Um historiador num museu, por Renato Carneiro Jr

Qual seria a função de um historiador num museu? Essa foi uma das perguntas que me fiz quando resolvi aceitar o convite para dirigir o Museu Paranaense em 2011. Esta instituição é uma das mais antigas no Brasil, datando sua abertura ao público no ano de 1876, situada em Curitiba, Paraná, no sul do país. Trata-se de um museu científico, que possui um grande acervo de mais de 500 mil itens, com enfoque em Arqueologia, Antropologia e História, tendo sido no passado, pelo menos até a década de 1960, dedicado também à História Natural.

Desde 1995 o museu tinha sido dirigido por historiadores, com exceção dos anos entre 2003 e 2006, logo após sua última mudança de sede, quando uma arte-educadora assumiu sua administração. Algumas respostas me pareciam óbvias: num museu há a pesquisa sobre a história dos objetos acumulados ao longo de mais de um século de existência, mas também sobre a história do Paraná, espaço geográfico de sua inserção, e também o ensino, com o atendimento de seus visitantes, em sua maioria de escolares, que buscam conhecer mais sobre o estado e a cidade em que vivem. Dotado de uma bela biblioteca, com mais de 20 mil títulos, espalhados em suas áreas de concentração, o Paranaense possui, ainda, um arquivo com mais de 25 mil documentos, alguns do século XVII e XVIII, mas principalmente do século XIX e início do XX.

Mas, para além dessas atividades, acabei envolvido com a administração do dia a dia da instituição, com tudo o que isso acarretava. Apesar de o museu não ter autonomia, pois ainda hoje é mantido pelo Governo do Estado do Paraná, por meio de sua área da Cultura, para que eu pudesse desempenhar bem minha missão de diretor, deveria buscar recursos, não apenas financeiros, mas também materiais, como novos equipamentos, mobiliário, ferramentas etc, e, sobretudo, novos profissionais que pudessem se juntar às ideias que tinha para o museu. Muitas das habilidades que seriam necessárias à administração, eu havia adquirido em um curso especialização de planejamento governamental e em várias ocupações que tive ao longo de minha carreira profissional.

No entanto, o local em que mais aprendi sobre museus foi no próprio Paranaense. Tendo disposição e humildade para aprender, há muitas áreas para se adquirir conhecimentos numa instituição como esta. Há a conservação e restauro, com seus trabalhos variando de acordo com o tipo de material (papéis, telas, tecidos, metais, vidros e porcelanas, madeiras); as reservas técnicas, que devem ser separadas também de acordo com o tipo de materiais e que têm exigências diferentes no tocante à temperatura, umidade relativa e iluminação; atendimentos para grupos com necessidades especiais; atividades de extensão e difusão cultural, que visam levar o museu para fora de seus muros e atrair públicos variados (eventos, como palestras, cursos e seminários e apresentações musicais e teatrais; mídias sociais e publicações); o trabalho do dia a dia dos setores especializados (que no Paranaense são correspondentes às áreas de concentração mais a Museologia) e as exposições propriamente ditas, que podem ser de caráter temporário ou de longa duração.

As exposições temporárias são organizadas por ocasião de eventos ou interesses de ocasião, para atender assuntos que estejam em destaque na sociedade ou para os quais se deseja chamar a atenção. Para que o tema seja adequado ao espaço disponível (uma ou mais salas), há que se separar objetos sobre os quais se vai construir uma narrativa, que exigirá pesquisa em variadas fontes, desde as bibliográficas e documentais, chegando a se realizar entrevistas e a coletar depoimentos, com os procedimentos típicos da história oral. Para uma exposição que ficará em cartaz por um período entre três a seis meses, às vezes em tempo menor, é necessário um trabalho para sua idealização que pode levar vários meses. A este trabalho se chama curadoria, que envolve desde a concepção até a orientação da montagem final da exposição, fazendo com que os objetos, legendas, textos e material gráfico dialoguem com o público, dando margem a diversas interpretações de seu conteúdo. A curadoria pode ser individual ou coletiva.

Não é tão diferente no caso das exposições de longa duração, ou exposições permanentes, como eram chamadas. Só que o trabalho é muito amplo, exigindo um prazo também maior de pesquisa, que pode se estender por meses ou mais de um ano, envolvendo diferentes profissionais e tipos de habilidades. Diversas exposições constituem um circuito, cuja apreensão pode se dar, como na narrativa histórica, de forma linear ou temática. É, de certa maneira, como transpor um livro didático para um espaço físico, com características mais sedutoras à aprendizagem, podendo envolver materiais cenográficos e de design, sonoros, iluminação especial, mobiliário.

