Vi

Vi-a.

 

Logo que, apaixonei-me. Ainda me lembro quando encalorado, apertei a campainha de seu apartamento de solitária … desde quando? Sua doçura escondia tudo.

Abriu numa pancada só.

Fios de cabelo combinados à luz cortavam-lhe um dos olhos. Noutro, viam-lhe pregas da idade, mas ela era muito linda para que seu semblante ali naquele cantinho frio e lentamente notívago do rosto, fosse maculado. Era apenas como o batente da porta, deixado com respingos pelo descuidado pintor, naquele caso, era o próprio Deus, e Deus a deixara em frente a mim, a quem eu queria dar vida.

Não era uma decisão, era um desespero avizinhado daquele desejo de apaziguamento.

Eu a tinha esperado sem saber nada do que se sucederia após a porta aberta, que dava para um apartamento pequeno, apequenado mais ainda pela falta de espelhos e pela cor verde que provavelmente foi escolhida por ela. Havia cantos desarrumados, algumas imitações preenchendo o lugar dos quadros que ela não tinha dinheiro para comprar.

Sorriu-me, encantei-me, já sabia que seria um encantamento, por falarem dela com elogios e invejas… diziam que de tão forte, intimidava a todos.

Mas não era assim. Era uma criança vestida de adulto, ainda que os óculos a tornassem grave e severa.

O resto do corpo não. O corpo falava com outras línguas, era independente do rosto.

Quando me atrevi a, sequiosamente,  demonstrar meu desejo, ainda que um pouco longe de seu calor, deixei-a pálida e a tornei fria, e ela me destruiu com uma pancada semelhante àquela que abriu a porta.

Você podia ser meu filho.

Seguiu-se uma gargalhada escancarada e escandalosamente seca que me fez corar.

Comecemos a falar do que o trouxe aqui.

Senti-me humilhado e desprezei aquele riso de falso deboche. O tempo havia se suspendido mas agora voltara apressado. Foram ao todo vinte e sete minutos, saí, e ela prosseguiu com sua libido ociosa. De quem riria, doravante, ali sozinha, olhando pela janela que dava para a imensa avenida, cujo barulho eu passava a ter como companheiro?

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