“Não é assim uma Brastemp”: história, propaganda e ditadura no Brasil, por Davi Castro Neto

 

“[...] o historiador é como o ogro da lenda,

onde fareja carne humana sabe que ali está a sua caça” (Marc Bloch, Apologia da História).

 

Normalmente, a primeira imagem que vem à mente das pessoas quando se trata de História é a de um sujeito que vive em meio a livros e toda sorte de papéis empoeirados e envolvido com questões que ocorreram há muito anos (ou milênios).

Esta impressão não é totalmente verdadeira. Embora os historiadores conservem a erudição, a preocupação com o passado envolve mais do que “papéis velhos”. Nossas inquietações acompanham as preocupações da humanidade em todas as suas transformações desde a formação da primeira comunidade até as tentativas de colonização do espaço.

Os primeiros passos que movem os historiadores é a desnaturalização de processos sociais complexos. Em outras palavras, compreender como e por que as coisas aconteceram de uma maneira e não de outra. A partir disso, produzimos hipóteses que serão mais ou menos produtivas de acordo com os arquivos levantados e a capacidade do historiador de analisá-los mediante a um rigoroso tratamento teórico-metodológico. O historiador não acha e/ou escreve ao acaso e, portanto, não oferece apenas uma opinião, mas uma análise aprofundada que deve se sobrepor às próprias conveniências políticas, ideológicas ou afetivas.

Assim, nem só de papel é feita a vida do historiador.

A partir dos anos 1950 com a formação das sociedades de consumo de massa, novos problemas, novos métodos e novas abordagens foram colocados na mesa, especialmente a partir da presença cotidiana das mídias: rádio, televisão, cinema e, recentemente, as mídias sociais digitais.

Com o perdão do trocadilho, é aqui que minha pesquisa entra em cena. A partir da questão: que tipo de explicações um historiador pode oferecer quando analisa os produtos veiculados por tais mídias ou o que estas mídias podem dizer a respeito das sociedades que as produziram, procuramos construir uma pesquisa que analisasse alguns aspectos da ditadura militar brasileira, tomando por base a propaganda política e a publicidade.

No caso das propagandas, é possível apontar uma relação com aquilo que a sociedade espera de si mesma. Isto quer dizer que podemos observar como são projetados modelos de comportamento, medos sociais, projeções de futuro e papéis sociais.

No caso da tese de doutorado defendida em 2018, reunimos um acervo que procurou mapear como a propaganda brasileira reagiu e agiu no período da ditadura militar brasileira (1964 – 1985), utilizando peças publicitárias, posições das instituições de classe, das agências e de alguns publicitários.

Os anos 1970 foram marcados pelo sucesso relativo do projeto econômico da ditadura. O “milagre econômico brasileiro”, embora tenha deixado um saldo de dívida externa e inflação, foi um dos responsáveis pela corrente ufanista que varreu o Brasil.

No campo publicitário, agências e campanhas misturavam nacionalismo, ufanismo e patriotismo em peças publicitárias que afirmavam para “pisar firme que esse chão é seu” (Alpargatas Havaiana) ou se congratulavam com “o céu azul e livre de um grande Brasil” (empresa de jatos de aluguel A Cruzeiro). Outras procuravam valorizar a cultura nacional como o natal tipicamente brasileiro da Ducal e realçando a “ginga” do Brasil, dos Jeans UStop. Nas palavras do supermercado Supercenter Superbom “o país das maravilhas já não é mais um sonho”.

Por que campanhas como essas eram produzidas naquele momento? Com qual objetivo? Qual o interesse em sua produção?

Estas questões abrem caminho para a reflexão sobre o que significaram a ditadura militar no imaginário e na memória social. Atualmente, o debate público apresenta fraturas entre aqueles que apelam à própria memória ou à experiência, imaginando que assim conseguirão contrapor o discurso acadêmico do historiador, tido como ideológico e, portanto, contaminado.

