Toda a fala de Beto Richa é fascista

Toda a fala de Beto Richa é fascista. Sua defesa da violência, a nomenclatura empregada ao se dirigir a grevistas, sua avaliação do movimento,  desconhecendo a linguagem sindical, a maneira como defende os policiais. Político atrasado, com ideias de ordem e civismo do Estado Novo, sem leitura de coisa alguma, reflete uma Curitiba que já deveria ter passado, a Curitiba do voto integralista.

Estava eu caminhando, no dia 29 de abril, a quatro quadras ou mais da Assembléia Legislativa e avistei policiais armados dificultando o trânsito de pedestres, pessoas comuns que iam para o trabalho ou para um banco ou uma loja lá pelas proximidades. Eram interpeladas por policiais e propositalmente retardadas em seu trajeto, clara estratégia de impedimento da liberdade de ir e vir.  Isso é estado de sítio, não cinturão à ALEP.

É certo que Beto Richa não é senão uma representação, menos do que isto, “um relações públicas” dos homens de negócios. Estadistas são desnecessários no estado neoliberal; o papel dos “homens de ideias desinteressadas”, de quem nos  fala David Hume, cabe hoje aos professores, aos diretores e idealizadores de ONGs, ao clero não fascista, aos jornalistas (a propósito, parabenize-se Enio Verri, dentre outros, (ver: https://www.facebook.com/#!/enioverri/videos/639425762854170/?pnref=story

Mas mesmo compreendendo este papel tão insípido, que assujeita os assujeitadores, nunca pude deixar de dedicar menosprezo à imagem de Beto Richa. Por certo, imagem fabricada por seus assessores, que no entanto não fazem milagres. Sua terminologia é precária: “arruaceiros” (década de 20 do XX), “baderna” (nome de uma prostituta da década de 30 do XX, logo, politicamente incorreto), “máquina azeitada”, (falta um assessor que tenha lido algum manual  keynesiano) “sigo o exemplo do meu pai” (tentando destruir a imagem do próprio que nada faria como ele a não ser providenciar professores particulares para ver se o infante melhorava seu desempenho), “estas pessoas são do PT ou da CUT…” , (politicídio ou, no momento em que a frase foi pronunciada, suicídio?) “maldades sindicais” (são pessoas maldosas, o sindicato é malvado, ou é moralmente condenável ser do sindicato?  confuso!)

Afora isto, nossos ouvidos não conseguem conviver com os erros de português, com ênfase na concordância verbal e de número. Não por acaso dentre as sempre ácidas frases de Roberto Requião, uma caiu no gosto popular: “piá de prédio”. Sim, porque o senador estigmatizou o então candidato como “menino mimado” e “sem brilho próprio”. Exageros descontados, afinal, em política o exagero é a caricatura do outro, estratégia que atinge firme o adversário (e atingindo-o, a equipe de apoio fica inerte), além do pai, o que ou quem o filho cita? Nunca menciona um autor que tenha lido, jamais, uma proposta, sequer do PSDB (não demonstra familiaridade com a linguagem do seu próprio partido), não elogia atores, músicos, “frases inteligentes” de alguém, quem quer que seja. Falta verniz, ainda que artificialmente construído pelo seu “marketing”.

Ademais, vejam o menosprezo com as coisas do espírito, como sublinhava Kant; os museus deixaram de funcionar por falta de porteiros e seguranças, e ele nem ligou. A Fundação Araucária (Fundação de apoio à Ciência e Tecnologia) está sem o dinheiro exigido por lei, ele corta verbas para a área de desenvolvimento nesta área como se fosse de menor importância interromper uma pesquisa que descobrisse a cura da AIDS, por exemplo), as universidades param por falta de luz. Gradativamente, o teatro Guaíra é substituído pelo teatro Positivo, e eu penso: deve ser um alívio para governantes que consideram “estorvo próprio de esposa” ir ao teatro, mas têm de fazê-lo por liturgia do cargo.

Porém, o pior que vimos nestes dias, o que penso e quero, será gravado em nossa memória coletiva foi a sua tentativa de equiparar as forças de um sindicato às forças do BOPE, emblematicamente conhecido pelo filme “Tropa de Elite”: chamou aquela repressão policial de “confronto”; será que ele acredita que as relações de força eram simétricas? Se sim, por que seus assessores, dentro do palácio, riram dos que estavam literalmente apanhando? (há documentação sobre tal escárnio).

Outrossim, por que tudo isso me leva a entendê-lo como fascista?

– porque transforma em cotidiano os atos de exceção; a violência aí é naturalizada;

– por se demonstrar anti-intelectual, sonegando, inclusive, as verbas determinadas aos profissionais acadêmicos por lei;

– por qualificar-se como bondoso para com os professores, por ter-lhes “dado” aumentos, como Getúlio Vargas “deu” aos trabalhadores a legislação trabalhista, desconhecendo que política é negociação e não concessão do “dictator” (aquele que dita ordens);

– por pretender eliminar o lugar da pluralidade política, tratando as oposições como uma sigla a ser exterminada e não combatida, o PT, com o que também nega ou desconhece a linguagem partidária.

Poderia continuar a pensar, a partir de Beto Richa, o fascismo na atualidade, mas prefiro deixar para outro dia. Vou tentar aprofundar tais reflexões “ligeiras” depois. Como diz Ana Alice, na sexta feira.

Termino esta (minha) pequena atividade de pensar ligeiro com duas menções.

A primeira, proveniente do herói cotidiano, que hoje penso estar representado no professor, sim, mas mais do que ele, na figura dos policiais que se negaram a agredir os manifestantes, coragem extra-ordinária.

A segunda, proveniente de uma lembrança de minha amiga e parceira de reflexões Gina Paladino, que assim se pronunciou sobre a recente ofensa aos professores e aos cidadãos deste estado:

 

Já no outro lado do mundo, no Japão, o único profissional que não precisa se curvar diante do Imperador é o Professor, pois segundo os japoneses, numa terra em que não há professores, não pode haver imperadores.

 

 

Palavras-chave:

Comentários:

  1. Jailron disse:

    Excelente texto professora!

  2. Claudia disse:

    Lindo texto Marion. Me emocionei! Abraços

  3. Naiara disse:

    Excelente texto, deve ser publicizado!

  4. Pedro disse:

    excelente texto, porém a noticia de que os policiais se negaram a atacar os professores já foi desmentida, era falsa (em referencia a “coragem extra-ordinaria” que tu citas no texto)

  5. Marion Brepohl disse:

    Pode ser, mas a meras possibilidade já apontaria para um “enorme” começo de mudança. Os policiais também são trabalhadores, muitas vezes, humilhados por sua “fraqueza” – leia-se, suas resistências em ferir as pessoas. Eles podem não querer mais isto, quem sabe?

Deixe seu comentário!