Pesquisar temas sobre a ditadura

No segundo semestre de 2017, ministrei uma disciplina com alunos e alunas de graduação, com o objetivo de exercitar o aprendizado da pesquisa. Para tanto, selecionamos fontes históricas e textos de caráter teórico-metodológico, de acordo com os temas previamente escolhidos. Um deles dizia respeito à repressão política praticada pelo governo à época da ditadura civil-militar no Brasil (1964-1982).

Analisamos 32 depoimentos, concedidos por pessoas que foram alvo da repressão aos membros do Projeto Brasil Nunca mais (São Paulo, 1979-1985). Amostra pequena do ponto de vista estatístico, mas suficiente para elaborar um primeiro exercício de reflexão sobre o tema.

Ao longo do estudo, identificamos alguns denominadores comuns em tais testemunhos: quase todos declararam ter sido alvo de tortura psicológica e de tortura física: ameaça aos entes queridos para extorquir informações sobre terceiros, abuso verbal, gritos, insultos; pau de arara, espancamentos, “telefone”, choques elétricos.

Outra constante: a avidez e pretensa objetividade em “descrever” o torturador: se tinha barba ou não, timbre de voz, se seu nome foi declarado, estatura, cor da pele. Nome? Nome gravado. O que ele exatamente perguntou? Pergunta retida na memória. De que departamento de estado? Gravado. Como um reprimido que deseja retornar e dar o troco, tentativas quase inúteis de vingança ou criminalização. Nem isto: talvez apenas o esforço para demarcar um território entre o eu e o outro, de defender-se contra o rasgo entre corpo e alma. O corpo, à mercê da dor provocada pela tortura, pede a confissão da merda que for. A alma resiste à deslealdade suposta ou imaginária.

Desta pesquisa nos veio também uma ponderação a ser conferida mais profundamente: as mulheres, no geral, descrevem a dor que sentiram; os homens, o motivo pelo qual foram presos. Será que as mulheres relevaram seu passado? Será que os homens procuram insistentemente uma justificativa por terem ingressado nos movimentos de resistência?

Tais hipóteses ficaram em aberto neste trabalho coletivo. Como bom exercício de pesquisa, primeiramente formulamos as perguntas, depois procedemos à investigação empírica.

Para mim, este exercício não deixou de ser “um retorno do reprimido”. Membro do movimento estudantil à época da ditadura, repensar este tema acabou sendo uma espiadela em meu próprio passado; ademais, dar aulas sobre, é vingar-me, pelo menos na imaginação.

Não que tenha sido alvo de prisões arbitrárias e de torturas, longe disto. Fiz parte de um grupo, aliás, que compunha a maioria dos resistentes, os quais se opunham de forma moderada. Ou mais simplesmente, um grupo que “teve sorte”. Como eu, a maioria dos estudantes que fazia protestos era chamada pela polícia a prestar declarações, muitas delas, intimidadoras, mas não passava disto. No máximo, levávamos uns tapas. A gente dizia assim: “Fulano teve sorte, só levou uns tapas”. Levar tapas era sinal de sorte. Era o limite que, às apalpadelas, traçávamos, como que dizendo a nós mesmos, “não foi tão grave. Não foi grave. Não é digno de reclamação. Não é digno de medo, nem de raiva é. O outro, sim, é que sofreu”. Tais frases refletiam uma ponta de desconfiança em detrimento de nossa dignidade: “o que eu estou fazendo não é tão importante como resistência. Quem tem mais razão é quem apanha”.

Neste grupo, havia aqueles que reagiam de maneira a desfiliar-se de suas organizações. Quando voltavam do procedimento “prestar declarações”, passavam a dizer a si mesmos: “Isto não vale a pena. Beltrano prometeu vir à passeata, alardeou e depois não veio. Na hora h não vem, e eu é que me lasco. Desisto.”

Éramos todos pessoas ordinárias sob forte pressão, sob uma dupla pressão: dos repressores e de nossas organizações de resistência. Alguns tinham acabado de chegar na universidade, outros estavam saindo e sinceramente, deixando de lado estes arroubos de juventude, pois achar um emprego razoavelmente bem remunerado tornava-se prioridade.

De qualquer maneira, fosse moldando condutas a partir da experiência da resistência, fosse optando pelo silêncio, esta segunda dimensão de ser estudante, para muitos, o primeiro espaço público sem os pais, fascinou-nos por muito ou por pouco tempo. Daquela linguagem, resta-nos muitas palavras, a linguagem de um determinado jogo político, um jeito de pensar.

Para alguns, um marco definidor em suas carreiras.

E assim concluímos, meus alunos, alunas e eu, nossa oficina de pesquisa. Um exercício sobre as fronteiras entre história e memória. Sabendo, como nos ensina Pierre Nora que “a história pode vir a legitimar [um acontecimento], mas a memória é fundadora. Ali onde a história se esforça em colocar o passado a distância, a memória busca fundir-se nele.”

 

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