Quando pensamos na produção das campanhas publicitárias, conseguimos compreender uma parte do porquê destas memórias emergirem. São rastros de um momento quando havia a certeza de que o subdesenvolvimento seria superado pela construção de uma “civilização nos trópicos”. Naquele contexto, agências de propaganda não titubearam a se aproximar do projeto ideológico da ditadura, numa conjugação de afinidade política com interesses econômicos.

Este rastro de memória ufanista se confronta com a memória do trauma, causada pelo agigantamento do aparato repressivo e das famílias dos mais de 400 mortos e desaparecidos políticos que ainda buscam justiça e reparação. Como é possível notar, a memória é outro dos campos do historiador que não cabe no papel, mas está em profundo diálogo com a sociedade.

Entender como estas memórias coexistem é de grande importância para compreender por que assistimos um conjunto da população que vai às ruas “manifestar-se a favor” de uma nova intervenção militar ou de um novo AI-05. Assim, embora o campo de trabalho do historiador seja o passado, está profundamente vinculado aos problemas do presente.

Outras impressões revelam traços da forma como a sociedade brasileira era entendida pelos militares no poder. Os casos mais sintomáticos foram as campanhas oficiais cujos personagens “Sujismundo” e “Sujismundinho” encarnavam comportamentos coletivos tidos como subdesenvolvidos de pessoas que não tomavam banho, jogavam lixo no chão ou das crianças que não mantinham o material escolar organizado e/ou não lavavam as mãos.

Embora pareça sem importância, ou pelo menos estranho, problematizar campanhas aparentemente inocentes sobre higiene pública (ainda mais em tempos de pandemia), o que aquela publicidade oficial demonstrava era a visão empobrecida sobre a população brasileira e contra o que chamamos de brasilidade. Características como: o samba, o gingado, a alegria, a aversão a protocolos nos distanciavam dos modelos europeus de comportamento há tempos invejado por setores da elite nacional.

Aqui reside a peculiaridade da profissão do historiador, a sua capacidade de compreender as sociedades numa perspectiva histórica dialogando com diferentes temporalidades.

No caso do Brasil, tais elementos podem ser percebidos quando analisamos nossa formação social em suas especificidades. Se a formação dos Estados Nacionais forjou sociedades minimante integradas, estendendo, aos poucos, direitos sociais a um conjunto amplo de indivíduos, no Brasil assistimos à formação social, cujo exercício dos direitos ficaram restritos à uma minoria. Sobre a maioria foi projetada a ideia de uma sociedade preguiçosa, maltrapilha, ignorante e com necessidade de ser tutelada.

A profissão de historiador, portanto, é exigente. A ampliação das formas de percepção da atuação humana no tempo foi fundamental para compreender não apenas um traço específico do período (1964 – 1985), como também contribuir para o conhecimento a respeito da própria construção do Brasil.

As propagandas utilizadas demonstram um cruzamento entre uma projeção de longo prazo (o eterno país do futuro) e as particularidades da ditadura militar brasileira que sobrepôs seus interesses como nacionais, apostando num nacionalismo de viés ufanista que, sob um difuso conceito de comunista, tentou estrangular a diversidade daquilo que entendia não condizente com o que concebia como nação brasileira.  

Por fim, entendemos que a profissão do historiador será inevitavelmente atravessada pelas questões políticas do presente. Ao mesmo tempo em que é desprezado, é o primeiro a ser chamado para validar questões históricas com imbricações políticas.

 Nossa contribuição social deve ir além do exercício íntegro de nossa profissão e ajudar na compreensão do porquê chegamos onde chegamos e quais as possíveis saídas para a encruzilhada civilizatória que nos encontramos. As respostas podem ser amargas, mas devem ser colocadas com coragem. Afinal, como afirmou Karl Marx, ao citar Dante Alighieri, “[...] à entrada para a ciência deve ser banida toda a desconfiança. Toda covardia tem que ser morta”.

David A. Castro Netto

Doutor em História – UFPR

Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá – UEM

 

 

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