O amor ao chefe: Vargas e Perón, o governo dos fortes, por Fernando Botton

 

Quando a história escrevia sobre a política, o grande enfoque era dado às decisões racionais das instituições ou regimes de Estado (formação de partidos, ordenamentos legais, decisões administrativas etc.). Foi numa recente renovação desse enfoque que alguns historiadores passaram a se interessar também pela questão das emoções, dos sentimentos e dos afetos no interior da história e da política. 

Pensando que a política não é fundada apenas na racionalidade, mas também nas emoções, decidimos pensar a manifestação desses fenômenos em solo latino-americano. Para isso não havia exemplo mais apropriado do que os governos de Getúlio Vargas no Brasil e Juan Domingo Perón na Argentina. Ambos foram os governos que instituíram de vez a palavra “amor” no vocabulário político das duas nações. Não por acaso, Vargas recebia e propagandeava o apelido de “pai dos pobres” da mesma forma que a primeira dama Eva Perón, docemente conhecida como Evita (Evinha), também era chamada de “madre de los descamisados” (mãe dos trabalhadores arremangados).

Levando em consideração a importância desse clima de amor, paternidade e maternidade desses ideários políticos decidimos então nos perguntar: Quais as ideias que fundamentavam todo esse amor no interior da política? Quais eram os objetivos desse tipo de abordagem? Sob quais estruturas de poder repousavam? O que significaria autoridade e liderança para aqueles governos?

Com o intuito de responder essas perguntas pesquisamos uma série muito grande de propagandas políticas, discursos, imagens e biografias daqueles líderes, além das cartas que os populares escreveram para eles naquela época. Dessa pesquisa consideramos que um dos termos mais recorrentes para a sustentação de seus poderes era o de liderança; parece que tudo o que justificava suas capacidades de governo eram seus atributos pessoais de grandes gestores da máquina pública, agindo da mesma forma que faz um pai de família ou um bondoso gerente de fábrica. Para compreender a origem dessas ideias nos valemos dos estudos de Yves Cohen. Segundo o historiador, essa noção de chefia era recente, praticamente oriunda de fim do século XIX, mas de grande impacto na primeira metade do século XX quando muitos dos regimes políticos do ocidente (independentemente de sua orientação política ou nacionalidade) passaram a adotar a noção de que as instituições, empresas e nações necessitavam de chefes para comandar e dar um sentido comum às massas desorientadas. Desse ideário beberam uma série de líderes mundiais como Joseph Stalin, Benito Mussolini, Adolph Hitler e também Franklin Roosevelt. Da mesma forma, nossa pesquisa buscou demonstrar que foi fundamental para Vargas no Brasil e Perón na Argentina.

Para compreender essa ideia de chefia em Vargas e Perón chegamos em um denominador comum a todos esses líderes: a Psicologia das Massas do francês Gustave Le Bon. O seminal livro publicado em 1895 – lido e referenciado por praticamente todos os intelectuais políticos que escreveram sobre Vargas e Perón (além de ser citado diretamente por ambos) – levantava a hipótese de que as pessoas, quando reunidas em grupos, perdiam suas faculdades intelectuais, passando a ser dominadas pelo instinto, unindo-se e misturando-se como se fossem massas homogêneas; paravam de pensar racionalmente para entrar numa espécie de transe hipnótico. Segundo Le Bon seria necessário um líder enérgico e viril para o domínio das massas femininas, caso contrário as rebeliões e revoluções assolariam todo o planeta. É por essa demanda por líderes viris para controlar as massas femininas que passamos a compreender o impacto que a psicologia e a psicanálise, compreendidas na época como as ciências da alma e das emoções, passou a impactar nos governos da época, a ponto de não apenas fornecer aparato para uma propaganda política massiva de grande impacto emocional, mas também para estruturar os próprios fundamentos pelo que se compreendia por hierarquia, poder e autoridade naquele período.

Por meio de uma leitura interpretativa da psicologia das massas e das primeiras traduções da psicanálise social freudiana foi possível a montagem de um aparato de ideias absolutamente novo naquele período, que permitiu que a governança política se desse a partir da capacidade dos líderes de demonstrarem uma personalidade realmente superior aos demais, justificando seu posto de liderança. E uma hierarquia que se basearia num conceito de autoridade fundada no amor, afeto, carinho e desejo por aqueles líderes. Dessa forma, passamos a responder às perguntas anteriormente formuladas:

1) Quais as ideias que fundamentavam todo esse amor no interior da política? A psicologia das massas e as primeiras leituras heterodoxas da psicanálise social seriam ideários correntemente utilizados pelos intelectuais varguistas e peronistas para sustentarem esse ideário.

2) Quais eram os objetivos desse tipo de abordagem? Estruturar formas modernas de exercício de poder que fossem absolutamente eficientes, que agregassem e incorporassem as massas para o interior dos discursos e práticas políticas. Também servia para criar uma argumentação propagandística extremamente apelativa e marcada fortemente por motivos emotivos e sentimentais, permitindo que aqueles líderes fossem verdadeiramente venerados e amados por sua bondade, caridade e carinho junto à massa trabalhadora.  Além disso, esse ideário também serviu para recriar as estruturas de poder da época.

3) Sob quais estruturas de poder repousavam? De um lado, sob a noção hierárquica de chefia, que fazia do líder político alguém naturalmente apto a assumir o governo do Estado e das massas a eles subordinados. Mas por outro lado, essa hierarquia se basearia não mais em um sistema de mando-obediência baseada na imposição obrigatória mas, pelo contrário, no desejo amoroso e libidinal daqueles que seguem ao líder de servir e participar dessa união nacional fundada no carinho, na bondade e no afeto mútuo existente na relação entre o líder e as massas.

4) O que significaria liderança e autoridade para aqueles governos? Nesse sentido a liderança significava portar os traços psicológicos e de personalidade específicos para o comando enérgico e viril da nação e das pretensamente passivas massas femininas. Já a autoridade seria o vínculo de amor e afeto que se estabeleceria entre ambas, advinda mais do desejo das massas por participarem desse vínculo do que pela imposição do líder.

É evidente que a pesquisa histórica demonstra que as estruturas de ideias são diferentemente adaptadas aos diversos contextos regionais, então foi importante perceber algumas formas com que esse fenômeno se manifestou especificamente em cada contexto. Se o varguismo focou seu apelo midiático na imagem do pai bondoso, que presenteia as massas com direitos trabalhistas e fundamenta a união nacional em nome de um ideal cristão de governo, o regime peronista apostou numa estratégia mais orgânica, em que Perón seria o general por quem as massas seriam conduzidas voluntariamente porque se sentiriam conscientemente partícipes do projeto peronista. É interessante observar que ambos evocavam um dos ramos daquilo que Freud chamava por massas artificiais: a igreja e o exército. Também é importante ressaltar o peso político de Eva Perón, absolutamente mais influente que o de Darcy Vargas, que articulou elementos de bondade e feminilidade maternal com a força das mulheres. Sua morte elevou à máxima potência a dramaticidade da política argentina, com um impacto tão poderoso quanto o suicídio de Vargas.

Entender tudo isso significa encontrar as raízes da formação dos nossos Estados e instituições, significa compreender as práticas e argumentações políticas que seguem sendo utilizadas até hoje. Além do mais, estudar isso significa comparar as experiências de países irmãos como Brasil e Argentina.

Fernando Botton

Professor Adjunto da Universidade Estadual do Piauí

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