Sobre o barbarismo epistemológico do passado; a propaganda nazista da Sociedade Colonial Alemã, por Naiara Krachenski

Temos assistido a partir da posse do novo governo a instalação de um regime político que constrói seu núcleo de poder ao redor da criação e divulgação de fake news. Desde propostas mirabolantes que viram chacota em tempo recorde – como defecar em dias alternados para reduzir a poluição ambiental – até a defesa de ideias perniciosas – o expresso apoio a generais torturadores durante o regime militar brasileiro -, o governo bolsonarista expõe não só uma profunda má instrução a respeito do mundo que o cerca mas, de forma ainda mais cínica, desvela o modo pelo qual a manipulação de informações e o negacionismo passaram a ser a ordem do dia na gestão da política nacional. Temos convivido, ademais, com uma ideologia que se diz não-ideológica e que agride toda e qualquer produção de conhecimento que não esteja exclusivamente a seu serviço. Dessa forma, para o caso específico do conhecimento histórico, nos tornamos público espectador de uma gente que afirma a não presença de portugueses na África durante o tráfico atlântico de escravos, a inexistência de um regime militar violador de direitos humanos no Brasil e o fato de que o nazismo havia sido um regime de esquerda. Sem importar-lhes que tais afirmativas não são sustentadas pela pesquisa histórica, o bolsonarismo criou um mundo em que o significado não precisa mais de um significante.

Ainda que esta expressão política condene a História a um barbarismo epistemológico, o fato é que os historiadores não podem dizer que tal modo de fabricar o passado seja algo sui generis do bolsonarismo. Há mais de um exemplo nos passados que acessamos que nos mostram o quanto a História serviu a interesses políticos correntes e foi utilizada para embasar e justificar os mais diversos tipos de ideias e práticas. Dentre tantos, o exemplo que gostaríamos de discutir aqui foi o modo pelo qual o governo nacional-socialista alemão recuperou a história do colonialismo alemão na África.

Diferentemente de países como França e Inglaterra, reconhecidos como extensos impérios coloniais a partir do século XIX, o caso alemão não goza na memória histórica de uma presença tão imponente. No entanto, a partir de 1884 a Alemanha imperial do Kaiser Wilhelm I formalizou junto à Conferência de Berlim as possessões coloniais de Togo, Camarões, África de Sudoeste (atual Namíbia) e África Oriental (atuais Tanzânia, Burundi e Ruanda). Após trinta anos como metrópole colonial, contudo, ao fim da I Grande Guerra e da derrota do Império Alemão, a esta nação foram impostas diversas sanções pelo Tratado de Versalhes, dentre as quais a perda das colônias em ultramar.

Ainda que sem colônias desde 1919, observamos a continuação da atuação da Sociedade Colonial Alemã, principal órgão gestor da colonização dos territórios africanos. Após a perda das colônias, a Sociedade passou a atuar no movimento neocolonial alemão, uma corrente ideológica composta por parte da pequena burguesia alemã e dos ex-generais e governadores coloniais que reivindicava a volta da Alemanha como país mandatário nos territórios africanos. Com a ascensão do governo nazista em 1933 e sua decisiva estratégia de transformar o leste europeu em uma grande colônia para o povo ariano, a Sociedade Colonial Alemã passou a atuar como o centro de memórias do colonialismo alemão em África, bem como foi o principal agente produtor de propagandas que reviviam a comoção imperialista. No ano de 1936, a Sociedade passou a integrar definitivamente a burocracia nazista e se transformou na Liga Colonial do Reich.

Durante todo o movimento neocolonial alemão, a propaganda foi o instrumento fundamental de produção e divulgação de suas ideias. Ainda que tais esforços não tenham conquistado êxitos concretos, a atividade do movimento neocolonial manteve acesa a vontade de dominação e poder sobre o Outro na prática política alemã. É justamente nesse ponto específico da atuação do movimento neocolonial que os usos da história imperial entraram em cena. Em primeiro lugar, é visível em todos os materiais de propaganda a edificação de uma África inexplorada e inabitada antes da chegada dos alemães a estes territórios. Na narrativa do movimento neocolonial, foi somente com a presença dos alemães nas colônias que estas ingressaram no mundo da História, vale dizer, saíram da “obscuridade” e da “perenidade” que se encontravam e adentraram ao mundo do movimento da sociedade e das trocas comerciais; em última análise, ao mundo da civilização. Isso foi concretizado pela propaganda neocolonial de várias maneiras: desde a apresentação de fotografias e cartazes que comparavam a primitividade do mundo africano ao desenvolvimento trazido pelos alemães, até a produção de uma série de tabelas e gráficos que atestavam estatisticamente o crescimento econômico gerado pela colonização alemã.

Em um segundo momento, podemos afirmar que a história colonial alemã foi contada nesse período não somente através das supostas benfeitorias dos colonos alemães, mas também a partir da ótica de harmonia entre os colonos europeus e os nativos africanos. A todo momento vemos exposta uma hipotética relação de entendimento entre colonos e colonizados, ao fim e ao cabo, a construção de um mundo no qual o nativo entendia seu lugar de subjugado frente ao colonizador alemão.

Finalmente, a história colonial alemã foi retratada durante o nacional-socialismo a partir da culpabilização dos outros poderes europeus. Segundo a narrativa construída, França, Inglaterra e Bélgica eram os principais responsáveis pela Alemanha se encontrar humilhada diante do cenário de poderes imperialistas da primeira metade do século XX. No discurso alemão, os países signatários da Liga das Nações haviam roubado indevidamente os territórios coloniais e a eles deveria recair a culpa do enfraquecimento econômico e moral da Alemanha no cenário geopolítico europeu. Dessa forma, a propaganda neocolonial incitava a ira dos alemães frente aos seus inimigos mais próximos – seus vizinhos europeus – e fazia um chamado à ação não somente pela recuperação das colônias, mas também por um embate de “acerto de contas” com tais países.

Nesse sentido, podemos afirmar que a propaganda neocolonial pretendia servir não só para impulsionar um possível movimento concreto para a recuperação das colônias e continuar alimentando a fantasia de poder e domínio sobre o Outro, mas também agia como um bloqueio mental que orientava a construção da realidade dos espectadores dessa propaganda com a sua realidade. 

O exemplo acima narrado desnuda mais um episódio de barbarismo epistemológico do passado, ou seja, a maneira pela qual determinados fatos são fabricados, narrados e divulgados para constituir um fundo arqueológico donde nascem certas necessidades do presente. É função do historiador não somente “lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”, como afirmou Peter Burke, mas também, sobretudo, creio que recai a nós historiadores profissionais a responsabilidade de responder sempre à questão de Keith Jenkins: “Para quem é a história?”.   

 

Naiara Krachenski

Professora de História da UNESPAR campus União da Vitória

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