Momentos de uma sociedade pós-democrática

 

Democracia supõe convívio e espontaneidade. Convívio delicado, porque implica em deferência (deixar que outro fale primeiro), simpatia e gosto pelo debate, respeito mútuo, mas não para uma conversa diletante e harmônica, e sim para o confronto.

Se isto é verdade, espontaneidade se avizinha de criatividade justamente num mundo em que a informatização tolhe a ambas. Afinal, numa sociedade hiperconectada, a aceleração muitas vezes resulta em comportamento repetitivo.

Por certo nos aproveitamos do “smart phone” ou do tablete para nos comunicarmos com os nossos queridos. Mal descemos do avião, ligamos para algum próximo apenas para dizer: – cheguei. Em minutos ou mais estarei em casa. Este “estarei”, este “em minutos” sonha ser preciso. Ou bem ao inverso. – Já estou indo, o vôo sairá no horário, um beijo, te amo, vou sentir saudades. Palavras sem muitos horários e talvez, sem precisão, inclusive, afetiva.

Mas não foi para isto que todos estes aparelhos e tantos aplicativos foram e estão sendo criados numa velocidade alucinante. Foram-no para acelerar e intensificar nosso fluxo de trabalho e, ao mesmo tempo que o acelera, desterritorializa-o. E o controle sobre nosso desempenho aumenta.

Estamos conectados ao trabalho de madrugada, basta não desconectar. Em casa, no volante, na sala de espera, no aeroporto. Os aparelhos sabem onde estamos, sabem o que queremos comprar, onde queremos passar as férias, o chefe sabe se atendemos o telefone e portanto se já ouvimos suas ordens. E quantos minutos demoraremos para responder.

Isto leva, a passos velozes, à indistinção entre a vida familiar e o trabalho. Entre o privado e o público. Principalmente entre o eu e o não eu.

Pacto de competitividade e desemprego – engraçado acreditar nesta premissa, a ideia de que para reduzir o desemprego precisamos de crescimento econômico; crescimento econômico se logra com a redução de mão de obra. Redução de mão de obra gera subconsumo. Nem tanto. Podemos viver em uma sociedade em que apenas uma camada compre – produtos caros da micro-eletrônica, o lucro é seguro, a menos que se leve em conta os gastos para frear a violência a ser perpetrada pelos excluídos, mas excluídos podem ser presos por porte ilegal de drogas.

Assim amedrontados, o tempo de não trabalho assusta ainda mais e ficamos sem os momentos de ócio quando o pensar acontece. Por isso também olhamos neuroticamente nossa lista de mails: quem sabe ali, entre as diversas tarefas, aparece algo que desejamos. Um convite. Uma imagem pornô.

Sem pensar, sem agir, centrados neste trabalho contínuo, mais um aplicativo do que um sujeito, o convívio conflituoso é o que menos se quer.

Por isso o facebook faz sucesso: ali somos todos anônimos e hipervisíveis. Ali não precisamos nem refletir nem dialogar, tampouco discutir. E somos bombardeados por informações que reivindicamos por elas mesmas. E temos a ilusão de que falamos a alguém.

Ali, trabalho, desejo, pessoas e informações se misturam. Ali, não são resistências, é reação. A única ameaça, além do vírus, é uma crise que nos cuspa fora do mundo frágil do trabalho.

 

 

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