeleceu uma ligação direta entre o feminino e a bruxaria demonolátrica, apontando que este era um crime feminino devido à natureza fraca e maligna das mulheres, herdeiras de Eva. Apesar de sua imensa fama, é sempre importante relembrar que esse discurso que associa mulheres ao Mal e ao Diabo não foi uma novidade da época, mas sim resultado do uma potente tradição antifeminina.

Mesmo findadas as perseguições, as bruxas continuaram vivas em nossa imaginação. São personagens recorrentes no cinema, aparecendo por meio de dois estereótipos: a mulher velha com a pele pálida, verrugas e nariz retorcido, e a bruxa jovem, poderosa e sensual. Ambas são, na verdade, a representação de uma única “criatura feminina má”, oriunda dos tratados demonológicos de clérigos e juízes de séculos atrás.

O cinema e a TV incorporaram a bruxa como objeto visual de consumo, popularizando-a em clássicos estadunidenses (O Mágico de Oz, Victor Fleming, 1939), filmes infantis (Abracadabra, Kenny Ortega, 1993) e séries famosas (A Feiticeira, 1964 – 1972). Contudo, foi no gênero cinematográfico de horror que as bruxas obtiveram maior destaque, persistindo a representação do corpo e da sexualidade feminina ligada ao Mal e demoníaco em filmes como A Maldição do Demônio (Mario Bava, 1960), Horror Hotel (John Llewellyn Moxey, 1960) e Bruxa – A Face do Demônio (Cyril Frankel, 1966). Representantes perfeitas da maldade feminina, elas evidenciam a forma pela qual os filmes de horror com a temática da bruxaria possuem raízes no discurso antifeminino popularizado pelo Malleus Maleficarum no século XV, dialogando com uma tradição que associa as mulheres ao Mal. Tais filmes não apenas evidenciam apropriações culturais de contextos históricos, espaços e linguagens diferentes e distantes no tempo, mas também a potencialidade do cinema enquanto fonte para o estudo da História, da história das mulheres e para os estudos de gênero.

Desde muito cedo, o cinema exerceu um papel essencial na criação das sensibilidades modernas, principalmente na fundamentação do sujeito moderno. Nossas formas de pensar, sentir e desejar mantêm um vínculo histórico com este espaço discursivo e imagético. Em uma cultura visual e tecnológica, nossa compreensão e percepção do mundo e do passado é constantemente perpassada por imagens, de forma que o audiovisual atua como uma “janela” para imaginação, fantasias, desejos e medos, tanto coletivos quanto individuais.

O cinema é também uma importante fonte histórica, delimitando nossa relação com o passado e entendimento das sociedades e suas subjetividades. O filme deve ser analisado sempre como produto direto das principais interpretações da época em que foi produzido.

O poder do cinema enquanto fonte histórica emana principalmente de sua capacidade em comunicar algo não apenas de maneira literal ou realista, surgindo como um diferente olhar e representação do mundo, com o poder de transmitir tradições e acontecimentos sociais, políticos e culturais por meio de uma apresentação diferente das palavras impressas. É importante entender os filmes inseridos em discursos mais amplos, contextualizando-os com seus contextos e dimensões políticas, econômicas e culturais.

Nesse sentido, não é coincidência que filmes de horror com bruxas malignas tenham se popularizado a partir das décadas de 1960 e 1970, paralelamente ao movimento de libertação das mulheres e da segunda onda feminista, representando o desconforto masculino e alertando para a necessidade de vigilância das mulheres. Nesses filmes, as bruxas são vis, sedutoras e guiadas por sentimentos maléficos, possuindo laços com o demoníaco e propagando o Mal como inerente à feminilidade. Buscando beleza, juventude, poder ou vingança, procuram subverter uma tradicional hierarquia de gêneros, subjugando os personagens masculinos e transformando-os em seus servos ou amantes. Em diversos filmes, um de seus principais objetivos é a destruição de casais e famílias felizes. Entretanto, ao final, independentemente de seus poderes, são derrotadas ou por uma “boa mulher”, detentora de qualidades femininas como castidade, modéstia, fragilidade e obediência ou por um personagem masculino, o qual reforça a ordem e as leis tradicionais. Além do mais, frequentemente sofrem punições ou mortes violentas que destroem seus corpos e beleza. Muito utilizada pelo cinema de horror para silenciar suas “mulheres más”, essa é uma estratégia que permite que os espectadores desfrutem e extravasem, de maneira socialmente aceita, uma fantasia de violência contra as mulheres e seus corpos. Perpetuando o antigo estereótipo de que as mulheres são fundamentalmente más e enganosas, a bruxa cinematográfica é uma figura feminina monstruosa e perigosa cujo maior objetivo é destruir a ordem simbólica. Representando e alertando para uma feminilidade perversa, ela não apenas comunica a vitalidade da tradição do Mal feminino e sua capacidade de transformação e adaptação em novas linguagens, mas também representa e reforça papeis, estereótipos e hierarquias de gênero.

É imprescindível refletirmos sobre as questões de gênero e sexualidade presentes no cinema. Por meio de seus enredos e imagens, o audiovisual constrói, reproduz e comunica para nós o que é ser mulher, homem, transexual ou queer, o que é aceitável e desejável para uma mulher e o que não é, construindo e representando discursos, subjetividades e uma ampla gama de relações de gênero, sexualidade, classe e raça. É necessário considerarmos também que a representação cinematográfica feminina muitas vezes é produto de discursos e desejos masculinos e não de subjetividades, medos e anseios femininos.

O cinema horror possui grande valor para o ofício da historiadora e historiador. Estes filmes atualizam e revelam frequentemente medos e desejos universais, como o medo da dor, do Mal e da morte, além de possuírem uma interessante relação não apenas com o período em que foram produzidos, mas também com o passado e com tradições complexas. Também são interessantes para os estudos de gênero, tendo em vista que muitas vezes abordam medos especificamente masculinos em relação a sexualidade, poder reprodutivo feminino e a emancipação feminina em espaços políticos e econômicos, além de medos femininos relacionados à agressividade e violência sexual, por exemplo.

Este texto é uma reflexão originária de uma pesquisa de doutorado em História ainda em andamento e procura questionar como o cinema de horror deve ser entendido enquanto entretenimento e lucro, mas também como sistema simbólico de gênero e sexualidade. O cinema, com sua técnica, imagem e linguagem é uma instância privilegiada na produção de discursos, representações e significados de gênero e sexualidade, além de ser um objeto extremamente relevante para o estudo da História. Destarte, devemos nos voltar para esses produtos de entretenimento com um olhar mais atento e crítico, afinal eles nos revelam muito sobre as sociedades que os criam e consomem.

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