Sou professora, me (pre) OCUPO

 

 

Deparei-me com duas mensagens que me deixaram chocada, relativamente aos protestos e ocupações realizados contra a Medida Provisória de reforma de ensino do ensino médio.

A primeira me chegou pelo whatsapp, de autoria Giorge Pilates. Ele filmou, em 28 de outubro, em frente ao Colégio Estadual Lysímaco Ferreira da Costa (Curitiba), uma cena dantesca em que manifestantes favoráveis à reforma do governo Temer reagiram, aos gritos, ao movimento de ocupação: desocupa! desocupa!, sem no entanto se identificarem. Quando um aluno do colégio respondeu dizendo que tais medidas contrariavam o princípio de igualdade de oportunidades, uma loira, alta, de rabo de cavalo, não titubeou e foi escancaradamente sincera. Disse: “os ricos são ricos porque têm inteligência. No seu caso, vá pegar no pesado”, fazendo gestos obscenos. Depois, a filmagem se interrompeu.

Outra cena resultou de uma conversa. Falava com uma pessoa de minhas relações, explicando como, no meu entendimento, tal medida feria a constituição. E pior: argumentei que adolescentes não possuem o necessário preparo para escolher sua vocação nos primeiros anos do segundo grau, pois tais alunos, se a MP for aprovada, terão de decidir-se entre cinco trajetórias: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas ou uma formação profissional – esta última, provavelmente, encerra seu ciclo escolar e os despeja no mercado de trabalho sem uma preparação séria mesmo para um trabalho técnico, ficando à mercê das orientações das empresas contratantes – que os colocarão, dado o seu despreparo, na condição de aprendizes não remunerados.

Argumentei também que a exigência de permanência em tempo integral pode até parecer bem intencionada, mas alunos com menor poder aquisitivo precisam trabalhar para auxiliar na renda familiar, logo, muitos nem poderão continuar seus estudos após o primeiro grau.

Finalmente, as disciplinas que até então compõem o currículo, são integradas e preparam o aluno não apenas para o exercício de uma profissão, mas também para se situarem na sociedade. Mesmo o profissional de ocupações as mais modestas, precisa lidar com informática, escrever bem o idioma, entender pelo menos o inglês instrumental, compreender a dimensão espaço-temporal, formar opinião abalizada, participar das enquetes que modernamente as empresas realizam a seus funcionários, entender como se preserva a natureza, etc. Se tais necessidades já são precariamente atendidas no ensino atual, que dirá se as mudanças que se anunciam forem concretizadas.

A resposta de meu interlocutor foi a seguinte: é melhor para os pobres, eles já saem do segundo grau com uma profissão, com ela, poderão pagar seus estudos de nível superior. Além disto, muitos deles se sentem desconfortáveis em faculdades públicas que, apesar da gratuidade, recebem muito mais ricos do que pobres. Eles acabam desistindo até por vergonha de seu desempenho.

Tentei argumentar, na esperança de um diálogo, que até mesmo os conservadores não prescindem, em outros países, dos conteúdos ministrados com qualidade; que uma formação tão verticalizada afeta a capacidade de interação com os profissionais superiores na pirâmide das organizações; que a criatividade auxilia nas técnicas de aumento de produtividade nos sistemas capitalistas contemporâneos.

A réplica foi: tornemos todo o ensino superior pago para não mais facilitar a vida dos ricos, e se os pobres quiserem, vão ter que se esforçar, porque eu sempre fiz esforço para chegar aonde cheguei.

Deixando de lado a improvável inteligência da loira e o duvidoso “aonde cheguei” , as duas mensagens, a primeira tosca e agressiva, a segunda motivada por um senso de caridade opressor, lembrei-me do livro de Paul Kennedy, intitulado “Ascensão e queda das grandes potências”. Liberal, à sua época considerado conservador, ele afirmou que um país que quer se desenvolver, precisa de quadros bem preparados.

Agora quem reage agressiva e intempestivamente sou eu: o que querem os autores e defensores desta reforma? esvaziar a escola pública, pois , logicamente, os pais acabarão por fazer sacrifícios insuportáveis para sustentar seus filhos em escolas privadas, na esperança que consigam uma vaga em faculdades? Formar mão de obra para empresas que, ao receberem tais adolescentes, imporão suas próprias técnicas e procedimentos para aceitá-los no emprego? Privatizar a universidade pública?

Tudo isto junto e mais o que?

A direita, até pelos seus próprios interesses, já foi mais sensata no passado.

Ademais, hoje, parece que todo mundo se tornou especialista em políticas públicas. Isto poderia ser considerado positivo, não fosse a colonialidade da maioria de suas posições, ou seja, a pretensão de dizer a outrem como ele deve ser, sob o preço de ser ou vitimado ou criminalizado.

Quanto aos autores de tais propostas, só resta espreitar pela janela o esforço e inteligência de seus filhos quando precisam de um professor particular para concluir a lição de casa.

 

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