Reflexões sobre uma escultura fraturada: a imagem de Flavio Suplicy de Lacerda

Em 2014, assistimos a um debate que poderia restar menos infrutífero do que foi; dizia respeito ao destino do busto do reitor Flávio Suplicy de Lacerda, colocado nos jardins da reitoria em 1958 e retirado em duas ocasiões: 1968 e 2014. Tanto numa data como noutra, foram estudantes que derrubaram a citada escultura, como forma de protesto contra um personagem que, além de ser conivente com a Ditadura, cerceou manifestações estudantis contra atos de governo de exceção e delatou diversos estudantes e professores a órgãos de repressão.

No segundo caso, assistíamos, no mesmo ano, à entrega do relatório da Comissão Nacional da Verdade, criada pela Lei 12528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012 com o objetivo de apurar graves violações de Direitos Humanos ocorridas de 18 de setembro de 1946 a 5 de outubro de 1988.

Comissões estaduais em cada unidade da federação e apurações no interior da universidade também estavam se processando, abrindo-se a possibilidade de esclarecer à população quanto às responsabilidades do referido Reitor sobre abusos cometidos contra os Direitos Humanos em sua gestão. Afinal, uma das recomendações da referida comissão era para que se revisassem as homenagens feitas a personalidades que tivessem, como era o caso, colaborado com os governos ditatoriais.

Os historiadores e outros profissionais, ao serem chamados a participar das investigações das comissões de verdade, realizaram diversas recomendações nesta direção. Em São Paulo, por exemplo, há um projeto de lei que busca ressignificar tais espaços de memória, substituindo tais nomes e edificações por aqueles que lutaram pela democracia e pela defesa dos direitos humanos. É o caso do “Viaduto 31 de março”, que teve seu nome substituído para “Viaduto Terezinha Zerbini” que, ao lado de outras mães de perseguidos políticos, lutou pela anistia.

Citemos um exemplo ainda mais consolidado, o caso da Alemanha. Neste país, o holocausto é relembrado não apenas em livros didáticos de História, mas em diversos “lugares de memória”, que se dividem em monumentos, museus e arquivos, atividades e eventos supervisionados por historiadores.

Não se trata apenas da substituição de um nome ou de um monumento por outro – como o de uma homenagem ao soldado alemão  que lutou na Segunda Guerra por pessoas que lutaram contra a ditadura alemã (Hamburgo), ou a inauguração da Rua Hannah Arendt como filósofa que combateu o nazismo, e em cuja rua é sediado o centro de estudos sobre antissemitismo.

Isto ocorre em diversas ocasiões, mas a proposta vai mais além; não pretende apagar o passado e sim aprender com ele. Como bem considera Reinhart Koselleck, trata-se de preservar um determinado passado para as gerações futuras. O que nos coloca na relação de um eu–agora para um eu-amanhã.

Como o fazem? Retiram os monumentos e placas celebrativas e os colocam em museus, o que chamamos de processo de musealização. Vale dizer, um monumento é transferido do lugar de celebração e torna-se um documento de estudo.

Há uma diferença importante aí.

O museu e o arquivo são ambos “lugares de memória”, em que se acumula o passado, seja ele qual for; de maneira semelhante, o monumento é também um “lugar de memória”, mas uma celebração; uma homenagem a alguém ou a algo que queremos que se torne um fato exemplar para as gerações vindouras.

Outro exemplo que pode ser considerado o reverso desta tendência nos é dado pelo monumento às vítimas do atentado de 11 de setembro no World Trade Center em Nova Iorque.

Ali foi construído, propositadamente, uma edificação não verticalizada, passível de ser vista de longe, dada a sua altura, como é típico dos monumentos. Inversamente, ali o monumento está cravado abaixo do nível do solo, forçando-nos a olhar para baixo, como que em atitude de reverência. Como quem olha para um túmulo, lembramo-nos, mas não queremos reeditar; “lembramos para que não se repita” (Adorno).

Para cada um destes conjuntos arquitetônicos ou coleções de documentos, ou nomes de rua, observa-se a construção de uma determinada memória que, como uma construção, pode ser desconstruída. Não se esquece ou se apaga, mas se lembra de diversas maneiras. Logo, este ato de lembrar não é alheio ao valor que a sociedade lhe atribui.

Assim sendo, a celeuma causada pela retirada do busto do reitor Flávio Suplicy de Lacerda, insere-se nesta reivindicação pela reescrita da memória histórica da Universidade Federal do Paraná e do estado repressivo do Estado do Paraná ou ainda, da história do movimento estudantil.

Portanto, naquele ano, estivemos por um breve momento diante de uma disputa de memória e, mesmo que nas redes sociais (ou apesar das redes sociais), algumas reflexões se fizeram presentes.

Mas o que menos se presenciou foi a voz dos historiadores no debate. Aliás, no Paraná, desconheço que nomes de ruas, de praças, de monumentos, contem, no momento da escolha, com a intervenção de um historiador, por mínima que seja.

Não estou chamando para a categoria mais uma prerrogativa em sua carreira, à moda do corporativismo. Tampouco que estas escolhas sejam feitas de maneira elitista. Mas reclamo que estas nomeações (bem como as devidas justificativas) sejam feitas com critérios, e os critérios, tanto do ponto de vista ético profissional como técnico, viria da nossa formação. No entanto, no que se refere a tal reconhecimento no Paraná, isto está longe de acontecer, a ver pelas instituições culturais que demandariam tal conhecimento e que são ocupadas por pessoas mais preocupadas com efeitos mediáticos do que com o conteúdo dos serviços a serem prestados.

Concluo com um exemplo bizarro: moro numa rua cujo nome é do filho de um deputado, morto aos 18 anos, de acidente de moto, possivelmente, desobedecendo às leis de trânsito. Quem tomou tal decisão o fez, possivelmente, para agradar o seu pai, mas será o rapaz, irresponsável como tantos jovens, gostaria de ser assim lembrado? De resto, de que exemplo estamos tratando?

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