Sentimentos na História, por Maria Luiza Andreazza

“Quem anda em meio à multidão precisa mudar de rumo, cerrar-se os cotovelos, recuar ou avançar, às vezes até sair do caminho reto, segundo aquilo que tope”. Estas palavras de Montaigne, no Livro III dos Ensaios traduzem a complexa imbricação entre o viver social e oviver pessoal. Amiúde,estudiosos das humanidades se veem perante dilemas teórico-metodológicos na crença de haver esta dualidade cuja origem, em muito, pode ser tributada a característica do pensamento ocidental moderno de organizar-se a partir de oposições binárias. A historiografia contemporânea não ficou imune ao “vício binário” que ora se expressou na canalização dos estudos para abordagens calcadas na longa duração, ora na valorização de pesquisas focadas nas estruturas econômicas e, ainda, no estudo dos homens no tempo. Em outras palavras, a validade do conhecimento histórico seria dada pela abrangência dos recortes temporal e social bem como pela profusão dos documentos compulsados.

Há um bom tempo, é certo, esta percepção vem mudando tanto pela insatisfação dos historiadores com os paradigmas vigentes como pela intensificação do dialogo com outras áreas de conhecimento. Dentre os efeitos mais extraordinários deste movimento podem ser citados o descrédito das narrativas totalizantes e a inclusão da subjetividade como variável própria à investigação historiográfica. Neste ultimo caso, o historiador entendeu a incorreção de subtrair-se ao exame da historicidade das inúmeras e contingentes expressões da subjetividade.

Esfera fundamental da vivência humana é nela e por meio dela que,emotiva e/ou racionalmente, o homem decodifica sua experiência de vida; é nela que a memória se esconde,se exibe ou propõe repertórios; é onde são produzidos sentimentos e emoções que, por sua vez, definem campos de identificações e de alteridades individuais e coletivas. Em outras palavras, é na pluralidade dos elementos próprios a subjetividade que o homem colhe e hierarquiza o conjunto de valores que compõe sua visão de mundo. Esta, soberana, orienta – de formas diversas – suas convicções, suas ações e suas relações sociais. Por estas considerações cabe elogiar a oportuna iniciativa dos historiadores Marion Brepohl, André Capraro e Renata Senna Garrafonide organizarem a coletânea Sentimentos na História: linguagens, práticas,
emoções. O livro agrupa especialistas nacionais e estrangeiros ocupados em evidenciar a maneira com que diversos setores da sociedade compreendem e se relacionam com crenças religiosas; em destacar como amorese desamores se fazem presentes em múltiplas esferas como a da utopia, da politica e das dinâmicas sócio demográfica e identitárias.

Reúne também, pesquisadores que ressaltam os sentimentos que orientam as fruições estética, literária e gastronômica. Em seu conjunto, o livro mostra a excelência da historiografia inscrita na perspectiva cultural e, por isso mesmo, merece ser apreciado para além de seus méritos acadêmicos.

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