O Sobrenatural na História: Como mitos e lendas sobre o demoníaco podem render uma pesquisa, por Gabriel Braga.

Temos um grande contato com histórias sobre criaturas sobrenaturais. Bruxas, vampiros, lobisomens e mortos-vivos habitam a literatura e o cinema de horror, bem como outros gêneros cinematográficos. Essas lendas não surgiram na ficção, elas possuem um embasamento histórico que conta com séculos de tradição oral e escrita.
A pesquisa sobre tais temas pode parecer estranha à primeira vista. Qual seria o papel do historiador ao analisá-las? Certamente não é o de atestar a existência ou não de tais criaturas. Tal pesquisa renderia muito pouco à discussão sobre os sentimentos gerados por essas lendas. Por mais que tais figuras sobrenaturais sejam inexistentes, elas produziram uma série de efeitos bastante reais: sentimentos como o medo e o pânico, tratados filosófico-naturais, manuais de como lidar com forças sobrenaturais e até mesmo decisões geopolíticas.
A lenda dos vampiros chegou à Europa ocidental através de relatórios oficiais do exército austríaco, enquanto o império dos Habsburgo ocupava militarmente a região onde hoje se encontram Hungria, Sérvia e Romênia. A eclosão de pânico popular, que pedia que os destacamentos austríacos combatessem os mortos-vivos sugadores de sangue, levou a imperatriz Maria Teresa a enviar comitivas especiais para investigação. Uma delas até mesmo atestou a veracidade dos vampiros!
Outros casos bastante famosos do sobrenatural na história são os casos de possessão demoníaca na França moderna. Elas não diziam respeito apenas à Igreja Católica e aos rituais de exorcismo. Esses casos também se relacionaram a novas descobertas no campo da medicina, a políticas de centralização do poder do cardinal Richelieu e a uma série de embates filosóficos.
Novamente, a questão da existência ou não das possessões não é o objetivo central da pesquisa. A possessão demoníaca era bastante real nas estruturas de crenças da época. Ela fazia parte dos sistemas de explicação da natureza. O objetivo do historiador, portanto, é esmiuçar esses sistemas e encontrar o lugar que a possessão, as bruxas ou os vampiros ocupam.
Ademais, a pesquisa com temas ligados ao sobrenatural também rende uma importante discussão sobre religiosidade, crença, relações de gênero e políticas de Estado. O mais surpreendente, talvez, seja avaliar que medicina e Igreja não eram propriamente rivais, mas, em diversos casos, foram cúmplices na perpetração de violência contra corpos femininos e na realização de objetivos políticos.
Podemos observar essas suas questões no caso das possuídas do convento das ursulinas Loudun, uma pequena cidade francesa. Ali convergiram interesses políticos, religiosos, médicos e rixas pessoais. Esses elementos construíram o palco onde corpos femininos eram submetidos a rituais violentos de exorcismo, que eram assistidos por uma plateia atenta, e onde foi torturado e morto o padre Urbain Grandier.
O caso de Loudun é um dos mais famosos relatos de possessão demoníaca da história. Ele se tornou tema de um livro de Aldous Huxley, Os Demônios de Loudun (1952) e ganhou as telas de cinema em 1971, com o filme Os Demônios, do diretor Ken Russel.

Gabriel Elysio Maia Braga
Doutorando em História pela UFPR
Autor do livro Vampiros na França Moderna: A Polêmica sobre os Mortos-Vivos (1659-1751)

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