Reflexões sobre o racismo e as eleições; Brasil, 2014

Nunca

a campanha foi tão polarizada.

Corrosivas críticas em nome da estratégia de desconstrução das candidaturas.

Uso de tantas palavras chulas e agressões de lado a lado.

Talvez.

Um dos motivos pode ser este: as propostas dos três candidatos com maiores chances de vencer na eleição para presidente da República em 2014 eram muito semelhantes. Todos os três se apresentaram como defensores de políticas compensatórias à pobreza e criticaram pesadamente a qualidade da educação pública; todos valeram-se de comentários elogiosos à sustentabilidade, expressão talismã que parece salvar o meio ambiente de qualquer ataque; todos eram favoráveis ao desenvolvimentismo, aliás, não só favoráveis, mas os verdadeiros protagonistas.

Claro está que se fôssemos (quem foi?) aos programas de cada partido político e observássemos suas práticas ao longo dos últimos 10 anos, por exemplo, constataríamos as diferenças de maneira mais nítida.

Isso é feito, em parte, pela população, quando ela é beneficiária dos serviços públicos lá na ponta. A população, desde há muito, quando avalia objetivamente a política, identifica-a com governo, este, por sua vez, identificado como serviços ao cliente (im)paciente. E quando não intimidada pelo medo – dos quais, o mais nefasto, é o religioso, vota na eficiência. Ideologia, valores, modus operandi, nada disto conta muito, nem ao menos os partidos. E num país de extrema desigualdade, como é o caso do Brasil, estes serviços acabam por atingir os pobres ou mais pobres. A classe média (e isto não vale apenas para o Brasil, é uma constante em diversos países que adotaram, com maior ou menor intensidade, a governança neoliberal como estratégia de ação), recebe muito pouco do governo. E paga mais imposto do que todos.

Os ricos e muito ricos não pagam muito imposto; quando se sentem ameaçados, saem de seu país de origem. Ou eles, ou seus negócios, ou suas divisas. Com a indiferença moral de quem perde a memória e nem reconhece mais o rosto da mãe, somada ao senso de superioridade aprendido em cursos motivacionais também denominados de planejamento estratégico: Meu pai me deixou esta herança, este país não vale meu esforço, meu avô chegou aqui sem nada e se fez, no Brasil, lucra mais quem não trabalha, veja a bolsa família.

Opa! Essa foi uma diferença decisiva no pleito? Foi por causa da bolsa família que a candidata à reeleição ganhou ou perdeu votos?

Muita gritaria que não cede a argumentos dá o que pensar. Denomino aqui a gritaria como sinônimo de ativismo; ativismo sem militância, ativismo de curto prazo, seja pró ou contra.

Outrossim, só dá para ser contra a tal da bolsa família quem for muito de esquerda; segundo Camila Mota, os gastos com o programa Bolsa Família representam apenas 0,4% do PIB, mas cada R$ 1,00 gasto com o programa “gira” R$ 2,4 no consumo das famílias e adiciona R$1,78 ao PIB[1]. Ademais, não se trata de uma política socialista, sequer keynesiana; é um programa de transferência social compensatório à classe trabalhadora cuja remuneração é muito baixa; logo, esta transferência beneficia também o empregador.

A bolsa foi portanto um exutório do ressentimento, e não parou aí, outros estigmas depreciativos foram usados: a entrada de haitianos no Brasil (voltarei a isso), os “nordestinos” como pobres e ignorantes, o favorecimento aos gays, venezualização, cubanização.

Do outro lado, parecia que os adversários da coligação pró Dilma, se vitoriosos, governariam  exclusivamente para o grande capital, interesses estrangeiros, o FMI e os Estados Unidos, de quem eram asseclas.

Será que a gente consegue explicar o que aconteceu? De todo, acho difícil, mas alguns fatos novos são dignos de serem mencionados.

Do primeiro, já teci uma consideração: os partidos, exceto o PSOL, não mostravam diferenças significativas. Se a favor do PT, ficava a imagem de Partido da inclusão social, é inegável que a corrupção impregnou-se nele com muito mais força; se o PSDB falava em mudanças e tinha um programa bom também para os menos favorecidos, por que não tinha bases de apoio na sociedade organizada? Faltando o que falar, emoções afloraram de questões outras que não as políticas.

