Herdeiros críticos

Está quase tudo pronto

Faço a palestra, janto com Tobias, amanhã participo da banca. A dissertação ficou boa, mas foi um uso apressado de Bourdieu, isso vou dizer. E o corpo documental é insuficiente para tanta conclusão.

A gente, quando entrou na universidade, éramos poucos lá no bairro. Pedi bolsa para fazer cursinho com os próprios estudantes da universidade.

Meu pai era operário, minha mãe bordava distintivos para tiro de guerra do exército. Fazia em casa e levava à firma de confecções de uniformes.

A mana ia casar cedo, começou a namorar desde mocinha.

Eu nem tentei pensar em Direito, Engenharia ou Medicina – era a única coisa que meus pais cogitavam existir como curso superior, mas eu não sabia matemática, não imaginava vencer a concorrência entre os candidatos para médico e já tinha consciência que advogado sem pai rico não me levaria a nada.

Logo veio a sugestão do professor de História do colégio, nem tanto dele e sim de um livro chamado “Os dois brasis”. Sociologia. Queria escrever como esta gente, criticar as elites, o governo. Ir a favor do pobre, contra o grande capital e contra o Imperialismo.

Depois de mais uma repassada na palestra, formulo perguntas hipotéticas e as respondo em voz alta; desligo a TV e vou para o banho.

Trinta e dois anos de carreira, repasso as fases de meus estudos: violência no campo, violência urbana, criminalidade, marginalidade, violência policial, tanto horror, por que escolhi isto? Minha família era pobre, mas em nossa vida não tinha passado drogas, o policial era sisudo mas lidava apenas com furtos … ora, quem iria àquele bairro onde me criei senão para fazer pequenos furtos? Ali todos eram de pobre a remediado. Meu pai reclamava do salário, ia ao sindicato, mas parece que todo este mundo – sindicato, ladrões, casa de rico, o centro da cidade, tudo isto ficava num vago longe, somente à noite, somente em datas precisas e raras.

Por que a classe média odeia político de esquerda? Ou é a mídia que fabrica este ódio todo? Desliga esta merda ou diminui o volume! Ô hóspede surdo e burro.

Vão me perguntar o que significa ser de esquerda e de direita hoje. Vão me perguntar sobre os direitos humanos. Ou vão me perguntar de autores?

Desde a queda do muro de Berlim, as perguntas giram em torno desta opacidade, do termo crise, crise do pensamento ocidental, dos paradigmas, do marxismo, os jovens ficam entre o que escrever em seus trabalhos e como arranjar emprego, no que trabalhar, o que fazer com Ciências Sociais.

Eu vou respondendo, mas minha vontade é de dizer que tampouco os autores permearam, de maneira tão decisiva, minha formação. Os autores que eu lia nem tinham tantas ligações com os temas da violência  que estudo hoje.

Claro, Marx, exploração do trabalho era em si, violência, mas não se chamava assim.

Quando eu entrei na Universidade, além de Marx, a gente estudava os frankfurtianos, mais ainda, Gramsci. O que mais me aproximou de Gramsci foi a teoria do partido e … que música alta é esta? Vou reclamar na recepção!

Coincidiu. Coincidiu estudar Gramsci com a ascensão de Lula. O paraíso dos sonhos para mim era ser o Lula do Lula no exterior, filho de operário, morador de bairro operário, pai sindicalista, doutorando-me na França, Lula candidato. Comecei a falar de dentro do PT. Sociólogo é o jornalista categorizado da política, ou talvez o poeta do partido.

Sem medo daquelle infeliz que venceu com as dolloridas vozes evangélicas uivando contra o comunismo do capeta.

Foram muitos deles que receberam, já na época da Ditadura, concessões de rádio, favores políticos, terrenos para construir templo, tudo isto para combater as esquerdas. Exploraram a fé dos mais humildes. Muitos entregaram para o DOPS os seus pastores que eram da resistência, com mais ferocidade e voracidade do que se fossem comunistas.

Meus estudos de Gramsci não contavam com isto. Nem de perto eu ou qualquer um de nós contávamos com aquela nova força política. Será que foi por aí que eu fiquei com curiosidade de estudar o assunto? Que mais violência se faz em nome da obediência do que em nome da rebelião, disso dá testemunho todos os fundamentalismos.

Mas não. Não. Não foi por isto. NINGUÉM reconhecia naqueles cultos, naquelas mulheres de cabelos compridos e saias longas, naqueles hinos estridentes, os homens de terno cinza de domingo de manhã sem cerveja, ninguém reconhecia nisso senão ignorância, submissão, mais nada, não reconhecia ali uma força política – era influência dos gringos mas prá alienar, prá fazer o pobre se contentar com o que tinha, isso quando nos dignávamos  abaixar a cabeça e olhar para eles.

Os antropólogos os estudavam, como resposta para a aflição, algo assim, interessavam-se pelos ritos. Novas tribos urbanas, acho eu.

Outra campanha eleitoral, outra derrota, desta vez, dizíamos, para o “pensamento único”. Era sociólogo o nosso opositor.

Puta que o pariu, cadê o gerente? Quero falar com o gerente! Tem um hóspede com a TV altíssima, num canal de rock sei lá que gênero, eu preciso dormir, verifica aí.

“Vigiar e punir”, Foucault, aí eu disse para mim mesmo, aí está, o poder não passa pelo contrato. Novos movimentos sociais, pós-estruturalismo. Pai ficando velho, mãe faleceu, aquele bairro cheio de droga, violência e crente, e eu vendo que as esquerdas pós muro rumavam para as ONGs, até para as ONGs assistencialistas, nem mais proposta reformista tinham. Pai morando em uma edícula na casa da mana, tão sozinho, sem amigos. Pior que ficar doente era ficar sem ter assunto, sim porque nem neto nem filho liga para o que falo, dizia ele. E eu não sabia e não sei lidar com meu pai, sempre elogiando Getúlio ou Brizola que ele nunca nem viu e descontando no Lula o valor de sua pensão. Aquele operário…

Eu queria ver o PT ganhar mas não mais de dentro; falar o que para os alunos? Penso que hoje ser de esquerda é alargar a pretensão de direitos – é auxiliar as pessoas a se mobilizarem por sua própria conta, auto-organização. As ONGs acabam falando por elas, já “empowerment” é uma novidade interessante, … O que? Como? Não é do hotel? Não é TV?

Abro a janela. Ouço melhor. Há um templo ali pertinho. Parou a música e vem a fala:

 

No passado, essa gente usava barba, cabelos longos, camiseta, calça de brim, sandálias ou tênis ao invés de sapatos. Fumavam cigarro e maconha, encontravam-se no bar, onde bebiam muito e marcavam encontros de sexo fora do casamento. Falavam muito contra o governo, que ia vir o comunismo e eles iam governar, com bandeira vermelha e tudo o mais.

De manhã, já estavam em frente à fábrica ou à escola, pregando o credo comunista, contra Deus e o Evangelho.

Hoje estão nas passeatas, nestas manifestações, no movimento das vadias, aqui tem alguma irmã que se orgulha de ser vadia? Não, aleluia! Dos homossexuais, dos que defendem o infanticídio, das religiões afro, da liberação das drogas, do casamento gay. Disso apartai-vos, como diria o apóstolo Paulo.

São os mesmos de ontem. Mas nós ficaremos firmes e guardaremos os Seus mandamentos.

Por falar nisso, amados irmãos, aproximam-se as eleições, temos o nosso candidato….

 

 

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Comentários:

  1. Claudia disse:

    Oi Marion
    bom texto, divertido!
    Abraços

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