Lembram as fotos

Nestas longas esperas em aeroportos, poder-se-ia contar, somando as horas, dias que aqui ficamos, e, apesar da inflação de vitrines, transeuntes, malas, sons, luzes com letras, a memória vem. Vem rápida como é nossa pressa em realizar o futuro. Inda mais auxiliada por uma revista que recebo de brinde, isca para assinar alguma outra ou aquela própria. A moça me oferece com tal simpatia que quase assino, mas depois me lembro que não consigo ler tudo o que compro, censura e culpa de intelectual ressentido que não consegue haver-se com a agenda inventada para seu próprio ego.

Folheando a revista, deparo-me com uma página que liga instantaneamente presente e passado, movimento banal da memória em preto e branco. Fatos ou acontecimentos de 1964. Nem sei por que estão nesta página, acho que é menção aos 50 anos do golpe, ou talvez a revista tenha esta prática, meter fatos comemorativos ao dia daquela publicação, não me importa muito sabê-lo, concentro-me na matéria; são bloquinhos próximos, dois com fotos, um sem, três episódios, um sobre Luther King, cuja menção é o prêmio Nobel da Paz por sua luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Na mesma página, no outro bloquinho, sem foto, ressalta-se que na mesma semana Nelson Mandela foi condenado à prisão perpétua na África do Sul – olho a data com mais atenção, mês de junho.

Com mais destaque para a foto, lembrança sobre o que ocorreu no Brasil, em prosaico mas mediático acontecimento, dois dias antes da premiação de King: Vera Lúcia Couto dos Santos, linda moça carioca, venceu o concurso de “Miss Guanabara”.

No momento de receber o título, uma senhora gritou da plateia: “Sai daí, crioula, teu lugar é na cozinha”. Dias depois, prossegue a matéria, ela amargaria um segundo lugar, sob vaias, tendo sido eleita Miss Brasil a paranaense branca Ângela Vasconcellos.

Fiquei chacoalhando a memória, eu tinha à época 8 anos, agora, neste exato momento, estava viajando para participar de um colóquio na Turquia, minha comunicação versará sobre racismo.

Luther King era muito citado no colégio que eu passaria a frequentar aos meus 15 anos. Quanto ao concurso de miss, lembrei-me nitidamente de minha mãe ficar muito indignada ao ler a notícia numa revista lá em casa (“Fatos e Fotos” ou “Manchete”?), uma frase atribuída à Miss Guanabara, que a revista trazia em letras garrafais: “é crime ser negra?” Abaixo da chamada, a foto da moça chorando. Minha mãe disse “que horror” e deitou a revista ao lado, o “que horror” da minha mãe parecia um espirro. Minha família era indisfarçadamente multi-étnica, então, este assunto de racismo chegou cedo em minha vida, ainda mais porque não éramos pobres, e os racistas tratam com mais rispidez os negros e mestiços que não são pobres e que se dão bem profissional e culturalmente.

Chegou a moça com o sanduíche e pareceu-me que eu também havia fechado o jogo da memória: o “horror” daquele concurso de miss se associava ao obsceno grito da moça da plateia, por que se permitiu gritar assim, e se houvesse um parente da candidata próximo a ela? Ou será que todos achavam um horror a moça no palco? Prêmio Nobel para Luther King, a quem Wilson Simonal dedicou uma canção e eu a ouvi na infância – tínhamos este disco lá em casa, alguém gostava, ou da canção ou do Simonal, não sei. Como historiadora e protestante (acho que mais pelo protestantismo do que pela profissão), li tudo o que estava ao meu alcance sobre King. Quanto à moça bonita, eu, criança, mas atenta à indignação de minha mãe, é normal prendermo-nos aos olhares censores dos adultos, principalmente quando não são para nós. No minuto daquele acontecimento agarrei a revista, a moça estava chorando na foto, gravei na memória e ainda estava gravado. E claro: Nelson Mandela, até podia ser desconhecido no Brasil e por mim, em toda a minha infância e adolescência, mas agora, lendo a matéria e comparando as datas: prêmio conferido a um, prisão perpétua a outro, invisibilidade da África, hiper-exposição dos Estados Unidos, centro do mundo mediático.

Tomei o café após o sanduíche e as lembranças são atacadas pelo relógio, hora de encaminhar-se à esteira onde coloco a bolsa, o cinto, o celular e talvez os sapatos.

Dois homens, uma mulher, um preso, um premiado, ela quase premiada, o choro é crime? ser negra? Vai ver que ficou presa nesta frase perpetuamente porque ser indesejada é muito horrível, mais horrível do que ser perseguida. Ademais, sem o título de miss a invisibilidade lhe seria, desde então, inevitável.

Fila no controle de passaporte?

Palavras-chave:

Deixe seu comentário!