Creio ainda que algo ficou especialmente nítido neste ano de 2014: o enorme divórcio entre opinião política e opinião eleitoral. A primeira, ainda que instável e pouco fundamentada, compartilha com os diferentes suas ideias, debate, estranha, confronta. É plena de paixão, mas não prescinde do respeito, porque gosta de falar e vencer no argumento.

A segunda, a opinião eleitoral, explode nas ruas. E nas redes. Conversa quase nada – por isso que as redes são tão apreciadas assim? – rebaixa o adversário, fala rápido e com emoções à flor da pele, quer ser ouvida. Tem pouco tempo. Bem por isso, provavelmente que as redes sociais estão sendo utilizadas com relativo sucesso: performativa, instantânea, horizontal e endereçada virtualmente a todo o planeta, dá-nos a ilusão de estarmos atuando, e mais, no papel principal.

Finalmente, o alvo dos ataques, projetados ou não nas pessoas dos candidatos.

Redes sociais são tema novo para as Ciências Sociais, ainda está por se construir um método de análise consistente. Não podemos afirmar que o que lemos é hegemônico; não conseguimos quantificar, são muitos grupos, a mesma pessoa fala em diversos grupos e muda toda a hora seu parecer. Mesmo os mais reconhecidos formadores de opinião, quem sabe se não são citados para reiterar o que já acreditamos?

Como a opinião eleitoral, as redes, instáveis, explodem, emulam e esvanecem-se, mas não estou muito convencida que qualquer coisa se consolide por ali.

Porém, mesmo que efêmeras, algumas imagens ficaram e ainda estão persistentes, revelando como o preconceito racial está vivo e ferve na cabeça e nas palavras.

Isso me lembra uma frase da década de cinquenta do século passado, quando se dizia que no Brasil não havia racismo porque preto conhecia o seu lugar.

Pois bem, na atualidade, este lugar está mudando um pouco. Há mais pessoas de pele escura frequentando a universidade, conseguindo melhores salários, organizando-se politicamente, e aí o que estava longe parece se aproximar.

Cito o exemplo de Curitiba.

Não foram uma nem duas as mensagens que recebi com expressões depreciativas sobre o operário, o Movimento dos Sem Terra, o nordestino, as cotas como privilégios, o valor impagável dos salários das empregadas domésticas, a cidade invadida por haitianos,  etc. A propósito da cidade, um dia após a o final do pleito no segundo turno o Ministério Público de Curitiba recebeu 101 e acolheu 49 denúncias racismo na internet.

Naquela mesma semana, lembro-me de ouvir o depoimento de uma cidadã no rádio, comparando a imigração dos haitianos com as visitas que ela recebe em casa. Afirmou que não iria convidar 10 pessoas para a uma casa que só tem espaço para 4. Curiosa comparação: a cidade era sua casa. Ela põe cá dentro quem cabe. Quem cabe e quem é seu convidado, porque estranho não entra.

O vergonhoso disso tudo é a inexpressividade numérica destes migrantes. São cerca de 5.000 pessoas, portanto equivalente a 0,3% da população, realizando trabalhos que poucos se dispõem além de precários salários. Depoimento de um dos atingidos que trabalhava em uma empresa: Eles me chamavam de macaco, atiravam banana na minha frente. Um dia começaram a jogar feijão nos meus olhos.[2] Os culpados foram demitidos, mas não processados.

Claro que seu infortúnio foi agravado pela ignorância: como se identificou um africano da Guiné como suspeito de ser portador do vírus ebola, os haitianos começaram a ser alvo de maior preconceito ainda. O taxista José Ribeiro, de Cascavel, passou a negar-se a transportar haitianos, por uma questão de prevenção a doenças. [3]

A grande dificuldade que temos ao lidar com o preconceito é a situação embaraçosa que ele enseja. Segundo Hannah Arendt, uma pessoa, alvo de preconceito, pode se sentir, mais do que perseguida, indesejada. Do ponto de vista psicológico, esta é uma condição que humilha e, sobretudo, deixa sem palavras, pois ninguém pode se desfazer de sua identidade adquirida pelo acaso do nascimento.[4]

