O filme “Colônia” e a ditadura chilena: repressões cruzadas

 

 

O filme “Colônia”, (título brasileiro, “Amor e revolução”), do diretor Florian Gallenberger, e que tem Daniel Brühl, (Daniel) e Ema Watson (Lena) como protagonistas, é um convite à reflexão sobre a ditadura no Chile.

Protestos nas ruas contra o golpe de estado que derrubou Salvador Allende e levou à ascensão de Augusto Pinochet. Participam das passeatas o fotógrafo alemão Daniel e sua namorada Lena, comissária de bordo de uma empresa aérea alemã.

Ele estava comprometido com a resistência política, dela, pouco se sabe, senão que, em passagem pelo Chile devido a seu trabalho de comissária de bordo, vai ao encontro do jovem Daniel.

Tinha a intenção de ficar poucos dias no país, mas em meio às manifestações, Daniel é detido e depois, torturado pela polícia secreta DINA, sem que se possa saber de seu paradeiro .

Para salvar o namorado, Lena decide se internar, a pretextando ser um ato voluntário, na “Colônia Dignidad”, fundada por Paul Schäfer (Michel Nyqvist).

Tanto a colônia quanto seu diretor existiram na vida real. Schäfer, nascido na Alemanha, foi membro do partido nazista e participou da Segunda Guerra Mundial. Depois da guerra, criou um lar para crianças, como uma missão do ministério batista. Em 1959, foi acusado de abuso sexual de menores, o que o levou a fugir da Alemanha.

Em 1961, cria, no Chile, “Dignidad”, sociedade beneficente que funcionava numa fazenda, tendo imigrantes alemães como trabalhadores. Logo que chegavam, as famílias eram obrigadas a se separar por sexo, para evitar laços conjugais – as mulheres dormiam num alojamento e os homens, noutro. Andavam com roupas típicas de uma irmandade religiosa e eram todos convertidos a uma seita fundada pelo próprio Schäfer.

A ideia era associar trabalho e missão, no caso, o sustento de crianças órfãs ou pobres, num clima de harmonia, simplicidade e devoção. Mas ali também Schäfer praticava abuso sexual de menores, o que era acobertado, em parte, pelos favores que prestava à DINA.

Quando termina a ditadura, os fatos vêm à tona e tanto o abuso sexual como a colaboração com os órgãos de repressão lhe custaram a perda da função de líder da Colônia. Em 1997, Schäfer foge do Chile, mas graças ao empenho da “Comissão Nacional da Verdade” e da “Anistia Internacional” ele foi capturado, condenado e preso em 2006, tendo falecido quatro anos mais tarde, com 88 anos.

Schäfer, na vida real, havia sido discípulo de William Marrion Branham, um pregador pentecostal norte-americano cuja mensagem enfatizava a cura divina e o apocalipse. Trata-se de um destes muitos missionários que abraçam uma causa e fundam igrejas, sem experiência teológica mas com muito carisma e eloquência, além do alegado poder da cura. Outro aspecto de sua mensagem religiosa que precisa ser destacado é a misoginia; dizia que um dos principais pecados da modernidade era a mulher e seus artifícios para seduzir o homem, como usar saias curtas e maquiagem. Ainda, sua ênfase no cuidado dos pobres.

Qual a importância de Branham na vida de Schäfer? Talvez, a principal, a misoginia. No filme, apresenta-se sua obstinada suspeição de que as mulheres sejam as responsáveis pelos pecados sexuais. Por isto, elas merecem apanhar e devem ser constantemente vigiadas.

O segundo, o enclausuramento. Branham não criou uma colônia fechada, mas pregou o isolamento em relação às “coisas do mundo” e condenou a modernidade.

A falta de formação teológica e a formação de uma hierarquia rígida, com um chefe forte, severo e provedor pode sertambém uma ressonância de seu mentor.

A diferença é que Branham não teve, como Schäfer, a proteção do governo, tampouco foi colaborador em atos de repressão política.

No filme, aparecem armas escondidas na Colônia, prática de tortura e, inclusive, menção a uso de drogas letais. Aparecem túneis, quartos de hospitais precarizados, esconderijos; e , um dos momentos decisivos da trama, a visita de Pinochet, que é inclusive homenageado com bandeirolas alemãs e chilenas.

São, portanto, duas organizações autoritárias que se cruzam. À repressão sexual, a política, além da introjeção do medo e da obediência, o que, aliás, estendeu-se a todo o povo chileno.

Podemos empregar outra palavra que não organização: a palavra aparelho, pois geralmente, nos governos autoritários, as organizações repressivas são ou querem ser autônomas entre si. Ademais, possuem chefes locais e deles não podem prescindir.

Os aparelhos podem ser oficiais ou não oficiais, clandestinos ou de conhecimento público, com ou sem objetivos claramente definidos. Nestes locais, os responsáveis pela repressão operam um poder cuja “vantagem” é conseguir conquistar a obediência pelo sobressalto seguido à euforia, seja pela libertação, amor de Deus, amor do líder, vitória contra o inimigo. E operam este poder não apenas no corpo dos adversários, mas também de seus seguidores, o que nos faz entender, em parte, a pedofilia de Schäfer, sugerida sutilmente já na chegada de Lena à colônia, e de forma mais explícita ao final, quando o líder dirige, com indisfarçável lascívia, o coral infantil.

Nas seitas e nos aparelhos, impele-se a cortar todos os laços afetivos pregressos e manter as mentes ocupadas com o trabalho rotineiro e com a causa. Vez que outra, é preciso “sacrificar” um dos seus, pois a seita guarda em suas subjetividades a paranoia e o impulso à sectarização.

Mas a seita se condena ao fracasso ou ao enfraquecimento porque o chefe não é bastante para todos em todos os momentos e lugar; há espaço para a transgressão, e com ela, a fuga ou o abandono. No entanto, neste filme, nem fuga, nem abandono são possíveis aos moradores de “Dignidad”, pois ela está cercada de todos os lados e em todas as dimensões.

O filme “Colônia“ é um thriller e, como tal, não poderia deixar de apresentar heróis e antagonistas. A ênfase recai no voluntarismo dos dois jovens; eles escapam de “Dignidad”, levam provas dos crimes ali cometidos e contam ainda, para sua libertação, com a bravura de um amigo de Lena, que os coloca no avião e os leva para a Alemanha.

Trata-se de uma elaboração estética para o grande público que, à semelhança de um romance histórico, coloca o espectador em frente ao real ficcionalizado, e dele espera uma posição; ao apresentar a história como mestra da vida, sorve da arte engajada.

E claro, depois destes comentários, resta ainda um elogio. Como historiadora, não poderia deixar de mencionar que muitos dos documentos que foram fonte para a reconstrução deste acontecimento, resultam da pesquisa de historiadores.

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