Pós neo ultra hiper – atual

 

Nos dias atuais há neologismos, ou melhor, novas expressões, muito curiosas e eu traduziria algumas delas mais ou menos assim: caridade virou sinônimo de tecnologias sociais; estado iminente de desemprego, flexibilização; coaching, conselhos pagos outrora dados pelo pároco; consultor em estética, cabeleireiro; responsável pela logística: o culpado se tudo der errado; empreendedorismo: trabalhar por conta.

Outro dia li o seguinte anúncio no jornal:

Disponibilizamos projetos com a marca do tensionamento inerente a intervenção comunitária nas parcerias público-privadas, em que novas iniciativas se estabelecem para causar a necessária sinergia no sentido de agilizar fluxos. O valor dos mesmos incluem a contratação dos expertise, material didático e estágio em empresas incumbadoras.

E um outro, oferecendo curso:

Você quer ser uma pessoa criativa, ágil e ao mesmo tempo confiável aos olhos de seu chefe, com espírito de iniciativa, mas também profunda e reflexiva, transmitindo uma imagem de empreendedora, garantidora de resultados prontos a serem otimizados, dando no entanto espaço para os outros em sua liderança?

Obterá tudo isso no MBA em Gestão do Conhecimento da Universidade XXX, com mídias educacionais avançadíssimas e professores com pós graduação cuja qualidade pode ser testada pela ISO XXX.

Cursos com Power Point a partir de 150 reais por mês. Inscrição, seleção e fornecimento do certificado pela INTERNET.

Fiquei imaginando quem seriam os leitores destes anúncios. Os pobres procurando emprego? Acho que não, os pobres são o alvo; ou o resultado. Os ricos? Talvez, mas por que ricos procurariam emprego num classificado de jornal? Por que não com seus pais, no mundo corporativo que lhes pertence? Ou o leitor é o próprio dono da empresa que entrou neste ramo de negócio e está querendo testar suas estratégias de marketing? Talvez pessoas hiper-ativas que estão descontentes com seu status; ou as que têm medo de perdê-lo; ou as que querem desenvolver mais aptidões, e ganhar mais dinheiro. Ou as que temem perder o emprego. Ou aquele a quem a mãe disse merecer o melhor que tinha em mãos.

Quem são

Como são

O que buscam

Como saem

Seja quem for

essa experiência requer aceleração:
do acúmulo de informações, da auto-estima, da mastigação e digestão, do deslocamento, da maleabilidade, do prazer.

Seja quem for, chega em sua casa, tudo pago, tomar rivotril apagou.

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Comentários:

  1. Ageu disse:

    A novilingua rebuscada encobre as mesmas antigas deficiências e pretensões de que padecemos só que com nomes complicados, cult, com aparente objetividade e precisão, mas que, ao final de tudo, pouco diz e enrrola muito. No Alguém disse: “Não precisa explicar, só queria entender!”. A linguagem do mundo corporativo tornou-se robótica.
    Ageu

  2. Ageu disse:

    O site promete ser interessante. Matérias bem condensadas, texto ágil.
    Ageu

  3. Marion Brepohl disse:

    trata-se de um texto generoso de sua parte em relação a meus textos. De qualquer forma, agradeço e convido a vc, que é uma pessoa qualificada publicamente, a seguir sempre meu site

  4. Marion Brepohl disse:

    vc respondeu tão bem a meu texto/desabafo que eu queria muito que você fizesse um texto mais consistente sobre esta noção interessantísma de novilingua
    vou agradecer se postar e me permitir a divulgação em meu site

  5. Claudia Monteiro disse:

    Esta coisa dos neologismos me irrita… rsrsrs

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