O militante ressentido

 

Já que eu falei de Refém, personagem que é como um sintoma do medo e da disposição em colaborar com o sistema ditatorial, quero agora falar de Companheiro, o militante ressentido. Também é justo, para não dizerem que sou tendenciosa e não falo do outro lado da margem do rio estreito e lodoso que dividia os dois lados.

O militante ressentido era parecido com o “linotipista de Beria”, maldavam seus desafetos. Ou “o homem de confiança de amanhã”, sonhavam os candidatos. Ou “uma pessoa coerente”, elogiavam os companheiros.

Para tudo ele tinha opinião e opinião inflamada, sempre emitida com voz um pouco acima do tom. Embora não faltasse às passeatas, julgava que especificamente no que dissesse respeito a ele, isso era desperdício de tempo – não as passeatas, claro que não, estava convencido de que a luta era passo a passo e as massas iam se conscientizar. Sua indignação se devia ao tempo que gastava para organizar a estratégia e porque muitos companheiros faltavam. Eram uns acomodados? E por que ele é que tinha de pichar muro?  Justo ele que era, disso estava convencido, um intelectual, intelectual do partido.

Voltando ao ressentimento: dizia de si para si, quando saía do cinema na rua Saldanha Marinho, única sala de cinema da cidade a mostrar cine arte: um intelectual do partido tem de fazer a ideologia… lamento, poucos vieram, mas prosseguia com a convicção naturalmente política de que não distribuiria os panfletos ao longo daquela semana. Essa discussão era algo que já tinha sido discutido no coletivo, era uma questão política, os outros também tinham que participar. E mais: ele não falava por si mesmo, mas pelo coletivo. Tinha princípios e não abria mão deles.

Era contra os intelectuais elitistas e atribuía a eles seu fracasso de não ingresso como professor na universidade – além da direita, é claro. Desconfiava de pessoas que “entravam” na universidade, tinha, sim, cooptação no jogo do poder. E aquele cara que fez doutorado no exterior?  Não, no que dizia especificamente a seu respeito, a direita o perseguia, ele até sabia o por quê. Porque ele falava mesmo.

Contudo, tinha lá seus pecadilhos: por exemplo, se o tema era o futebol e o seu, segundo o partido, indiscutível conteúdo alienante, diante de tal discussão política das pessoas ali presentes, ficava meio calado, só acenava com a cabeça e fechava os olhos  com vagar, afinal, adorava futebol.

Já se o tema colocava na pauta os vícios pequeno-burgueses, como ir a restaurante caro, discutir as decisões do partido depois da reunião, falar mal do que já tinha sido votado, num claro desrespeito ao centralismo democrático, gostar de rock e da Jovem Guarda, ele argumentava que o espaço da arte era matéria importante e saía assobiando “Garota de Ipanema”. E passava do sisudo ao constrangido se na publicidade do “out door” ou do calendário na oficina de automóvel aparecesse mulher pelada. Ursula Andress, por exemplo. Ou Marilyn Monroe….É, a burguesia sabe como anestesiar as consciências!

E o que dizer quando o tema era arte engajada? Gal Costa ou Elis Regina? Joan Baez ou Rita Pavone? Ah, a Rita Pavone … As canções Datemi un martello e Dio come ti amo, Abbiamo 16 anni, tudo isto não lhe saía da cabeça, inda mais aquele olhar de gatinho com delineador tão perfeitamente pintado naquele rostinho infantil, magrinha. Sorriso de menina, cabelinho de moleque. Talvez Rita Pavone, cuja imagem lhe atraiu desde que ganhou de presente seu “Compacto Simples” de aniversário de 15 anos, não lhe saísse da cabeça por ser ela muito jovem, ainda que alienada, “mas, porém”, muito alegres e românticas as canções. Aqueles suspensórios por cima da blusinha tão despojada. Seios pequenos. Rita Pavone de cabelos tão curtos e voz auto-suficiente versus os Beatles de cabelos tão longos e ruídos tão estridentes que não dava para entender a letra.

Mas voltemos à reunião. Naquela reunião, tava decidido, ele ia questionar os companheiros. Desta vez, não ia contemporizar. Tinha se calado na vez anterior porque novos estudantes estavam chegando, melhor não expor as diferenças. Nem tampouco, muito menos as divergências. Não eram contradições antagônicas Agora, veja bem, se os outros não cooperassem na luta cotidiana, ia dizer, “que se fodam”. O grupo, ele estava convencido, o grupo não estava maduro para as suas ideias. Por outro lado (sempre tinha outro lado em sua fase ambígua), tudo o que a ditadura queria era a divisão da oposição.

Mesmo assim.  Ah, daquele vez não, na reunião só estava o grupo. Era uma questão política, ia falar.

Daí, então, foi para o confronto. A voz já ia começando a engasgar desde o levantar-se da cadeira até chegar lá na frente; tinha esperança que ninguém fosse notar o nervosismo, denunciado pelo cacoete na sobrancelha e o tique nervoso que lhe compelia a dizer: “Veja bem!” Além de tudo, para piorar: “questão de ordem, você tem cinco minutos, companheiro”, bradava o secretário da mesa, com uma severidade implacável.

Depois de caminhar aqueles quatro metros infindáveis, começou. E disse:

 

Todos nós que estamos aqui presentes sabemos da importância desta conjuntura. Este é um país onde as classes dominantes fazem o que querem, o governo arrocha o salário, a concentração da terra é uma das maiores do mundo. A Educação está desacreditada e a universidade reduziu-se à formadora de mão de obra para a grande indústria, não tem mais universidade crítica. É como o Gianotti falou, o ponto nevrálgico do capitalismo é a segurança, e este governo reprime a oposição. Contudo, mesmo o sistema mostrando sinais de desgaste, eu vi poucos na passeata. Eu vejo poucas pessoas na luta. Daí me pergunto: gente, será que não está faltando vontade política?

Confesso que gostava de ouvi-lo. A gente tem que participar, eu pensava, mesmo arriscando falar ou fazer coisa errada, as pessoas têm de fazer oposição para o regime que taí. E eu acostumei a gostar dele, a firmeza, a assiduidade, barba, óculos, camiseta com a estampa do Che, calça jeans.

Porém, vamos discutir o tema, eu só não gostava de duas coisas: primeiro, ele não deixava a gente terminar de falar, ô joça, respondia antes da pergunta. E segundo,  porque quando terminava o discurso ou a falação – como seria chamado mais tarde o pronunciamento, por que, se olhássemos bem para ele, percebíamos um indisfarçável pedido de aplauso ou pelo menos de aprovação?

 

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Comentários:

  1. isabelle disse:

    Excelente! Merece virar um livro!

  2. Marion Brepohl disse:

    eu me torço de rir quando lembro disso tudo

  3. Francisco Assis disse:

    MUITO BOM !!!SAUDADES LINDA.

  4. Marion Brepohl disse:

    muito grata, mas de onde nos conhecemos?

  5. Jailton disse:

    Muito bom texto! Acho que “o militante” não mudou muito desde então rsrsrs.

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