A Universidade Operativa chegou para ficar?

Hannah Arendt quase sempre tem insights geniais. Ela afirmou em seu texto “Pensamento e considerações morais” que a crise da religião atingiu seu clímax não por causa dos incrédulos, mas sim quando os teólogos começaram a duvidar da existência de Deus.
Aplico este raciocínio para a área de Humanidades, tal como ela tem sido desenvolvida em alguns espaços do meio acadêmico. Hoje, exceto aquelas que são qualificadas como núcleo de excelência, as pesquisas em História, Antropologia, Sociologia, Ciência Política, Ciências psi estão se submetendo, consciente ou inconscientemente, tanto no objeto, como na metodologia e linguagem, a estratégias de marketing.
Como tornar visíveis ou até mesmo audíveis nossos “produtos”? Como usar o cinema em sala de aula? E a televisão? Como usar os audiovisuais em geral para atrair nossos “clientes” ? Pode-se usar o domínio do power point como parâmetro de avaliação dos alunos? Ou a encenação de um fato histórico tendo como personagens o corpo discente? Por que não, ao invés da enfadonha prova, os alunos não realizam uma entrevista com algum proeminente desde que bem idoso ou com um trabalhador que fez greve e tem fotos em que apareça a polícia, ou de uma mulher que ia a feira e sabe-se lá como se sentia neste tão curioso ofício,…

Antes de proferir uma crítica iconoclasta e desqualificar as pessoas e não os processos ou argumentos, ressalte-se que não é à toa que nos deixamos literalmente enredar eletronicamente. Afinal, quanto mais a educação formal se torna um negócio altamente lucrativo (é só observar o crescimento numérico dos estabelecimentos de ensino), tanto menos os professores são valorizados. O professor, pelo menos aos olhos dos responsáveis por tais estabelecimentos, está para o ensino assim como o pneu está para a Fórmula 1.
Claro que isso não é novidade e as críticas são razoavelmente conhecidas: falta de profundidade, falta de interação com os alunos, reprodução e não produção do conhecimento, baixo nível de exigências, mas não quero retomá-las agora.
Quero sugerir que a inflação das tecnologias educacionais pode ser um ato desesperado para atrair os alunos, afinal, o mercado da educação formal é altamente competitivo. Se isso gera mão de obra efetivamente qualificada e garante empregos é outra história, desconfio que não. Ademais, cursos derivados da administração de empresas, tais como empreendedorismo, marketing, comunicação aplicada ao mundo corporativo, gestão de pessoas e outros prometem muito mais chances de emprego em curto prazo do que as Humanidades. Por isso mesmo, ao lado de procurar atrair a atenção dos alunos, creio que se trata de um esforço desesperado para convencer a nós mesmos que temos algo a dizer, que somos úteis.
Não quero que o leitor pense que estou evocando, de forma saudosista, uma volta ao passado, embora alguns exemplos sejam de valia: a conjuntura da década de cinqüenta do século passado no Brasil, quando do aumento de faculdades de Ciências Humanas e Filosofia, e seu impacto na literatura, música, política, ensino fundamental. Ou a geração 68 e seu encontro com a Teoria Crítica, apesar ou por causa do autoritarismo. Ou o nosso papel no processo de redemocratização – lembro que fiz parte, na Universidade Federal do Paraná, de um movimento chamado Universidade Necessária, que reclamava justamente a produção de um conhecimento de qualidade e independente do mercado e dos interesses políticos.
Por isso, penso que nem toda a inovação é progressista e nem toda a tradição é reacionária. As Humanidades provocaram, naqueles momentos, uma contracultura e não uma subcultura. Elas produziam, sim, mão de obra qualificada para o mercado, mas não segundo a orientação do mercado.

Hoje, segundo Maria Helena Chauí … “à fragmentação econômica, social e política, imposta pela nova forma do capitalismo, corresponde uma ideologia autonomeada pós-moderna. Essa nomenclatura pretende marcar a ruptura com as idéias clássica e ilustradas, que fizeram a modernidade. Para essa ideologia, a razão, a verdade e a história são mitos totalitários; o espaço e o tempo são sucessão efêmera e volátil de imagens velozes e a compressão dos lugares e instantes na irrealidade virtual, que apaga todo contato com o espaço-tempo enquanto estrutura do mundo”… (http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_1_3.htm)

Eu até ficaria aliviada se estivéssemos dispostos a discutir a pós-modernidade, já que são anos e anos de um conceito epocal sem nomenclatura própria, mas que trouxe críticas muito apropriadas ao eurocentrismo. Mas não é isso que se vê: trata-se de um ato tornado fato; hoje, a universidade aderiu de vez às demandas do mercado, até mesmo na área de cultura (ver as leis de incentivo fiscal), e os professores tentam produzir indivíduos funcionais. Não são especialistas, são específicos.

Para tais convicções, parece que o pensamento organizado é um estorvo epistemológico. E o oposto da razão não é a irreflexão, mas o irracional como lugar da sensibilidade; vai daí a pretensão de transformar os temas em espetáculos.

Não tenho nada contra estudar emoções, afinal, sem (muita) gabolice, faço parte de um grupo que inaugurou no Brasil tais estudos no campo da História. Mas o que impressiona é o seguinte: que tais conteúdos, embora anunciados como avançados porque pós modernos ou não modernos revelam, no limite, uma atitude que no final das contas, produzem na escrita aquilo mesmo que seus autores mais querem negar: a separação entre o teórico do empírico, o erudito do popular, a forma do conteúdo, o subjetivo do objetivo.

Comentários:

  1. Daniele S. Souza disse:

    Gostei muito do texto… me fez lembrar de certa vez que uma pedagoga me chamou ” pra conversar” dizendo que os alunos tinham reclamado que eu era muito exigente… e “sugeriu” que eu tornasse minhas aulas mais agradáveis… procurasse no Youtube musiquinhas (sic) que ensinassem história… ééé dura a vida de pneu na fórmula 1… Vc pode ser trocado a qualquer momento… kkk

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