Quando assumi a direção do Museu Paranaense em abril de 2011, o circuito de longa duração, situado no anexo construído em 2002/2003, me pareceu ultrapassado e desconexo. Obedecia a uma concepção datada com uma linha de tempo que passava ao visitante uma ideia de continuidade desde o aparecimento dos primeiros grupos humanos, representados por indícios arqueológicos pré-históricos, até os dias mais recentes. Aliás, apesar de ser esta proposta, induzida pelo título do circuito – Ocupação do Território Paranaense – sua cronologia estava muito prejudicada, posto que os últimos eventos presentes no circuito eram referentes à Guerra do Contestado, no início do século XX.

Também a abrangência geográfica deixava a desejar, pois se pretendia dar conta do ‘território paranaense’, limitava-se a falar da região de Curitiba, pouca coisa do litoral, menos ainda dos Campos Gerais e absolutamente nada das demais regiões que compõem o Paraná de hoje. A justificativa que ouvi, quando questionei os antigos funcionários do museu, era que não havia acervo sobre as lacunas que se faziam sentir. Essa invisibilidade também se impunha sobre grupos sociais para além da burguesia ervateira e urbana, das autoridades políticas, militares e eclesiásticas. Mas será que um museu só pode contar a história que seu acervo permite? Ou pode buscar outros acervos para ilustrar a história que se quer (e se deve) contar? O circuito, datado da mudança de sede em 2003, tinha incorporado elementos de várias exposições temporárias, acarretando uma profusão de estilos, sem uma identidade visual clara, nem um equilíbrio entre os três setores científicos do museu.

Algumas oportunidades, ainda, se apresentaram à sensibilidade do historiador. Por mais de uma vez o Museu teve oferta de acervo por parte de indústrias e empresas que encerravam suas atividades e de particulares, cujas famílias faziam vir à instituição o espólio de seus membros famosos. Desaconselhado por museólogos e funcionários que argumentavam que as reservas técnicas estavam cheias e que seria loucura assumir este encargo, pois se tratava de incorporar grandes equipamentos, resolvi ainda assim, como diretor, receber coleções de extintas indústrias, como a Massas Todeschini, Matte Leão e Impressora Paranaense. Também foram trazidos ao museu espólios de Ney Braga, Bento Munhoz da Rocha Netto, Oldemar Blasi, Lange de Morretes, Júlio Moreira, família Hatschbach e Maé da Cuíca, entre outros. Como poderíamos deixar se perder parte tão significativa da memória do Paraná, não apenas de grandes vultos políticos, mas também de segmentos significativos das empresas locais e de nossa vida cultural?

A reformulação do circuito de longa duração foi feita em várias etapas, dentro do período da gestão e seu planejamento levou mais de quatro anos, aproveitando inicialmente os espaços subutilizados do novo anexo, as rampas entre seus andares. Em primeiro lugar, foi usada a rampa de acesso à maior reserva técnica no subsolo, onde se construíram tablados para retificar sua inclinação, criando nichos para abrigar os objetos, textos e cenários para a exposição Indústrias do Paraná.

Na metade superior da outra rampa, no acesso entre o primeiro e segundo andares do pavilhão, foi instalada a exposição Imigrantes do Paraná, dando conta dos grandes fluxos migratórios que vieram ao estado entre os séculos XIX e XXI, não deixando de lado portugueses, judeus, migrantes de diversos países da África e dos países de matriz religiosa muçulmana, turcos, árabes e iranianos, como usualmente exclui a historiografia tradicional. Foram privilegiados ali aspectos da cultura material e imaterial, como festas, religião, alimentação e o processo migratório para o estado, de cada um dos povos ali representados, sem abordar os aspectos folclóricos das representações tradicionais e sem reforçar estereótipos preconceituosos.

Na outra metade, a inferior, foi instalada a exposição Festas populares no Paraná, representando atividades espalhadas pelo território do estado: Festa do Divino, Folia de Reis, Carnaval e Fandango. Para ambas as exposições foram necessárias muitas pesquisas e coletas de acervo junto aos movimentos dos locais onde elas se inseriam, envolvendo uma gama variada de atores sociais na construção de suas próprias narrativas.

O andar superior recebeu uma profunda revisão da forma como eram tratados os povos autóctones da região que viria a ser o Paraná. Por todo o circuito estabeleceu-se um tratamento temático em detrimento da linearidade que existia, onde se apontava o tempo múltiplo, não confinando uma população apenas no passado, como eram tratados até então os índios de forma genérica, passando a nominar os povos Xetá, Kaingang, Guarani e Xokleng, cada um com um espaço mais adequado à sua história e suas lutas. Também se criou uma vitrine para tratar dos povos indígenas estudados por Vladimir Kozák, pesquisador do museu, que reuniu grande acervo de diversos povos do Xingu, Pará, Mato Grosso e da Amazônia.

