Peste e intolerância religiosa: o “mal das pintas” e o massacre de Lisboa em 1506 , por Cecília Pilla

Cecília Amorim Pilla

Professora de História na PUC-PR

No final do século XV e início do XVI a Europa teve picos de pobreza intensa. O ano de 1481 foi marcado por um inverno glacial, neste ano o trigo, base da alimentação de pobres e ricos, subiu 500%. Depois de um frio gélido, vieram chuvas caudalosas, nesse período devem ter morrido cerca 15 milhões de pessoas em toda a Europa, a maioria delas em decorrência da fome.

Em outubro de 1505 a peste chegou a Portugal, somada à fome foi devastadora. O rei era D. Manuel I, O Venturoso, que entretanto pouco pode fazer em relação a esse flagelo, a não ser mandar construir mais dois cemitérios nos arredores de Lisboa. A seu favor e para proteger seus familiares transferiu a corte para Almeirim, nos arredores de Santarém, provavelmente ficando hospedado no Paço Real.

O “mal das pintas”, a peste que se acredita ter assolado Portugal no período, é uma doença causada por bactérias espiroquetais patogênicas (treponema carateum), da mesma família da sífilis e da framboésia e da bouba. Essa doença aparece geralmente em ambientes onde não há medidas básicas de higiene, o contágio se dá pelo contato entre uma pele infectada e uma pele saudável. As lesões por pintas são limitadas à derme e começam como pequenas pápulas e se não tratadas podem progredir para placas escamosas. Se manifestam nas extremidades, principalmente mãos e pés, face e pescoço. Entre 3 e 9 meses podem se tornar placas simétricas azuladas. Atualmente podem ser diagnosticadas por um médico em consultório e tratadas com penicilina.

O fato é que em Portugal nessa época (1505-1507) viveu um ciclo de violência decorrente do medo da peste e da miséria, cenário que parece ser propício para eclosão de eventos de violência. Esse foi o pano de fundo para um episódio de extrema intolerância diante do “outro”, considerado em períodos inóspitos, como “culpado” e agente de todos os males, nesse caso foi o judeu.

Sabe-se que os judeus e islâmicos foram perseguidos na Espanha e em Portugal no início da Idade Moderna, e que só os que aceitaram converter-se ao cristianismo puderam ficar em território ibérico sendo chamados de cristãos novos. Estes, mesmo que “aceitos” pela população em geral, restavam sendo considerados “suspeitos”, e na maioria dos casos, segregados. Foi assim que, no ano de 1506, houve um cruel e sanguinário massacre de judeus em Lisboa.

Num domingo de Páscoa, no então Convento de São Domingos, local que hoje corresponde mais ou menos ao do Teatro D. Maria I em Lisboa, havia uma capela de Jesus que possuía um crucifixo de madeira considerado milagroso. Lá estava um grupo de pessoas, que segundo um testemunho da época, “homens de baixas condições”, rezavam por um milagre que acabasse com a peste. Em meio a esse espaço de orações fervorosas, alguém disse ter visto um raio de luz que vinha do peito de Jesus, e acreditaram ser um sinal dos Céus. Um judeu convertido que estava lá também rezando, em sua ingenuidade de recém convertido disse ser apenas um princípio de incêndio e que seria prudente jogar água para que um incêndio fosse evitado. Esse comentário tomou uma proporção exagerada e transformou-se em heresia, foi então que o grupo “arrastou o judeu pelos cabelos para fora da igreja”, mataram-no numa espécie de linchamento e queimaram seu corpo no Rossio. Logo uma multidão se formou e cerca de 500 pessoas saíram pelas ruas matando todos os cristão-novos que encontraram pela frente e queimavam seus corpos em fogueiras à beira do Tejo e no Rossio ao longo dos próximos dois dias que se seguiram. O rei quando ficou sabendo mandou reforços para conter a multidão, mas já era tarde e mais de dois mil cristãos-novos haviam sido mortos e suas casas saqueadas.

Em 19 de abril de 2008, no centro do Largo de São Domingos, foi inaugurado um monumento em homenagem aos judeus mortos no massacre de 1506, num ato de justiça póstuma a todas as vítimas da intolerância.

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