Porque História é profissão; sobre o holocausto, por Michel Ehrlich

A propósito da profissionalização da carreira do historiador, publico este texto de autoria de Michel Ehrlich, sobre a falsificação na história, no caso, a falsificação em torno do acontecimento do holocausto

 

 

Diante da mais nova (ou nem tanto) polêmica que levou muita gente a falar de Holocausto nas últimas 24 horas elaborei algumas reflexões como historiador e educador sobre o Holocausto.

Em primeiro lugar, a “polêmica” em torno do nazismo ser de esquerda ou direita é um falso debate. Praticamente todos os historiadores e instituições museológicas, de memória e de pesquisa sérios classificam o nazismo na extrema-direita do espectro político. Geralmente, sequer é necessário acompanhar essa informação de grandes explicações (ainda que estas existam). Do outro lado, ideólogos sem qualquer embasamento afirmam que o nazismo seria de esquerda. Isso não constitui um debate na historiografia. O fato do presidente da república se posicionar de um dos lados não muda isso.

Um outro argumento me parece mais interessante de refletir sobre e demonstrar seu perigo: o de que o nazismo ser de direita ou esquerda seria pouco relevante a nível educativo. Se perguntam: em uma proposta de educação sobre o Holocausto no e para o século XXI  que diferença faria se o nazismo supostamente fosse de esquerda? (nesse caso, por que tratar essa questão como tão grave?).

Completamente descontextualizada, essa pergunta até poderia fazer sentido. Em um mundo paralelo em que o nazismo seria de extrema-esquerda alguns conteúdos importantes sobre Holocausto seriam alterados. Porém, de fato, o sentido central de se educar sobre o tema permaneceria. Genocídios não são intrínsecos à direita ou esquerda.  Tampouco o são o combate aos preconceitos, discriminações e a defesa dos direitos humanos; esquerda e direita tem olhares diferentes sobre os direitos humanos, mas estes não são uma propriedade de uma ou outra corrente política.

O grande problema é que não podemos retirar as afirmações do presidente e parte de seus apoiadores do contexto em que estão inseridas e considerá-las como “enganos” ou meras “gafes”. E aí é que entram os dois graves problemas – não totalmente separáveis – de afirmar que o nazismo seria de esquerda. O primeiro é teórico-metodológico o segundo, talvez ainda mais grave, ético.

O primeiro problema se relaciona a uma concepção de história. O conhecimento histórico não tem a pretensão (e de fato nenhuma ciência contemporânea o tem) de estabelecer conclusões absolutas e definitivas.  Isso não pode ser confundido, porém, com achar que o conhecimento histórico é resultado de palpites e meras opiniões. As conclusões às quais historiadoras e historiadores chegam estão fundamentadas e sustentadas por paradigmas teóricos e fontes históricas. Nenhuma conclusão da História (ou de qualquer área do conhecimento), inclusive o nazismo ser de extrema-direita, é incontestável. No entanto, essas contestações precisam ser realizadas através de argumentos sólidos, coerentes, fundamentados e sustentados em fontes históricas. Não é o caso da declaração do presidente brasileiro em 02/04/2019, cuja lógica argumentativa permitiria também concluir que o cavalo-marinho é um equino. O recurso às fontes é inexistente ou, quando feito, realizado de forma desonesta para chegar a conclusões já previamente estabelecidas. O referencial teórico, por sua vez, não é explicitado pelos defensores da tese “nazismo é de esquerda”, afinal, se fosse, revelaria que são afirmações que já tem o preconceito e o autoritarismo como ponto de partida.

 O grave problema dessas afirmações é que não estão isoladas. O raciocínio que permite afirmar que o nazismo seria de esquerda autoriza essas mesmas pessoas a negarem que tenha havido uma ditadura no Brasil iniciada com o golpe de 1964 ou dizerem que colonizadores portugueses nunca pisaram na África no processo de escravização de populações africanas, entre outros exemplos. É também essa lógica de falsificações históricas que permite que pelo mundo se espalhem absurdos como que a terra seria plana ou, retornado à História, o negacionismo do Holocausto. Conteúdos diferentes, mas que seguem todos o mesmo raciocínio. Em nenhum deles há a mínima sustentação em fontes históricas. Admitir tais posicionamentos como opiniões com a mesma validade de conclusões da historiografia ou minimizá-los como equívocos inocentes é abrir as portas para a falsificação autoritária da História.

O outro grave problema reside na visão de mundo por trás dessas falsificações, nos seus objetivos. A exemplo de outros regimes com pretensões (concretizadas ou não) autoritárias, a propagação de que o nazismo seria um regime de esquerda visa fortalecer um ideal político de que estaríamos em uma luta, ou quase uma cruzada, do bem contra o mal. O bem seria infalível e em nome deste todo sacrifício seria válido. Complementarmente, o mal seria responsável por todas as mazelas do mundo. Isso auxilia a explicar porque é tão importante para certos setores atribuir o nazismo à esquerda. A constatação da historiografia de que o nazismo foi um regime de extrema-direita não deslegitima a priori a existência de ideologias, partidos políticos e governos de direita; da mesma forma que os crimes do stalinismo não deslegitimam a esquerda como um todo (ambas operações seriam igualmente insensatas, autoritárias e insensíveis às vítimas desses regimes). No entanto, a constatação de que ideologias e regimes políticos tanto de esquerda como de direita são capazes de realizar atrocidades desconstrói o binarismo infantil e autoritário da luta do bem contra o mal, independentemente de quem estaria em cada papel. Por isso que no caso aqui analisado não basta a setores de uma certa direita contemporânea desvincularem-se do nazismo; eles precisam jogar o nazismo para o lado esquerdo do espectro político de modo a preservar sua guerra do bem contra o mal, na qual a direita (o bem) é infalível e incapaz de cometer algo como um genocídio e todos os desastres da humanidade recairiam sob a responsabilidade da esquerda (de acordo com texto publicado em um jornal de grande circulação do Paraná, até mesmo a queda do Império Romano seria culpa do socialismo – em uma época em que conceitos como capitalismo e socialismo não faziam o menor sentido). O combate a essas falsificações históricas é, portanto, novamente muito mais do que a correção de enganos, mas a defesa de uma visão de mundo democrática e mais complexa do que uma luta de bem x mal.

Afirmar que o nazismo seria supostamente de esquerda é, em conclusão, não somente um erro. É possível até que os responsáveis por essas afirmações em breve ou algum dia admitam que se enganaram – espero sinceramente que isso aconteça. Esse seria, contudo, somente um primeiro passo. É preciso, muito além das correções históricas, combater o princípio de falsificações da História e a política da cruzada do bem contra o mal a elas associadas.

 

 

Michel Ehrlich

Texto originalmente publicado na página pessoal do facebook em 3/4/2019.

Revisado em 9/5/2020

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