O setor referente à pré-história ganhou nova roupagem e temas, atualizando-se com as pesquisas mais recentes. Aliás, essa foi uma preocupação que incorporamos ao buscar reformular o circuito de longa duração do Museu Paranaense. Foram convidados acadêmicos e membros de movimentos sociais para que as exposições tivessem várias vozes a serem interpretadas, mesmo que sob a coordenação dos técnicos do museu. A esta nova visão de ciência, mais inclusiva, foi agregado um design com identidade mais moderna, colorida e chamativa, textos curtos e significativos, além de outros elementos como novo mobiliário sob medida, recursos sonoros, vídeos, computadores com tela sensível e iluminação cênica.

Temas já existentes no circuito, como as reduções jesuíticas e as vilas espanholas criadas no território do Paraná ganharam novas imagens e textos e a exibição de novos objetos, que estavam nas reservas técnicas, mas que foram ressignificados. Foram incorporados assuntos deixados de lado até então, como o tropeirismo, e outras religiões que não apenas a católica, além de uma revisão no papel do negro na história do Paraná apresentado no circuito.

Esta questão era muito sensível e urgente no museu. A única representação da população negra no Museu Paranaense até então (fora exposições temporárias), era a exibição de correntes e instrumentos de aprisionamento e castigo, que talvez sequer se referissem diretamente à escravidão, mas que eram tratados como tal sobre um tablado, deixando os objetos à interpretação dos visitantes, induzindo-os a pensar que se o negro estava presente na história do estado era sob o papel de escravizados. Essa visão era apoiada pela historiografia mais tradicional que negava ou menosprezava a existência de negros no estado, invisibilizando-os tanto no passado como no presente. Como resolver esta questão, numa prática de uma museologia decolonizante?

A saída foi convidar acadêmicos e representantes dos movimentos sociais negros para visitar o circuito e as reservas técnicas e apresentar propostas de como apresentar a presença dos negros na história do Paraná, de maneira afirmativa e respeitosa. Um grupo de trabalho foi organizado, sob a coordenação da antropóloga Fernanda Maranhão e do historiador Renê Ramos. A também historiadora Tatiana Takatuzi, responsável pelo setor de história do museu, relatou em artigo[1] este processo e a exposição resultante dele, que inaugurada no final de 2018, foi motivo de grande alegria para os integrantes de movimentos sociais e de grande orgulho para a equipe do museu, pela curadoria coletiva e participativa que se estabeleceu.

No andar inferior, além da renovação dos setores já existentes, foram concebidas as exposições Conflitos armados no Paraná e Conflitos pela Posse da Terra. Na primeira foi montado um grande painel sobre conflitos militares no território do Paraná, ou que contou com sua participação, em especial na Revolução Federalista (1893-94); Guerra do Contestado (1912-16); nas batalhas no Oeste do Paraná que culminaram na formação da Coluna Prestes (1924) e nos acontecimentos da Revolução de 1930. Na segunda, foram descritas as lutas pela posse das terras na Revolta dos Posseiros do Sudoeste (1957), além de mapeadas todas as disputas que envolveram a grilagem de terras e também as construções dos grandes reservatórios de água das usinas hidrelétricas instaladas no Paraná.

Com essa grande remodelação no circuito de longa duração no final de 2018, o Museu Paranaense passou a abranger todo o território do Paraná, fazendo o registro da memória dos acontecimentos civis e militares relevantes, de grandes empresas locais já não existentes e dos movimentos sociais e culturais no estado até o limiar do século XXI. Para isso foi fundamental a atuação da equipe técnica, em especial dos historiadores do museu, além da interação com convidados do cenário cultural e acadêmico do Paraná. Uma instituição museal é um excelente local para se pôr em prática as pesquisas mais recentes, as concepções mais inclusivas e democráticas, desde que se abra para o que vem se produzindo nas universidades e se permaneça sensível às vozes das ruas.

Doutor em História pela UFPR

Doutorando em Museologia pela Universidade Lusófona de Lisboa

 

 



[1] TAKATUZI, Tatiana. O GT Culturas Negras no Paraná: a construção de uma exposição no Museu Paranaense. InRevista Eletrônica Ventilando Acervos, Florianópolis, v. 7, n. 2, p. 120-136, dez. 2019. Disponível em http://ventilandoacervos.museus.gov.br/edicao-atual/?fbclid=IwAR2PxCW2fI5MSqICs5EhxG0an98nGQ_B6ZTkuVMtMYFllPkSgO9HJeH6lk0, em 12/06/2020, às 17h.

Palavras-chave: ,

Deixe seu comentário!