O bêbado do bairro

Primeiro
Ele cambaleia, grita sandices, frases nem, palavras, nem, balbucio honesto de quem quer falar mas não consegue: “Voc’ s vam ver se mi scapam, vm min nfrentar, vem!!!”
Dizia-se dele: “ele grita com o padre, insulta as carpideiras, difama as beatas, tenta atacar as crentes de cabelos longos que por ele só pedem misericórdia, fala com o capeta no meio da rua e neste momento nenhum carro o atropela. Faz tremer os homens honestos pelas mulheres que ele pode molestar; também por causa das meninas que ele pode estuprar”; pior para ele, quando sóbrio sabe: a ninguém amedronta, até as crianças riem por demais quando ele fala e expõe seu bafo e seu fedor.
Corpo balança cabeça como quem tem uma parte oca entre o crânio e o cérebro, dói, ressoa, prenúncio de dor de estômago, vômito-alívio vem ou não vem, ele cambaleia, olha e vê tudo em torno de si girando, tanto quanto suas múltiplas, repetitivas e raras lembranças de infância. Anseia, novamente, pelo sono: se este chegar, a compulsão ao álcool descansa.
Cenário: Bairro de Santana, São Paulo, abril de 1972.
Casas apesar de não freqüentadas por ladrões, estão repletas de arame farpado ou portões altos de ferro. Não importa, ele entra qualquer que seja a deixa. Esqueceu de trancar, à noitinha, ele entra. O namorado saiu correndo quando o pai chegou, a moça olhou pela janela, pela janela aberta ele entra. A empregada doméstica saiu, só uma vez por semana, atrasada, pela mesma porta dos fundos, ele entra. O jardineiro recebeu o dinheiro de sua jornada, distraído, fitando as rosas, pelo corredor por onde brincam as crianças de pega-pega, sai o jardineiro, ele entra. Vai um mendigo pedir esmolas, enquanto ele aperta a campainha, a dama vem atender, entre o busca e o dá o trocado, ele entra. A ver quem lhe dá um dinheiro para o próximo gole.
Era um bêbado de barba não feita, dormia no chão bêbado numa rua secundária do bairro, invadia as entradas das casas, todos estranhavam seu nome: Germano, de cor mais escura do que parda, cabelo carapinha, pouca barba como é próprio dos quase negros, por que a mãe escolheu o nome Germano? Ou foi ele que em sua insanidade assim se batizou?
Quando o reprimiam pelo mau comportamento, gritaria palavrões, e, constrito, para si mesmo e para outros bêbados que lhe faziam companhia, ele se auto-perdoava:
isto que tenho nenhum médico cura
Até na época de Jesus, lembrava ele com propriedade, havia bêbados, haja visto o milagre da multiplicação dos pães; ninguém reclamou da falta de pães, já do vinho, pediram, que vergonha, à mãe de Jesus para reclamar por um pequenino milagrinho: queriam mais um gole …

Quando conseguia ficar sem beber
Freqüentava o A.A.
Carpia terrenos baldios
Gritava com gemidos inexprimíveis
Até que ouviu alguém do Exército da Salvação, alguém que ele num átimo de preconceito – não era o primeiro nem o único para com os crentes, chamou o pregador de Sargentão do Exército da Salvação. Ouviu dentre estes saltos de mente inebriada que Jesus o amava e lhe dava a salvação, não importava os muitos pecados, perdoava. Que se ele aceitasse se humilhar ali mesmo e falasse ali mesmo com Jesus, que Jesus lhe dava uma nova vida, de paz e amor, que ele entregasse tudo o que tinha, (riu-se de maneira escarnecedora – o que tinha?).
Isso até ouvir um trecho do Salmo 91:
Tu não temerás os tremores noturnos
Nem a flecha que voa à luz do dia
Nem da peste que se propaga
Nas trevas, nem o mal
Que grassa ao meio dia,
Caiam mil homens à tua esquerda,
dez mil à tua direita, tu não serás atingido…

Parou, sentou no banco, não entendia a Trindade, mas pensou mais uma vez, posso fazer, mal não faz. Sem saber o que isso significava na sequência, embora olhando o pregador, bem se via sua semelhança e a dessemelhança com o sacerdote, da mesma cor de sua pele mas sem cachaça na cabeça, tudo isto e todos estes pensamentos mais as duas doses de steinhaeger vagabundo o fez dizer sim e depois girar em torno de si, olhar o cão sarnento que por sua vez, também cambaleante estava a olhar para ele, o bueiro fétido, a luz do poste incandescente da rua que o olhava e, numa súbita e esperançosa felicidade, caiu e o controle de esfíncter lhe faltou, se bem que ninguém notou, pelo menos não até que ele dormisse fundo.
Acordando, foi ao albergue do tal exército da salvação,
passaram-se 2 meses ou 3 semanas?

Fez a barba e pôs terno, parou de beber
Comprou um sapato usado e bonito

Começou a ler a bíblia, devolveu e revolveu as promessas preciosas ali contidas
Foi-se do bairro de Santana, parece que virou Pastor Germano, até com estágio nos Estados Unidos, não sabemos se presbiteriano ou batista, da Assembléia de Deus ou da Universal do Reino de Deus, da Congregação Cristã ou da Metodista, talvez da germana Luterana, mas também ninguém nos pode culpar: sem barba, com terno, sóbrio e com tantas igrejas e dízimos que andam entre nós, quem sabe?
Não importa: foi daí que as crianças que tinham medo dele, o Germano, o bêbado do bairro, foram procurar nas freiras da escola outro medo para sentir.

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Comentários:

  1. Renato disse:

    Belo texto, Marion. Bom de ler. Bj

  2. Roberto disse:

    Vida transformada por um poder que não era o dele!

  3. Marcia Macedo dHaese disse:

    Marion, conhecemos um ex bêbado do bairro. Mora na praia, e gostamos muito dele. Muito bom teu texto. Fica ecoando aqui na mente. Fico triste com a realidade de muitos desses personagens, não só o bêbado. Saber que é possível uma tentativa de transformação, gera alguma cor nesse cinza todo.

  4. Daniel disse:

    Um texto evocante….
    Estimulou-me a voltar a procurar outros txts neste sitio.
    parabéns

  5. giovana de salles disse:

    não só a crianças sentem medo, não é? a ficção consegue dar conta de várias narrativas, condensando-as. narrativas verdadeiras de muitos Germanos antes simplesmente: bêbados. pena que o desgaste da imagem evangélica para a sociedade tenha se tornado escandalosa e bufa. como a do bêbado antes da conversão. e pena ter sido mais que um arranhão mas uma cratera abismal, que torna a história dos bêbados que deixam de ser bêbados quando se convertem apenas um texto bem escrito diante da sociedade cheia de bêbados simplesmente “engraçados” ou amedrontadores. agora o medo não é mais do bêbado, mas do instrumento usado para converter o bêbado, ou seja: a igreja evangélica.

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