Uma certa professora universitária, doutora, curso de Direito, USP, de nome Janaína Paschoal

 

“Pobre do país que precisa de heróis”… afirmou uma vez Berthold Brecht, tendo em mira o seu próprio país, cujo povo aplaudiu a ascensão dos nazistas.

Mas são pobres também as pessoas que aspiram esta condição para si; neste caso, nenhum psicanalista resistiria em afirmar: narcisismo primário.

Por certo, a admiração que se nutre pelo herói é quase inevitável, principalmente entre os jovens e os idosos:   bravura, coragem e espírito de aventura, tudo o que o adolescente, temeroso de sair de casa, aspira ter. Aos idosos, seus heróis fazem lembrar-lhes de seus tempos de vida mais intensa. Seja de uma ou de outra forma, ambas as gerações procuram por papéis relevantes no espaço público.

Assim sendo, os heróis são inevitáveis, mas eles aparecem como tais pelo julgamento de quem os vê.

Já os que agem para serem elogiados, acabam, no máximo, submetidos à bajulação.

Penso que é este o caso de Janaína Paschoal.

Assustei-me muito com sua performance: frases apocalípticas, abusando da primeira pessoa do singular, falando largamente de si e de como foi importante sua formação moral para chegar onde chegou, como é corajosa, que sofre ameaças mas não teme nada, etc.

Para o desgosto dos acadêmicos, cuja linguagem e postura são totalmente outras, sua aparição, justamente na tradicional Universidade de São Paulo, em abril, foi patética: como uma pregadora pentecostal, aos berros, dizia-se contra a república das cobras, sacudia um pano verde que combinava com sua blusa amarela; a voz embasbacada parecia que ia acabar, o cabelo se despenteou todo tal a movimentação do corpo, dedo em riste. Tinha pessoas ao seu lado com uma cara bem séria e ouviam-se sons de buzina vindos da plateia, além de gritos e aplausos.

Quando vi esta e outras de suas aparições, perguntei-me por que escolheram alguém tão avesso ao perfil desejado para um jurista e concluí: “ninguém vai lhe dar crédito”.

Mas qual não foi minha surpresa quando ouvi de pessoas, algumas, inclusive, que eu julgo esclarecidas, que Janaína inspirava confiança, era forte e que seu parecer não deixava sombra de dúvidas.

Assisti mais uma vez o vídeo gravado na USP, mais devagar e, desta vez, como etnóloga: ela espera os aplausos para continuar a falar; seu corpo recua e avança como estivesse constrangida por uma ordem divina; crê-se impelida à missão. Trata-se de um sermão, não de uma palestra. E sermão de profeta.

Suas palavras ressoam o par euforia/ sobressalto, os gritos parecem carregados de dor. Com toda a probabilidade, ela quer ser admirada, quer voar alto e parece não temer, como Ícaro, o calor do sol.

É certo que está a serviço de opositores do governo de Dilma Roussef, por isto é que ganhou visibilidade. E é justo que faça um parecer jurídico, ela estudou Direito e, geralmente, professores universitários são chamados para orientar a opinião pública ou quando se necessita de algum parecer técnico.

Mas por que ela extrapolou e assumiu o papel de justiceira e começou a arremedar a passionária Dolores Ibárruri (com todos as aspas possíveis)? Mais ainda, por que sua popularidade?

Arrisco a pensar que se trata de inflacionar a mídia com heróis, afinal, na mídia, heróis têm necessariamente vida efêmera, a imagem desgasta logo. Foi a vez dela, logo colocam outro.

Segundo, e não de maneira excludente, porque na falta de novas notícias, é necessário fazer como os fabricantes de produtos de limpeza: já que o conteúdo é sempre o mesmo, necessita-se trocar de embalagem. E infantilizar o público com nomes chamativos como “O Mago”, “Dr. Músculo”, “Ajax”.

Outra possibilidade igualmente impactante: para produzir o medo. Eles, a cobra, ela, a salvadora. Amanhã aparece uma nova aporia, mas tem de variar, as mesmas palavras e gestos não servem.

E a universidade, cujos professores se abrigam em seus gabinetes ou em suas salas de aula para, longe da cena pública, ensinar a pensar e a emitir juízo, pesquisar temas complexos que não podem ser reduzidos ao raciocínio maniqueísta, ficam se sentindo humilhados em suas vestimentas.

O momento é de ativismo; e quem não tem profissionais engajados a favor de suas causas, lança mão dos que se dispõem a exercer tal papel. Para tanto, o caminho mais rápido é a emulação do messianismo, senão, a “ boa obra“ se emascula.

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