Pesquisas sobre acontecimentos traumáticos

Tradicionalmente, a História, como ciência, é escrita a partir de documentos, e na maioria das vezes, documentos escritos, os quais são previamente examinados em sua autenticidade, tanto no que diz respeito ao conteúdo quanto à data e autoria. O documento é a matéria prima do historiador.
Contudo, desde o surgimento dos campos de concentração na Alemanha nacionalsocialista, inaugurou-se no interior da pesquisa histórica uma nova prática intelectual: a memória dos atingidos como testemunho, a vítima como documento de situações extremas, conforme afirma Paul Ricoeur.
Os campos de concentração são um marco na História e na história da documentação, pois ali se praticou um modo de violência até então inusitado; como ressaltou Hannah Arendt, naquele contexto, à morte física precederam a morte jurídica e a morte moral, sem qualquer justificativa legal ou mesmo racional. Tortura, humilhação, trabalho escravo, utilização de humanos como cobaias para experiências científicas, entre outras, foram práticas de uma máquina infernal do “tudo é possível” (Hannah Arendt). E, evidentemente, nem os perpetradores diretos nem os responsáveis por tais medidas deixaram evidências documentais de seus crimes.
Resulta deste acontecimento que a vítima tornou-se a principal evidência do ato criminoso de estado. Segundo Primo Levi, uma vez que os arquivos dos campos de concentração foram destruídos, restaram aos sobreviventes transformar-se em “historiadores de si mesmos”. Com suas memórias, conduziram as investigações e reconstruíram a história de boa parte dos campos de concentração.
Nesse contexto, o testemunho foi um recurso privilegiado por lançar luz sobre episódios daquela ditadura, inacessíveis por outras vias, dando sustentação jurídica a políticas reparadoras, que permitiram conhecer o passado e compensar os crimes cometidos pelo Estado.
Na América Latina pós ditaduras, as vítimas também se transformaram em testemunhos de atos criminosos; no caso da Argentina, a denúncia das perseguições políticas e a memória dos crimes de estado desempenharam um papel protagônico, interferindo diretamente no processo de transição para a democracia. Também no Chile e no Uruguai, o testemunho das vítimas foi decisivo para a punição dos criminosos e na revisão do estado de exceção enquanto tal.
Diferente é o caso do Brasil, único país deste continente em que a justiça transicional não previu a punição de torturadores e demais responsáveis por atos arbitrários. Nestas situações, os que praticam o ato violento com a certeza da impunidade procuram não apenas a repressão extrema, mas também o apagamento de tal passado. E este passado se reedita mais e mais na história da própria violência; em muitos casos, a polícia tortura porque prossegue segura da impunidade; a sociedade chancela a violência, pelo desconhecimento dos regimes de força; e pessoas humilhadas se calam por desconhecerem seus direitos e por temerem represálias.
Para contra-restar esta tendência, historiadores e outros profissionais comprometidos com os Direitos Humanos, criaram um novo campo de conhecimento que genericamente podemos denominar de “Política de Memória”, ou ”Dever de Memória”, ou “Direito à Memória”. Tais designações atribuem um novo significado ao ato de lembrar. Implica que não se trata de mero exercício pessoal e afetivo de voltar aos fatos que lhe concernem, mas de testemunhar em nome de um coletivo, em busca da verdade factual; ainda, um esforço de reconciliação com o passado, que de maneira alguma implica em esquecimento ou apagamento, mas a superação; por último, a reparação jurídica e o estabelecimento de uma política educacional e cultural que incite o interesse em evitar que tais atos se repitam.
Para desenvolver pesquisas nesta área criou-se, dentre outros procedimentos, a metodologia da História Oral – que é o procedimento científico para o registro e análise destas memórias. Esta se faz acompanhar de uma série de critérios para aferir credibilidade do depoimento. Seu conteúdo é confrontado com outras informações, tais como outros depoimentos coevos, processos judiciais, noticiosos jornalísticos, documentos oficiais, fotografias, etc.
Evidentemente, em países em que a justiça de transição foi realizada, a tarefa do historiador ou historiadora é facilitada, pois muitos casos foram julgados pela justiça e amplamente divulgados. No Brasil, resta à Política de memória, à educação e aos atingidos as demandas por verdade, justiça e reparação,… para que tal passado, como pronunciou (desejou?) Theodor Adorno, não mais se repita.

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