Momentos de uma sociedade pós democrática II

 

Ainda preocupada em pensar se efetivamente podemos dizer que experimentamos uma sociedade pós democrática, (ver Momentos de uma Sociedade Pós Democrática neste blog), mirando os acontecimentos políticos no Brasil e tentando recapitular minhas impressões sobre passeatas …

Hoje, quero pensar o tema “ativismo”.

Em março, ouvi uma pessoa falando: – a Dilma, se fosse democrática, deveria renunciar, olha o povo nas ruas, todo o mundo quer que ela renuncie.

Isto era no começo de 2016, sociedade confusa, a mídia torturando o público com notícias parciais, unilaterais e com slogans pseudo-patrióticos (“ordem e progresso”, “povo nas ruas”, “pior recessão de todos os tempos”, etc).

Mas a frase me calou fundo. Afinal, por mais numerosos que fossem os manifestantes, os 52 milhões de votos que elegeram a presidenta do Brasil, não eram parte deste alegado todo o mundo?

Porém, eu tinha apreciado, e muito, as manifestações de junho de 2013. Até dediquei um pequeno artigo sobre o acontecimento (https://www.academia.edu/26604133/Manifestations_publiques_juin_2013.pdf). Admirei a performance dos ativistas, suas palavras de ordem, as bandeiras e cartazes plurais, revelando a diversidade das organizações co-partícipes, além da aparente independência de partidos.

Já as manifestações contra a Dilma e pró-impeachment (“fora Dilma”, “ fora Lula, “intervenção já”), e as bandeiras verde-amarelas, com cartazes como “tchau querida”, “fora comunismo”, “forças armadas já”, “Brasil livre”etc), lembrou-me muito da “Marcha com Deus pela família e liberdade”, movimento que contribuiu, em 1964, para a queda de Goulart e o advento do golpe militar, ao que se sucederia uma ditadura que durou pelo menos 22 anos.

Mas enfim, março de 2016, eu estava vendo pela TV duas manifestações de rua, por que eu desqualificava uma em favor da outra?

Primeiramente, minha solene antipatia pela forma antropomórfica dos nacionalistas. A Rede Globo, em seu noticiário escancaradamente pró-impeachment afirmava: “Brasil se manifesta” ou “a nação nas ruas ou “o povo”. Quando apresentava, nos horários de menor audiência, as manifestações pró Dilma, enunciava: “gente do PT”, “militantes do PT”, “MST presente nas manifestações”, “ex-presidente eleito pelo PT” (aliás, é difícil encontrar material midiático que afirme que alguma pessoa é de algum partido, exceto as do PT).

Deixando um pouco de lado estas manipulações da opinião pública, o fato é que as pesquisas apontam para uma revolta geral, difusa, ligada muito mais à corrupção do que à crise. Esta é a motivação primeira da maioria dos manifestações, acho eu.

“Intervenção” pode ser sinônimo de intervenção militar, mas pode ser também intervenção policial, do judiciário, da sociedade como um todo no combate à corrupção, e isto, parece-me, o cidadão comum quer nos quarto cantos do mundo. A propósito, a corrupção globalizada pode ser ilustrada apenas com um exemplo: as contas secretas na limpa, ordeira e democrática Suíça.

Todavia, em todas as manifestações, há grupos de interesse na retaguarda, incluindo aí, os que se aproveitam dela, como os que querem a volta dos militares ou os que querem angariar votos a seu favor.

Dos favoráveis à Dilma, podemos citar, entre outros, aqueles que estão contra o seu governo, mas temem por fissuras no Estado Democrático de Direito; a defesa de uma política nacional-desenvolvimentista; os militantes da base aliada; diversas entidades da sociedade civil de esquerda.

Da parte dos opositores, como afirma Boaventura de Souza Santos, (https://blogdaboitempo.com.br/2016/06/02/boaventura-contra-o-golpe-parlamentar-no-brasil/), em primeira linha, estão as multinacionais; claro que também as nacionais: (embora tal divisão seja tênue, quando se pensa no médio e grande empresário) interessadas em desonerar-se de impostos, na privatização das estatais, em flexibilizarem as leis trabalhistas; a oposição aliada; os políticos do PSDB que, segundo Sergio Machado, em conversa telefônica com Jucá Romero, afirmou que, por meio de eleição o PSDB não chegará ao governo. ((http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/05/leia-os-trechos-dos-dialogos-entre-romero-juca-e-sergio-machado.html) .

Mas de ambos os lados, e de qualquer cor política, ninguém vê solução a curto prazo para a mercantilização subterrânea de votos.

Não há liderança, não há projetos, não há uma boa equipe. Não há quadros em vias de formação, exceto nesta ou naquela universidade, mas isto é raro, e mesmo que o tenha, os políticos de carreira são recrutados ou da mídia, ou das igrejas evangélicas, ou do empresariado, cada vez menos preocupados com planejamento de médio e longo prazo. Afora isto, a promiscuidade entre os poderes Legislativo ou Executivo.

Neste quadro de pessimismo em relação à política e sua dignidade, das possibilidades que ela aponta, de substituir a violência pela palavra; o arbítrio e o carisma pela lei; a separação entre o secular e o religioso, como julgar a situação?

Todos nós somos um pouco conservadores e, nos momentos de ceticismo, nostálgicos; acabamos por encarar as mudanças como necessariamente ruins. Além disto, que a democracia eleitoral – ou democracia de massas – já não nos representa mais e pouco ou nada auxilia no consenso mínimo, é um dado mais ou menos evidente.

Há, outrossim, um fenômeno novo e creio ser algo de que os cientistas sociais de amanhã falarão se o tema for sociedade pós democrática.

Trata-se do ativismo filantrópico, expressão que eu mesma inventei. Há um número não desprezível de pessoas e entidades engajadas na filantropia. E esta, cada vez menos circunscrita ao mero assistencialismo.

Há iniciativas muito criativas no denominado terceiro setor: pela defesa do meio ambiente, combate aos preconceitos, por reivindicação de demandas junto ao estado, mutirão, reforço escolar, combate às drogas, saúde. De resto, creio que quase todos nós pertencemos a uma ONG ou somos simpatizantes delas.

Diferentemente do debate político, as ONGs não se organizam pelo dissenso, mas pelo consenso; não se pautam na razão dialógica, mas nas ressonâncias de ordem afetiva; não possuem macro-projetos (embora os apoie); muitas tentam formar opinião, mas quase nunca este é o objetivo final.

Não sabemos se esta proliferação de iniciativas vai durar; afinal, os que pagam impostos exigem serviços públicos do estado; ademais, o número de pessoas carentes se amplia de tal forma que pode tornar as ONGs ineficientes.

No entanto, esta nova forma de ativismo precisa ser melhor estudada em suas dimensões e amplitude. Até porque, no momento em que vivemos, assim me parece, ela está mobilizando a população de forma muito mais direta e entusiasta do que as entidades representativas e instituições políticas. A ver…

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