Sobre a revista História: questões e debates

Há quarenta anos, um pequeno grupo de profissionais e estudantes de História decidiu criar uma associação de caráter local, a Associação Paranaense de História – APAH, reunindo professores de todos os níveis de ensino, pesquisadores e alunos universitários. Eram anos em que o governo ditatorial começava a dar seus sinais de desgaste e a sociedade, por sua vez, organizava a resistência com resultados políticos mais nítidos. Iniciam-se greves de funcionários públicos e de sindicalistas rurais; de enorme impacto, 200.000 metalúrgicos manifestam-se no ABC paulista, anunciando sua vontade de não apenas reivindicar melhores salários, senão ainda de criar um partido que representasse seus interesses, o que viria a ser o Partido dos Trabalhadores, PT; um ano antes, fundou-se o Partido Democrático Trabalhista, PDT, sob a liderança de Leonel Brizola, recuperando a tradição trabalhista brasileira. E, desde 1976, o Movimento Democrático Brasileiro – MDB, remodelava sua agenda para tornar-se efetivamente de oposição.

Para além desta conjuntura mais ampla, no Paraná, os movimentos sociais no campo realizam diversas mobilizações e são apoiados pela Igreja, que divulga documentos em favor da defesa moral dos posseiros, conjuntura que favoreceria a criação do Movimento dos Sem Terra – MST; no final de 1979, por 10 dias, trabalhadores da construção civil ocupam as principais ruas do centro da cidade, reivindicando melhores salários e a redemocratização; em 1980, ocorre uma das greves mais expressivas dos professores universitários, o que se fez acompanhar pela reorganização da Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná; e, neste mesmo ano, o movimento estudantil adquire maior visibilidade, assumindo para si outras pautas além da demanda por redemocratização do país. Volta-se para o cotidiano do ensino e da pesquisa, tendo como um dos resultados mais destacados na área de Ciências Humanas a luta pela extinção do curso de licenciatura curta de Estudos Sociais, previsto pela Lei 5692/71, que pretendia substituir o ensino de História e Geografia no nível de primeiro grau, legislação esta que, segundo a avaliação dos seus opositores, praticamente transformava tais áreas de conhecimento em um conjunto de vagas noções de moral e civismo.

A Associação Paranaense de História se integra a estes movimentos; participa ainda de mobilizações em favor de uma presença mais pronunciada dos historiadores e historiadoras em instituições como museus, casas de memória, arquivos, conselhos de patrimônio e de tomadas de decisão na esfera de políticas culturais. Atender aos interesses de tais profissionais significava contribuir para democratizar o ensino, profissionalizar as políticas de memória, difundir o conhecimento e, principalmente, para fazer crescer em importância o papel da História perante a sociedade. Entendia-se que valorizar a profissão era valorizar uma História engajada e metodologicamente comprometida com a teoria e com a pesquisa.

Justificava-se aí a criação de um periódico local, não para difundir publicações limitadas regionalmente (desde o início, não foi esta a intenção), mas para alargar e tornar mais plurais os temas e meios de difusão da pesquisa acadêmica: a revista História: questões & debates. Ousada iniciativa, a concorrer com os parcos recursos destinados para este fim no Brasil; afinal, ainda que nos anos setenta, os cursos de História em todo o Brasil reclamassem deixar de ser meros reprodutores de conteúdo, as verbas a eles destinadas eram muito limitadas, muito aquém do que se exigia para a criação de laboratórios, arquivos, periódicos. Porém, História: questões & debates vingou, associando-se, talvez às apalpadelas, à onda de uma nova História Social; havia muitos temas inovadores, tais como o recém surgido movimento dos sem-terra, (a capa do primeiro volume era uma alusão a este movimento), as empregadas domésticas como co-autoras da classe trabalhadora, a história como discurso do poder oficial, história da família, história oral (destaque-se a entrevista com um ex-escravo), identidades étnicas, enfim, artigos oriundos de pesquisas ainda pouco consagradas pelos centros acadêmicos de maior porte.

No princípio, publicavam-se artigos livres com temática diversa; a partir de 1988, decidiu-se por organizar dossiês, sempre atentando para temas vinculados à sociedade e aos desafios historiográficos; a redemocratização já se avizinhava e pautas defendidas por associações como a APAH eram agora incorporados por outras organizações, incluindo-se a universidade. Por essa razão, a Associação Paranaense de História consorciou-se, em 1994, ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Paraná, garantindo com isto a definitiva profissionalização e financiamento da revista, que contou, é preciso lembrar, desde o início, com diversos auxílios, tais como os do BAMERINDUS, Banco de Desenvolvimento do Paraná – BADEP, BANESTADO, Comissão de Aperfeiçoamento de Ensino Superior – CAPES; Editora da UFPR, Fundação Araucária,  Fundação Cultural de Curitiba – FCC, Fundação Educacional do Paraná – FUNDEPAR, Financiadora de Inovação e Pesquisa – FINEP, Instituto Goethe de Curitiba, Livraria do Chain, Livraria do Eleotério; mas o mais importante e constante de todos, o Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

Desde o início e ainda hoje, temas evocados nos meios de comunicação, questões abertas pelos acontecimentos da sociedade contemporânea, políticas de memória, tendências teóricas emergentes ou controversas no meio acadêmico são contempladas neste periódico, com o intuito de aproximar mercado editorial, público leitor e produção acadêmica. A revista garante a pluralidade e a diversidade, convidando organizadores de diversas instituições para propor e avaliar os dossiês; seus editores realizam ampla divulgação dos temas a serem tratados e cada volume é lançado com noticioso específico. Assim procedendo e acompanhando as diretrizes delineadas pelos pesquisadores e editores de periódicos científicos, a revista ganhou visibilidade, internacionalizou tanto seu conselho como suas publicações e se consolidou no meio acadêmico como periódico científico de alta relevância. Acima de tudo, permanece o compromisso de seus idealizadores, de manter o diálogo com a sociedade em que se insere. Compromisso urgente e necessário nos dias de hoje, em que as Humanidades se veem ameaçadas, não apenas pelo discurso tecnocrático, como nos anos em que História: questões & debates foi criada, mas pela “novilíngua” das redes sociais que suprime o ato de pensar por fluxos sensoriais com efeitos de curtíssimo prazo.

Texto publicado originalmente na Revista História: questões e debates, por ocasião de seu aniversário de 40 anos

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