A perseguição pode inclusive nos fortalecer, pois estamos numa condição de escolha – de um partido, de um movimento social, de uma confissão religiosa, de uma objeção moral. Já nosso fenótipo, quem há de responder senão explicando laconicamente que é filho de seus pais? Por isso, dentre as discriminações, o racismo talvez seja o que mais fragiliza o indivíduo, e por esta razão, pode ser compreendido como expressão de violência extrema, não necessariamente pela intensidade da agressão, mas por deixar a vítima sem defesas.

Outro dia, convidada a ministrar um pequeno curso a professores, perguntaram-me se a educação das crianças contra o preconceito e a discriminação era uma medida eficaz no combate ao racismo. Hesitei em responder; com certeza, a política de memória fez avançar alguns de nossos conteúdos curriculares. Pessoas bem educadas não são muito extrovertidas quanto a qualquer coisa que pode ofender alguém; de resto, pode-se ensinar nas escolas que todos temos os mesmos direitos perante a lei.

Mas é quase impossível que no jogo político uma ferramenta tão eficaz para fomentar o ódio seja deixe de ser acionada, qual seja, a xenofobia. Com ela, sinto-me forte, superior, objetivo um inimigo e faço calar-se quem eu efetivamente nunca queria ouvir. Além da enorme vantagem de não precisar de ter um programa político consistente, de consenso com a maioria, passível de ser legitimado e posto em prática.

 

 



[1] Valor Econômico: IPEA: cada R 1,00 gasto com bolsa família adiciona R$ 1,78 no PIB. 20/10/2013

[2] CARTA CAPITAL. Ignorância viral. 12/11/2014, p. 44

[3] http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1505844

[4] ARENDT, Hannah. Reflexões sobre Litle Rock [1959]. in: Responsabilidade e julgamento. Tradução de Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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Comentários:

  1. Fernando Botton disse:

    Sim Marion. Suas palavras me fizeram lembrar de um documentário que vi faz pouco tempo, chama “A Batallha do Chile”, que realizou filmagens contemporâneas à queda do Allende. Algumas entrevistas na rua eram bastante significativas. As senhoras da classe média católica praguejando em gritos descontrolados contra o terror do marxismo no Chile (tudo bem que no contexto o brado até que podia fazer um pouco mais de sentido que agora), mas o que me chamou a atenção é que as cenas era muito, mas muito semelhantes as assistidas nessa eleição em 2014. As paixões afloraram (esquentaram) de maneira tão virulenta que não havia explicação cabível para tamanho ódio, pavor, repulsão, ojeriza. O resultado de tais sentimentos no Chile já sabemos, mas e hoje no Brasil? Não me parece por acaso as ondas de “assassinatos com as próprias mãos”, descrédito em qualquer modalidade de justiça, em outras palavras, me parece que o equivalente contemporâneo ao Pinochet do Chile, é um regime autoritário cotidiano, que não passa tanto pelas mãos do Estado (ainda que as significativas votações do Bolsonaro sejam um termômetro de que também passa pela grande política) mas que se exerce nas ruas. Cenas de racismo aos estrangeiros são cada vez mais constantes, como essa que comentou. Mendigos são carbonizados semanalmente em Curitiba, gays são esfaqueados em ônibus lotados e os 45 passageiros presentes não fazem absolutamente nada para impedir, ladrõezinhos pobres e batedores de carteira são amarrados, torturados, sangrados e assassinados em pleno Batel e milagrosamente “escapam” sem que ninguém saiba para que lado foram. Nos tornamos uma sociedade autoritária, torturamos, matamos, perseguimos, toleramos a violência. Estamos frente a um fenômeno, muito recorrente e ameaçador, da total e irrestrita incapacidade de relacionarmos com a alteridade. O problema é que esse “inimigo” já não tem mais centro, não basta reivindicar diretas já porque ele não senta na cadeira presidencial, novamente vivemos nos tempos em que o vizinho do lado pode se tornar a salvação ou a pior das ameaças. Conjunturalmente, temo as consequências.

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