Toda a misericórdia para o feto, nenhuma para o fato

Não tinha como evitar sentir-se estrangeira na sua casa. A casa era dela e do irmão, herança dos pais (sala, banheiro, dois quartos, quartinho de empregada e um banheirinho; o quintal, de cimento queimado, só tinha tanque e varal). Porta do corredor para onde dava tudo, dava também para uma pequenina entrada. Lá se punham duas cadeiras e um vaso sem flor. Uma janela, a da sala, dava para a rua também. Construção germinada, os cômodos tinham muitas sombras.

Era a sua casa desde o nascimento. Mas depois a cunhada entrou, não havia dia sem tremedeira nas mãos e palavra presa na garganta. Isso quando a garganta não doía ainda mais pelo grito com que desabafava sua raiva antes de sair de perto deles.

Dita nasceu com a espinha torta, tão torta que não ficava ereta, arrastava-se com o corpo encurvado, e apoiada em duas bengalas, lembrava aquelas velhas que tecem tapetes persas. Com o tempo, por andar pouco, engordou, principalmente nos braços. A mãe a tratava bem, mas não passeava com ela, as pessoas perguntavam muito.
Se fosse hoje, poderia comprar um andador de rodinhas, mas naquela época parece que não tinha.

Sua distração era olhar pela janela aquela rua besta de paralelepípedos, descida íngreme, os carros deslizavam mais rápido quando chovia. Às vezes saltava uma pedra ou outra. Às vezes vinham arrumar; qualquer hora haverá de chegar o asfalto.

A guerra se dava na cozinha. A cozinheira era quem? Onde estava o batedor de bife e o escorredor de macarrão? Pôs lá em cima para eu não pegar? Quem põe a mesa, eu? Já disse para não pegar o que era da minha mãe, você não sabe usar panela de ferro. Eu é que não sei quem pegou. Brigavam para fazer e para não fazer.

Seu quarto virou o quarto das gêmeas, de quem ela gostava, por isso concordou sem refletir, mudar para o quartinho da empregada onde só cabia a cama. As roupas ficaram numa cômoda no corredor – amassava tudo. E quando precisava usar o banheiro, tinha de ser o grande, mas sempre chegava por último, ficava segurando.

Um dia, o irmão, açougueiro bem quisto no bairro, ficou fora por uns dias, não se sabia para onde foi.

Houve uma briga feia, a cunhada a ofendeu, dizendo que cuidava dela mas que ela não era agradecida, era invejosa, seu irmão não valia nada, quem me vale é Deus, ninguém me cuida, levantou o pau de macarrão, a cunhada saiu de perto, sentiu-se humilhada por não conseguir bater, berrou, blefou, as crianças viram tudo.

Chorando muito, Dita vestiu sua melhor roupa e saiu apoiada nas duas bengalas. Era já noitinha quando chegou à rodoviária.

Sua ideia era simples. Não ia fugir não, ia pregar uma peça. Quando o irmão chegasse e perguntasse por ela, o que ia dizer a bisca da cunhada? Talvez as gêmeas contassem como a tia foi maltratada, criança ouve tudo e fica do lado do fraco.

Ia até Belo Horizonte. De São Paulo a Belo Horizonte, 9 horas de viagem. Chegava lá, ia para a Igreja da Nossa Senhora do Carmo, disseram que era linda. Rezava, confessava, olhava os santos, se benzia. Depois comprava um sanduíche de mortadela e sentava no banco da praça. À noitinha, era só pedir na rodoviária duas coxinhas, um ovo cozido no vinagre, uma média bem servida e voltava para São Paulo.

A primeira dificuldade foi chegar até a rodoviária. A segunda foram os degraus do ônibus, mas o motorista a empurrou para cima, sustentando suas coxas. A terceira, onde por as bengalas, mas o motorista as pegou e as jogou no porta-malas. A quarta era o assento, pequeno demais, mas o motorista a acomodou no banco ao seu lado, dentro de sua cabine, era maior.

Achou a decisão uma maravilha. Podia apreciar toda a viagem, à frente era a estrada sendo engolida pelos seus olhos como num filme de cinema, ao lado, de lado, árvores, placas, matos, escuridão, de vez em quando, alguém de bicicleta.

Tinha de achar uma mentira para a viagem e achou. Ficou contando sobre os parentes de lá, eles a aguardavam, sua mãe era filha de índio, o pai português, ela, filha de índia com branco, cabelo liso e morena, ria muito quando o motorista fazia perguntas: quanto tempo fica lá, seus parentes moram no sítio ou no centro, o que mais conhece além de Belo Horizonte, e … o marido não se importa que viaje sozinha? …Está com medo da curva?

E parou o carro. Fechou a cortina azul marinho da cabine, trancou a porta que dava para os passageiros, levantou aquele corpo do assento, virou Dita de costas, baixou suas calcinhas e dá-lhe! Enfiou de vez e dizia, baixinho: Toma, toma, toma,… nem percebeu que a luz dos faróis que vinham na contra mão desenhavam sua silueta para os passageiros acordados, uns rindo, outros abaixando a cabeça, outros num cochicho nervoso.

Quando acabou, retomou o volante, pisou fundo no acelerador, assim como tinha pisado em Dita para descontar aqueles minutos parado. O cheiro de suor e a fumaça dos outros carros aumentaram seu nojo. Nem para manobrar virava o rosto para a direita.

Ela se virou de costas para ele, mais paralisada ainda, olhando fixo para a janelinha. Suas sensações iam da vergonha por ter gostado à dor por estar ardendo um pouco.

Desceu do ônibus sem ajuda de ninguém. Nem motorista nem passageiro olhavam para ela. Ela olhava para baixo, olhava a plataforma e tudo era longe de andar. Talvez só fosse na Igreja, nada de praça. Talvez na praça, nada de Igreja. Talvez comesse algo e depois decidia, café com pão de queijo, mas… oh, Deus, valei-me, e as minhas bengalas?

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Comentários:

  1. Claudia Monteiro disse:

    Que mundo cruel para Dita…

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