Recordando Pierre Ansart; um fragmento de aula

 

Dentre os diversos temas que estudei, como aluna de Pierre Ansart, um deles me chamou muito a atenção e acabei guardando-o na memória para minhas aulas e pesquisas. Naquele dia, senti-me como que uma estrangeira, pois o objeto de análise partia da figura de Lênin, líder das esquerdas, cujas ações eu não tinha, até então, estudado com a atenção que o tema merece. Imaginei que ouviríamos sobre a ideologia expressa em seus livros, sua importância na Revolução de 1917 ou mesmo sobre a História da Rússia, algo assim.

Sua proposta foi outra: discutir as estruturas afetivas que motivam um grupo ou mesmo uma sociedade inteira a obedecer. Motivação cujo móbil de decisiva importância reside na construção do chefe, virtualmente identificado com a própria ideologia.

Ora, a obediência na Modernidade, quase nunca é uma atitude aceita de bom grado. Atitude que de acordo com Freud, segundo uma leitura criativa e original do próprio Ansart, só poderia ser compreendida em virtude de sentimentos primevos e ambivalentes, como aqueles que uma criança devota ao seu pai. Via de regra, ele é visto como amoroso, protetor mas severo. Sua autoridade é aceita como poder estruturante e não necessariamente repressivo.

No caso de Lênin, tratava-se de um chefe que não foi identificado com a obediência por temor à repressão, mas por encarnar a “boa lei”, um exemplo moral a ser seguido. Obedecê-lo não era sinônimo de dominação, mas de participação, no momento em que se tentava desenhar um futuro mais sublime e glorioso.

Tal chefe é visto como alguém que não se deixa conduzir pelo prazer de exercer poder, nem somente pela satisfação de ser reconhecido, mas por encarnar o ideal dos adeptos e de ser amado por isto (…) “ele é objeto de reverência, mas carrega consigo um enorme senso de responsabilidade” (Ansart, “La gestion des passions politiques”, 1983: p. 117).

Esta dimensão afetiva só adquire sentido, pelo menos para as esquerdas ao longo de um século, no interior do Partido Político. Isto porque, segundo o autor, o partido não é somente o “lócus” da ideologia. É também um aparelho afetivo, quase que uma segunda morada, na qual o reconhecimento e o diálogo são apreciados. É um “nós” fortalecido, que se coloca contra os outros, vistos como alvo de afetos negativos, motivadores de emoções violentas. A força de atração do partido não é apenas sua plataforma, e sim, em muitos casos, sua capacidade de agregar. (idem, p. 110).

Talvez seja esta a razão pela qual o militante aceite exercer funções que nem sempre lhes dota de visibilidade; ele distribui panfletos na rua anonimamente, grita na porta da fábrica (merecendo a atenção de poucos ou de ninguém), monta o palanque, defende, euforicamente, o que o chefe fala. Ele vê tudo aquilo como um sacrifício que faz para libertar-se, a si e a sua família, principalmente seus filhos. É uma verdade histórica, um futuro certo, sem erro.

Outrossim, a ideologia, quando afetada por ideais libertários, carrega consigo uma demanda por emancipação. Ela exige o sacrifício de despojar-se de seus interesses imediatos (como a criança que ao amadurecer, vê-se na condição de construir seu próprio lar, ao preço de abandonar o seu pai). Todavia, faz-lhe retornar à fidelidade a crença de que liberdade depende ironicamente da obediência. A desobediência não é vista como discordância, mas como traição.

E ele vai restando simples militante. Ressente-se do status de seus superiores, como os jornalistas, poetas e deputados. No entanto, faz de tudo para acreditar. E, de fato acredita, pois o chefe o protege de um perigoso engodo. Se o chefe falhar, suas emoções são embaralhadas e o mito arrisca desvanecer-se.

Com Lênin, a incerteza não aconteceu; ao contrário, transfomou-se em herói intocável mesmo depois do fim do socialismo soviético enquanto tal.

Sobre esta estrutura afetiva, Ansart tece a seguinte consideração, com o que termina sua aula:

ao final, já no que concerne a um partido unânime e sem dissensões ou falhas, perfilam-se as grandes linhas de um regime totalitário, pois o partido desperta os vínculos, amplia a euforia do amor político, mas acha no controle destas emoções uma fonte de poder de seus adeptos (idem, p. 130).

 

Afirmativa densa e subversiva, principalmente se levarmos em conta o período em que seu texto foi escrito, no horizonte pretérito da Guerra Fria.

Estas reflexões, aqui rapidamente sintetizadas, conduzem-me à atualidade. Fico pensando como ele interpretaria a fragilidade ou mesmo a ausência de chefes como Lênin ou de quaisquer outros partidos de esquerda.

Tenho em mente os movimentos sociais que se anunciam neste início de século, tais como “Movimento Passe livre”, “Contra a corrupção e pela reforma política” (Brasil), “Geração à Rasca” (Portugal), “Movimento 15-M” e “Spanish revolution” (Espanha), “Occupy Wall Street” (Estados Unidos), “Nuit Debout”. Mais presente ainda é a ocupação das escolas contra a anti-reforma educacional, (Brasil, 2016), de onde se desponta uma jovem menina de 16 anos, Ana Júlia Ribeiro (sem um partido atrás de si, nem sindicato, nem patrocínio de qualquer natureza). Nestes, a singularidade dos atores sociais não são denegados em benefício da fusão das vontades, um acordo entre todos em favor de um projeto uniforme, mas afirmados exatamente pelo que são: singulares.

Nestes coletivos, estão presentes não o rebelde solitário que, se considerar necessário, transforma-se num terrorista; tampouco um respeitável humanista a ditar regras sobre normas de conduta a seus alunos; ou o tirano, que do alto de sua arrogância, transforma-se em ditador. E sim daqueles que aceitam o confronto e a amizade política como pressuposta da ação.

Gostaria de ter tido tempo de ouvi-lo falar desta possibilidade. Sei que ele, cuja simpatia pelo movimento anarquista era indisfarçável, proporia novas perguntas às fontes. Perguntar era, a propósito, sua metodologia. Nada ou tudo muito difícil.

 

 

 

 

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